segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Capítulo Dez - O Herói Perdido

X
Piper

TODA A IDEIA DA FOGUEIRA ALUCINAVA PIPER. A fazia lembrar aquela grande
fogueira nos sonhos, e seu pai amarrado num poste.
O que ela conseguiu era quase tão apavorante quanto: um grupo de canto. As
escadas do anfiteatro eram gravadas no lado de uma colina, encarando um poço de fogo
alinhado com pedras. Cinquenta ou sessenta crianças enchiam as fileiras, agrupadas sob
vários banners.
Piper localizou Jason na frente, do lado de Annabeth. Leo estava por perto,
sentando com um grupo de campistas fortes sob um banner cinza de aço brasonado com
um martelo. Em pé à frente do fogo, meia-dúzia de campistas com guitarras e harpas
antiquadas e estranhas — liras? — estavam pulando, liderando uma música sobre
pedaços de armaduras, algo sobre como as suas avós vestiam-se para a guerra. Todos
estavam cantando com eles e fazendo gestos para os pedaços de armadura e brincando.
Foi possivelmente a coisa mais estranha que Piper já viu — uma daquelas músicas de
fogueira que seriam completamente embaraçosas na luz do dia; mas no escuro, com
todos participando, era meio que brega e divertido. Conforme o nível de energia crescia,
as chamas também cresciam, virando de vermelho para laranja e para ouro.
Finalmente a música acabou com vários aplausos desordeiros. Um sujeito num
cavalo trotou. Pelo menos na luz bruxuleante, Piper pensou que era um sujeito num
cavalo. Então ela percebeu que era um centauro — na metade de baixo era um garanhão
branco, na sua metade de cima um sujeito de meia-idade com cabelo cacheado e uma
barba cortada. Ele brandiu uma lança espetada com marshmallows tostados. “Muito
bem! E um bem-vindo especial para nossas novas visitas. Eu sou Quíron, diretor do
acampamento e das atividades, e estou feliz que todos vocês chegaram aqui vivos e com
a maioria dos seus membros fixados. Num momento, prometo que vamos aos
marshmallows, mas primeiro —”
“E a captura à bandeira?” alguém gritou.
Rosnados romperam entre algumas crianças com armadura, dentando sob um
banner vermelho com o emblema duma cabeça de javali.
“Sim,” o centauro disse. “Eu sei que o chalé de Ares estava ansioso para retornar
à floresta para as nossas atividades regulares.”
“E matar pessoas!” um deles gritou.
“Porém,” Quíron disse, “até o dragão ser posto sob controle, isso não será
possível. Chalé Nove, algo para informar a respeito disso?”
Ele virou para o grupo do Leo. Leo piscou para Piper e atirou nela com uma
arma imaginária. A garota perto dele levantou-se inconfortavelmente. Ela vestia um
casaco do exército como o de Leo, com seu cabelo coberto com uma bandana vermelha.
“Estamos trabalhando nisso.”
Mais rosnados.
“Como, Nyssa?” uma criança de Ares exigiu.
“Realmente difícil,” a garota disse.
Ela sentou a vários gritos e reclamações, que fizeram o fogo crepitar
caoticamente. Quíron bateu o casco contra as pedras do poço de fogo — bang, bang,
bang — e os campistas silenciaram.
“Teremos que ser pacientes,” Quíron disse. “Entretanto, temos questões mais
urgentes a discutir.”
“Percy?” alguém perguntou. O fogo escurecia a cada vez, mas Piper não
precisava do ânimo das chamas para sentir a ansiedade da multidão.
Quíron gesticulou para Annabeth. Ela tomou um fôlego profundo e levantou.
“Eu não encontrei Percy,” ela anunciou. Sua voz falhou um pouco quando ela
disse seu nome. “Ele não estava no Grand Canyon como pensei. Mas não estamos
desistindo. Temos equipes em todos os lugares. Grover, Tyson, Nico, as Caçadoras de
Ártemis — todos estão procurando. Nós vamos encontrá-lo. Quíron está falando sobre
algo diferente. Uma nova missão.”
“É a Grande Profecia, não é?” uma garota gritou.
Todos viraram. A voz viera de um grupo atrás, sentando sob um banner cor-derosa
com uma pomba. Eles estiveram conversando entre eles e não dando muita atenção
até a líder deles se levantar: Drew.
Todos olharam surpresas. Aparentemente Drew não discutia muito com a
multidão.
“Drew?” Annabeth disse. “O que você quer dizer?”
“Bem, vamos lá.” Drew abriu as mãos como se a verdade estivesse óbvia. “O
Olimpo está fechado. Percy está desaparecido. Hera lhe manda uma visão e você volta
com três novos semideuses num dia. Digo, algo estranho está acontecendo. A Grande
Profecia começou, certo?”
Piper sussurrou para Rachel, “Sobre o que ela está falando — a Grande
Profecia?”
Então ela percebeu que todos estavam olhando para Rachel, também.
“Então?” Drew invocou. “Você é o oráculo. Começou ou não?”
Os olhos de Rachel pareciam assustados na luz da fogueira. Piper tinha medo
que ela pudesse apertar e começar a canalizar uma estranha deusa-pavão novamente,
mas ela deu um passo à frente calmamente e disse ao acampamento:
“Sim,” ela disse. “A Grande Profecia começou.”
O pandemônio rompeu.
Piper pegou o olho do Jason. Ele gesticulou com os lábios, Você está bem? Ela
assentiu e administrou um sorriso, mas então desviou o olhar. Era muito doloroso vê-lo
e não estar com ele.
Quando a conversa finalmente baixou, Rachel deu outro passo para a plateia, e
mais de cinquenta semideuses recuaram dela, como se uma mortal ruiva e magra fosse
mais ameaçadora que todos eles colocados juntos.
“Para esses de vocês que não ouviram,” Rachel disse, “a Grande Profecia foi
minha primeira profecia. Chegou em Agosto. É assim:
“Sete meio-sangues atenderão ao chamado. Em tempesdade ou fogo, o mundo
terá acabado —”
Jason atirou a seus pés. Seus olhos pareciam selvagens, como se tivesse acabado de ser
acertado por uma arma de eletrochoque.
Até Rachel pareceu pega de surpresa. “J-Jason?” ela disse. “O que está —”
“Ut cum spiritu postrema sacramentum dejuremus,” ele cantou. “Et hostes
ornamenta addent ad ianuam necem.”
Um silêncio inquietante estabeleceu-se no grupo. Piper pôde ver pelos seus
rostos que vários deles estavam tentando traduzir as linhas. Ela podia dizer que era latim, mas não tinha certeza porque seu esperançosamente futuro namorado estava
subitamente cantando como um sacerdote católico.
“Você acabou de... finalizar a profecia,” Rachel gaguejou. “— Um juramento a
manter com um alento final / E inimigos com armas ás Portas da Morte afinal. Como
você —”
“Eu conheço essas linhas.” Jason tremeu e colocou as mãos nas têmporas. “Não
sei como, mas eu conheço essa profecia.”
“Em latim, nada menos,” Drew gritou. “Bonito e esperto.”
Houve alguns risos do chalé de Afrodite. Deus, que bando de perdedores, Piper
pensou. Mas não fazia muito para quebrar a tensão. A fogueira estava queimando uma
tonalidade caótica e nervosa de verde.
Jason sentou, parecendo embaraçado, mas Annabeth colocou uma mão no seu
ombro e murmurou algo tranquilizador. Piper sentiu uma pontada de ciúmes. Devia ser
ela ao lado dele, reconfortando-o.
Rachel Dare ainda parecia um pouco mexida. Ela olhou para Quíron pedindo por
orientação, mas o centauro continuou sorridente e em silêncio, como se estivesse
assistindo uma peça que não poderia interromper — uma tragédia que acabaria com
muitas pessoas mortas no palco.
“Bem,” Rachel disse, tentando recuperar sua compostura. “Então, é, essa é a
Grande Profecia. Esperávamos que não pudesse acontecer por anos, mas temo que
esteja começando agora. Não posso provar. Só uma sensação. E como Drew disse,
alguma coisa estranha está acontecendo. Os sete semideuses, quem quer que sejam,
ainda não foram reunidos. Tenho a sensação que alguns estão aqui essa noite. Alguns
não.”
Os campistas começaram a agitarem e murmurarem, olhando um para o outro
nervosamente, até uma voz sonolenta na multidão gritou, “Estou aqui! Ah... vocês
estavam fazendo chamada?”
“Volte a dormir, Clovis,” alguém gritou, e várias pessoas riram.
“Entretanto,” Rachel continuou, “não sabemos o que a Grande Profecia
significa. Não sabemos que desafio os semideuses irão enfrentar, mas como a primeira
Grande Profecia profetizou a Guerra dos Titãs, podemos supor que a segunda Grande
Profecia irá profetizar algo pelo menos nesse nível de maldade.”
“Ou pior,” Quíron murmurou.
Talvez ele não quisesse que todos ouvissem, mas ouviram.
A fogueira imediatamente virou roxo escuro, a mesma cor como no sonho de
Piper.
“O que nós sabemos,” Rachel disse, “é que a primeira fase começou. Um
problema maior surgiu, e precisamos de uma missão para resolver isso. Hera, a rainha
dos deuses, foi raptada.”
Silêncio chocado. Então cinquenta semideuses começaram a conversar de vez.
Quíron bateu seu casco novamente, mas Rachel ainda tinha que esperar antes
que pudesse recuperar a atenção deles.
Ela contou-os sobre o acidente no céu do Grand Canyon — como Gleeson
Hedge sacrificou-se quando os espíritos de tempestade atacaram, e os espíritos
alertaram que era só o começo. Eles aparentemente serviam alguma grande mestra que
destruiria todos os semideuses.
Então Rachel contou para eles sobre o desmaio de Piper no chalé de hera. Piper
tentou manter uma expressão calma, mesmo quando ela notou Drew na fileira de trás,
pantominando um desmaio, e suas amigas rindo. Finalmente Rachel lhes contou sobre a
visão de Jason na sala de estar da Casa Grande. A mensagem que Hera entregou era tão
similar que Piper teve um calafrio. A única diferença: Hera alertara para Piper não traíla:
Curve-se ao seu desejo, e o rei deles irá se erguer condenando todos nós. Hera sabia
sobre a ameaça do gigante. Mas se aquilo era verdade, por que ela não alertou Jason, e
expôs Piper como uma agente inimiga?
“Jason,” Rachel disse. “Hã... você lembra seu último nome?”
Ele parecia autoconsciente, mas sacudiu a cabeça.
“Vamos só lhe chamar de Jason, então,” Rachel disse. “Está claro que a própria
Hera lhe expediu uma missão.”
Rachel pausou, como se desse a Jason uma chance de protestar seu destino. Os
olhos de todos estavam nele; havia tanta pressão, Piper pensou que teria se curvado na
sua posição. Contudo ele parecia corajoso e determinado. Ele endureceu a mandíbula e
assentiu. “Eu concordo.”
“Você deve salvar Hera para prevenir um grande mal,” Rachel continuou.
“Algum tipo de rei a erguer-se. Por motivos que ainda não entendemos, deve acontecer
no solstício de inverno, somente quatro dias a partir de agora.”
“Esse é o dia do conselho dos deuses,” Annabeth disse. “Se os deuses não já
souberam que Hera sumiu, eles definitivamente irão reconhecer sua a ausência pelo
então. Eles provavelmente romperão brigando, acusando um ao outro de pegá-la. É o
que eles geralmente fazem.”
“O solstício de inverno,” Quíron falou, “também é a hora de maior escuridão. Os
deuses se reúnem nesse dia, como mortais sempre fazem, pois há força nos números. O
solstício é um dia quando a magia do mal é forte. Magia antiga, mais velha que os
deuses. É um dia quando as coisas... se agitam.”
O jeito que ele disse isso, agitação soou absolutamente sinistra — como se
devesse ser um delito de primeiro grau, não algo que você fez para massa de biscoito.
“Ok,” Annabeth falou, olhando para o centauro. “Obrigada, Capitão Sunshine.
Que quer que esteja acontecendo, eu concordou com Rachel. Jason foi escolhido para
liderar essa missão, então —”
“Por que ele não foi reclamado?” alguém gritou do chalé de Ares. “Se ele é tão
importante —”
“Ele foi reclamado,” Quíron anunciou. “Tempos atrás. Jason, nos dê uma
demonstração.”
A princípio, Jason não pareceu entender. Ele deu um passo para frente
nervosamente, mas Piper não pôde deixar de pensar como ele parecia incrível com seus
cabelos loiros brilhando na luz do fogo, suas feições reais como a de uma estátua
romana. Ele olhou para Piper, e ela assentiu encorajadoramente. Ela fez uma mímica de
arremessar uma moeda.
Jason colocou uma mão no bolso. Sua moeda cintilou no ar, e quando ele a
pegou em sua mão, ele estava segurando uma lança — uma haste de ouro de
aproximadamente dois metros, com uma ponta de dardo numa extremidade. Os outros
semideuses ofegaram. Rachel e Annabeth deram um passo para trás para evitar a ponta,
que parecia afiada como um furador de gelo.
“Isso não era...” Annabeth hesitou. “Pensei que você tivesse uma espada.”
“Hã, sobe as extremidades, eu acho,” Jason disse. “Mesma moeda, forma de
arma de longo alcance.”
“Rapaz, eu quero uma!” gritou alguém do chalé de Ares.
“Melhor que a lança elétrica da Clarisse, cara!” um dos seus irmãos concordou.
“Elétrica,” Jason murmurou como se fosse uma boa ideia. “Recuem.”
Annabeth e Rachel entenderam a mensagem. Jason levantou sua lança, e um
trovão rompeu no céu. Todos os cabelos no braço de Piper se eriçaram. Um raio
arqueou para baixo através do ponto da lança dourada e acertou a fogueira com a força
de um projétil de artilharia.
Quando a fumaça dissipou, e o zumbido nos ouvidos de Piper diminuiu, o
acampamento inteiro estava congelado em choque, meio cego, coberto de cinzas,
olhando para o lugar onde a fogueia estava. Choveu cinzas de todo o lugar. Um pedaço
de lenha queimando empalou-se alguns metros da criança dorminhoca Clovis, que não
tinha nem se mexido.
Jason baixou sua lança. “Hã... desculpe.”
Quíron limpou algumas brasas queimando na sua barba. Ele fez uma careta
como se seus piores medos fossem confirmados. “Um pouco destruidor, talvez, mas
você conseguiu o que queria. E acredito que sabemos que seu pai é.”
“Júpiter,” Jason disse. “Quero dizer Zeus. Lorde do Céu.”
Piper não pôde deixar de sorrir. Fazia perfeito sentido. O deus mais poderoso, o
pai de todos os maiores heróis nos mitos antigos — ninguém mais poderia ser
possivelmente o pai de Jason.
Aparentemente, o resto do acampamento não tinha tanta certeza. Tudo quebrou
em caos, com dúzias de pessoas perguntando coisas até Annabeth levantar os braços.
“Esperem!” ela disse. “Como ele pode ser filho de Zeus? Os Três Grandes... o
pacto deles de não ter filhos mortais... como não pudemos saber sobre ele antes?”
Quíron não respondeu, mas Piper teve a sensação de que ele sabia. E a verdade
não era boa.
“A coisa importante,” Rachel disse, “é que Jason está aqui agora. Ele tem uma
missão para cumprir, o que significa que ele precisará da sua própria profecia.”
Ela fechou os olhos e desmaiou. Dois campistas correram para a frente e a
pegaram. Um terceiro correu para o lado do anfiteatro e pegou um banco dourado de
três pernas, como se tivessem sido treinados para essa função. Eles soltaram Rachel no
banco em frente à fogueira arruinada. Sem o fogo, a noite era escura, mas névoa verde
começou a redemoinhar ao redor dos pés de Rachel. Quando ela abriu os olhos, eles
estavam brilhando. Fumaça esmeralda surgiu de sua boca. A voz que saiu era metálica e
antiga — o som que uma cobra faria se pudesse falar:
“Criança do raio, cuidado com a terra, A vingança dos gigantes os sete irão
nascer, A forja e a pomba quebrarão a prisão, E a morte desatrelada pela ira de
Hera.”
Na última palavra, Rachel caiu, mas seus ajudantes estavam esperando para pegá-la.
Eles a arrebataram da fogueira e a deitaram no canto para descansar.
“Isso é normal?” Piper perguntou. Então ela percebeu que havia falado no
silêncio, e todos estavam olhando para ela. “Digo... ela vomita fumaça verde
constantemente?”
“Deuses, como você é estúpida!” Drew zombou. “Ela acabou de emitir uma
profecia — a profecia do Jason para salvar Hera! Por que você simplesmente não —”
“Drew,” Annabeth vociferou. “Piper fez uma pergunta clara. Algo sobre essa
profecia definitivamente não é normal. Se quebrar a prisão de Hera libera sua ira e causa
várias mortes... por que a libertaríamos? Pode ser uma armadilha, ou — ou talvez Hera
vá se virar contra seus salvadores. Ela nunca foi gentil com heróis.”
Jason levantou. “Não tenho muita escolha. Hera pegou minha memória. Preciso
dela de volta. Além disso, não podemos simplesmente não ajudar a rainha dos céus se
ela está em perigo.”
Uma garota do chalé de Hefesto se levantou — Nyssa, a de bandana vermelha.
“Talvez. Mas você devia ouvir a Annabeth. Hera pode ser vingativa. Ela jogou seu
próprio filho — nosso pai — de um Monte só porque ele era feio.”
“Realmente feio,” riu alguém de Afrodite.
“Cale a boca!” Nyssa rosnou. “Em todo o caso, também temos que pensar — por
que tomar cuidado com a terra? E o que é a vingança dos gigantes? Com o que estamos
tratando aqui que é poderoso o bastante para sequestrar a rainha dos céus?”
Ninguém respondeu, mas Piper notou Annabeth e Quíron tendo uma troca
silenciosa. Piper pensou que era algo como:
Annabeth: A vingança dos gigantes... não, não pode ser.
Quíron: Não fale disso aqui. Não os assuste.
Annabeth: Você está brincando comigo! Não podemos ser tão azarados.
Quíron: Depois, criança. Se você os contasse tudo, eles estariam muito
aterrorizados para continuar.
Piper sabia que era loucura pensar que ela podia ler suas expressões tão bem —
duas pessoas que ela mal conhecia. Mas ela estava absolutamente positiva que ela os
entendeu, e isso assustou suas jujubas para fora.
Annabeth respirou fundo. “É a missão de Jason,” ela anunciou, “então é a
escolha de Jason. Obviamente, ele é a criança do raio. Segundo a tradição, ele pode
escolher dois companheiros quaisquer.”
Alguém do chalé do Hermes gritou, “Bem, você obviamente, Annabeth. Você
tem mais experiência.”
“Não, Travis,” Annabeth disse. “Primeiro, eu não estou ajudando Hera. Todas as
vezes que tentei, ela me enganou, ou voltou para trapacear depois. Esqueça. Sem
chance. Em segundo lugar, a primeira coisa que vou fazer na manhã é partir para
encontrar Percy.”
“Está conectado,” Piper deixou escapar, sem saber como ela teve coragem.
“Você sabe que é verdade, não é? Esse negócio completo, o desaparecimento do seu
namorado — tudo está conectado.”
“Como?” perguntou Drew. “Se você é tão esperta, como?”
Piper tentou formar uma resposta, mas não conseguiu.
Annabeth a salvou. “Você pode estar certa, Piper. Se isso está conectado, vou
descobrir do outro lado — procurando por Percy. Como disse, não estou prestes a
apressar-me a resgatar Hera, mesmo se seu desaparecimento põe o resto dos olimpianos
lutando novamente. Mas há outro motivo que eu não possa ir. A profecia diz diferente.”
“Diz quem eu escolho,” Jason concordou. “A forja e a pomba quebrarão a
prisão. A forja é o símbolo de Vul — Hefesto.”
Sob o banner do Chalé Nove, os ombros da Nyssa caíram, como se lhe foi dada
uma bigorna pesada para carregar. “Você tem que tomar cuidado com a terra,” ela disse,
“você devia evitar viajar por terra. Você precisará de transporte aéreo.”
Piper estava prestes a gritar que Jason podia voar. Mas então ela pensou melhor
a respeito. Aquilo era para Jason contá-los, e ele não estava voluntariando a informação.
Talvez ele calculasse que já tivera alucinado-os o bastante para uma noite.
“A biga voadora está quebrada,” Nyssa continuou, “e os pégasos, estamos
usando para procurar pelo Percy. Mas talvez o chalé do Hefesto possa ajudar
descobrindo algo mais para ajudar. Com Jake incapacitado, sou a campista sênior. Posso
voluntariar-me para a missão.”
Ela não soava entusiasmada.
Então Leo levantou-se. Ele estivera muito quieto, Piper quase esqueceu que ele
estava ali, o que é totalmente fora do estilo de Leo.
“Sou eu,” ele disse.
Seus companheiros se agitaram. Vários tentaram empurrá-lo de volta ao assento,
mas Leo resistiu.
“Não, sou eu. Eu sei que é. Eu tenho uma ideia para o problema do transporte.
Deixem-me tentar. Eu posso resolver isso!”
Jason estudou-o por um momento. Piper tinha que certeza que ele ia dizer não
para Leo. Aí ele sorriu. “Começamos isso juntos, Leo. Só parece certo que você venha
também. Se você nos encontrar uma carona, você está dentro.”
“Yes!” Leo bateu o punho.
“Será perigoso,” Nyssa o alertou. “Miséria, monstros, sofrimento terrível.
Possivelmente ninguém de vocês voltará vivo.”
“Ah.” Subitamente Leo não pareceu tão animado. Então ele lembrou que todos
estavam observando. “Digo... Ah, legal! Sofrimento? Amo sofrimento! Vamos fazer
isso.”
Annabeth assentiu. “Então, Jason, você só precisa escolher o terceiro membro da
missão. A pomba —”
“Ah, absolutamente!” Drew estava de pé e brilhando um sorriso a Jason. “A
pomba é Afrodite. Todos sabem disso. Eu sou totalmente sua.”
As mãos de Piper cerraram-se. Ela deu um passo à frente. “Não.”
Drew virou os olhos. “Ah, por favor, garota lixo. Desista.”
“Eu tive a visão de Hera; não você. Eu tenho que fazer isso.”
“Qualquer um pode ter uma visão,” Drew disse. “Você só estava no lugar certo
na hora certa.” Ela virou para Jason. “Olhe, lutar é tudo bem, suponho. E pessoas que
constroem coisas...” Ela olhou para Leo em desdém. “Bem, suponho que alguém tenha
que sujar as mãos. Mas você precisa de charme do seu lado. Eu posso ser muito
persuasiva. Eu poderia ajudar muito.”
Os campistas começaram a murmurou sobre como Drew era bastante
persuasiva. Piper podia ver Drew conquistando-os. Até Quíron estava coçando a barba,
como se a participação de Drew subitamente fizesse sentido para ele.
“Bem...” Annabeth falou. “Dadas as palavras da profecia —”
“Não!” A própria voz de Piper soou estranha aos seus ouvidos — mais insistente
e rica em tom. “Eu tenho que ir.”
Então a coisa mais estranha aconteceu. Todos começaram a assentir,
murmurando que hum, o ponto de vista da Piper fazia sentido também. Drew olhou em
volta, incrédula. Até algumas das suas próprias campistas estavam assentindo.
“Sai dessa!” Drew vociferou para a multidão. “O que Piper pode fazer?”
Piper tentou responder, mas sua confiança começou a se esvair. O que ela podia
oferecer? Ela não era uma lutadora, ou planejadora, ou uma montadora. Ela não tinha
experiência exceto entrar em encrenca e ocasionalmente convencer pessoas a fazer
coisas estúpidas.
E mais, ela era uma mentirosa. Ela precisava ir nessa missão por motivos que
iam além de Jason — e se ela fosse ela acabaria traindo todos ali. Ela ouviu aquela voz
no sonho: Execute nossa ordem, e você pode partir viva. Como ela podia fazer uma
escolha assim — entre ajudar seu pai e ajudar Jason?
“Bem,” Drew disse presunçosamente, “suponho que isso resolve.”
Subitamente ouve uma arfada coletiva. Todos olharam para Piper como se ela
fosse explodir. Ela queria saber o que fez de errado. Então ela percebeu que havia um
brilho avermelhado ao redor dela.
“O quê?” ela perguntou.
Ela olhou sobre si, mas não havia nenhum sinal queimando como o que apareceu
sobre Leo. Então ela olhou para baixo e ganiu.
Suas roupas... o que no mundo ela estava vestindo? Ela desprezava vestidos. Ela
não tinha um vestido. Mas agora ela estava adornada num bonito vestido branco sem
mangas que descia aos tornozelos, com um decote em forma de V tão baixo que era
totalmente embaraçoso. Delicadas braçadeiras douradas revolviam seu bíceps. Um colar
complexo de âmbar, coral, e flores douradas resplandecendo no seu peito, e seu cabelo...
“Ah, Deus,” ela disse. “O que aconteceu?”
Uma Annabeth aturdida apontou para a adaga de Piper, que estava agora suja de
óleo e brilhando, pendurada no seu lado por laços dourados. Piper não queria puxá-la.
Ela tinha medo do que veria. Mas sua curiosidade venceu. Ela desembainhou Katoptris
e olhou para seu reflexo na lâmina de metal polida. Seu cabelo estava perfeito:
luxuriante, longo e castanho-chocolate, trançado com fitas douradas num lado de forma
que caia no seu ombro. Ela até usava maquiagem, melhor do que Piper jamais iria saber
se produzir — toques sutis que faziam seus lábios vermelho-cereja e exibia todas as
cores diferentes no seus olhos.
Ela estava... ela estava...
“Linda,” Jason exclamou. “Piper, você... você está uma maravilha.”
Sob diferentes circunstâncias, aquilo teria sido o momento mais feliz da sua
vida. Mas agora todos estavam olhando para ela como se fosse um fenômeno. O rosto
de Drew estava completo de horror e revulsão. “Não!” ela gritou. “Não é possível!”
“Não sou eu,” Piper protestou. “Eu — não entendo.”
O centauro Quíron dobrou as pernas frontais e inclinou-se para ela, e todos os
campistas seguiram seu exemplo.
“Saudações, Piper McLean,” Quíron anunciou gravemente, como se ele
estivesse falando no seu funeral. “Filha de Afrodite, senhora das pombas, deusa do
amor.”

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