VII
Jason
ASSIM QUE JASON VIU A CASA, ele soube que era um homem morto.
“Aqui estamos nós!” Drew disse alegremente. “A Casa Grande, quartel-general
do acampamento.”
Ela não parecia ameaçadora, só uma mansão de quatro andares pintada de azul
bebê com acabamento branco. A varanda tinha cadeiras de descanso, uma mesa de
cartas, e uma cadeira de rodas vazia. Sinos de vento formavam ninfas se transformando
em árvores quando batiam. Jason podia imaginar velhinhos vindo aqui para férias de
verão, sentados na varanda e bebendo suco de ameixa enquanto assistiam o pôr-do-sol.
Entretanto, as janelas pareciam olhar para ele como olhos irritados. A grande entrada
parecia pronta para engoli-lo. Na aresta mais alta, um cata-vento de uma águia de
bronze girava no ar e apontava direto na sua direção, como se dissesse para ele dar
meia-volta.
Cada molécula no corpo de Jason lhe disse que ele estava em território inimigo.
“Eu não devia estar aqui,” ele disse.
Drew enroscou seu braço no dele. “Ah, por favor. Você é perfeito aqui, querido.
Acredite em mim, eu já vi vários heróis.”
Drew cheirava como o Natal — uma estranha combinação de pinheiro e nozmoscada.
Jason queria saber se ela sempre cheirava assim, ou se era algum tipo de
perfume especial para os feriados. Seu delineador rosa era realmente distrativo. Toda
hora que ela piscava, ele se sentia obrigado a olhar para ela. Talvez aquele fosse seu
objetivo, exibir seus belos olhos castanhos. Ela era linda. Sem nenhuma dúvida disso.
Mas ela fez Jason se sentir desconfortável.
Ele puxou seu braço do modo mais gentil que pôde. “Olhe, eu prezo —”
“É aquela garota?” Drew fez beiço. “Ah, por favor, me diga que você não está
namorando a Rainha do Lixo.”
“Você quer dizer Piper? Hã...”
Jason não sabia como responder. Ele nem pensava se vira Piper mais cedo, mas
ele se sentia estranhamente culpado por isso. Ele sabia que não deveria estar nesse
lugar. Ele não devia fazer amizade com essas pessoas, e certamente ele não deveria
namorar nenhuma delas. Entretanto... Piper estivera segurando sua mão quando ele
acordou naquele ônibus. Ela acreditava que era sua namorada. Ela estivera brava no céu,
lutando com aqueles ventus, e quando Jason a pegara no meio do ar e eles se seguraram
cara-a-cara, ele não podia fingir que ele não estava um pouco tentado a beijá-la. Mas
aquilo não estava certo. Ele nem sabia sua própria história. Ele não podia trocar
emoções com ela assim.
Drew rolou os olhos. “Deixe-me te ajudar a decidir, querido. Você merece coisa
melhor. Um garoto com o seu rosto e talento óbvio?”
Ela não estava olhando para ele, porém. Ela estava olhando para um local bem
acima da sua cabeça.
“Você está esperando um sinal,” ele supôs. “Como aquele sobre a cabeça do
Leo.”
“O quê? Não! Bem... sim. Digo, do que ouvi você é bastante poderoso, certo?
Você vai ser importante no acampamento, então calculo que seu pai irá lhe reclamar a
qualquer momento. E eu amaria ver isso. Eu quero estar com você a cada passo do
caminho! Então é seu pai ou sua mãe o deus? Por favor, me diga que não é sua mãe. Eu
odiaria se você fosse um filho de Afrodite.”
“Por quê?”
“Porque você seria meu meio-irmão, bobo. Você não pode ficar com alguém do
seu próprio chalé. Eca!”
“Mas todos os deuses não são relacionados?” Jason perguntou. “Então todos
aqui não são seus primos ou alguma coisa?”
“Como você é fofo! Querido, o lado divino da sua família não conta, exceto pelo
seu pai. Então qualquer um de outro chalé — eles são jogo limpo. Então quem é seu
parente olimpiano — mãe ou pai?”
Como sempre, Jason não tinha uma resposta. Ele ergueu os olhos, mas nenhum
sinal brilhante apareceu sobre sua cabeça. No topo da Casa Grande, o cata-vento ainda
estava apontando na sua direção, aquela águia de bronze olhando como se falasse, Dê
meia-volta, criança, enquanto ainda pode.
Então ele ouviu passos na varanda da frente. Não — não passos — cascos.
“Quíron!” Drew chamou. “Esse é Jason. Ele é totalmente incrível!”
Jason recuou tão rápido que ele quase caiu. Contornando o canto da varanda
estava um homem nas costas de um cavalo. Exceto que ele não estava nas costas do
cavalo — ele era parte de um. Da cintura para cima ele era humano, com cacheados
cabelos castanho e uma barba bem-cortada. Ele vestia uma camiseta que dizia Melhor
Centauro do Mundo, e tinha um arco e uma aljava amarrados nas costas. Sua cabeça era
tão alta que ele precisava se abaixar para não bater nas luzes da varanda, porque da
cintura para baixo, ele era um garanhão branco.
Quíron começou a sorrir para Jason. Então a cor drenou do seu rosto.
“Você...” Os olhos do centauro arregalaram-se como os de um animal sendo
apertado. “Você devia estar morto.”
* * *
Quíron ordenou Jason — bem, convidou, mas soou como uma ordem — a entrar
na casa. Ele falou para Drew voltar ao seu chalé, o que fez Drew não parecer feliz.
O centauro trotou para a cadeira de rodas vazia na varanda. Ele se desfez da sua
aljava e arco e recuou-se na cadeira, que abriu como uma caixa de mágica. Quíron
cuidadosamente abaixou-se nela com suas pernas traseiras e começou a se apertar num
espaço que devia ser muito pequeno. Jason imaginou barulhos inversos de um caminhão
— bip, bip, bip — enquanto a metade de baixo do centauro desaparecia e a cadeira
ajustou-se, fazendo aparecer um conjunto de pernas humanas falsas cobertas por um
cobertor, de forma que Quíron parecia ser um mortal normal numa cadeira de rodas.
“Siga-me,” ele ordenou. “Temos limonada.”
A sala de estar parecia que fora reprimida por uma floresta tropical. Videiras
curvavam-se pelas paredes e pelo teto, o que Jason achou um pouco estranho. Ele não
achava que plantas crescessem assim, do lado de dentro, especialmente no inverno, mas
essas eram frondosas e verdes e cheias de cachos de uvas vermelhas.
Sofás de couro encaravam uma lareira de pedra com o fogo estalando. Apertado
num canto, um fliperama de Pacman antigo fazia bip e piscava. Montada nas paredes
havia uma coleção de máscaras — como de teatro grego, sorridentes/tristes, máscaras
Mardi Gras emplumadas, máscaras de carnevale venezianas com grandes narizes
parecidos com bicos, e máscaras esculpidas em madeira da África. Videiras cresciam
entre suas bocas parecendo que elas tinham línguas frondosas. Algumas tinham uvas
vermelhas inchando pelo buraco dos olhos.
Mas a coisa mais esquisita era a cabeça do leopardo estofado sobre a lareira.
Parecia tão real, seus olhos pareciam seguir Jason. Então ele rosnou, e Jason quase
saltou de sua pele.
“Ora, Seymour,” Quíron repreendeu. “Jason é um amigo. Comporte-se.”
“Essa coisa está viva!” Jason disse.
Quíron remexeu no bolso lateral da sua cadeira de rodas e tirou um pacote de
biscoitos. Ele jogou um para o leopardo, que o abocanhou e lambeu os lábios.
“Você precisa desculpar a decoração,” Quíron disse. “Tudo isso era um presente
de despedida do nosso antigo diretor antes de ser chamado ao Monte Olimpo. Ele achou
que iria nos ajudar a lembrá-lo. O Sr. D tem um senso de humor estranho.”
“Sr. D,” Jason disse. “Dioniso?”
“Uhhumm.” Quíron derramou limonada, embora suas mãos estivessem
tremendo um pouco. “Como por Seymour, bem, o Sr. D o liberou de uma venda de
garagem em Long Island. O leopardo é o animal sagrado de Dioniso, entende, e o Sr. D
ficou aterrorizado que alguém empalhasse tal nobre criatura. Ele decidiu concedê-lo a
vida, numa hipótese que a vida como uma cabeça pendurada era melhor do que
nenhuma vida, afinal. Devo dizer que é um destino mais bondoso do que o antigo dono
de Seymour teve.”
Seymour exibiu suas presas e cheirou o ar, como se procurasse mais biscoitos.
“Se ele é só uma cabeça,” Jason disse, “para onde vai à comida quando ele
come?”
“Melhor não perguntar,” Quíron disse. “Por favor, sente.”
Jason pegou um pouco de limonada, apesar de o seu estômago estar agitado.
Quíron reclinou-se na sua cadeira de rodas e tentou um sorriso, mas Jason podia dizer
que era forçado. Os olhos do velho homem eram tão profundos e escuros quanto poços.
“Então, Jason,” ele disse, “você se importaria caso me dissesse — er — de onde
você é?”
“Queria eu saber.” Jason lhe contou toda a história, de acordar no ônibus até cair
no Acampamento Meio-Sangue. Ele não escondeu nenhum detalhe, e Quíron era um
bom ouvinte. Ele não reagiu à história, nada a não ser assentir animadoramente por
mais.
Quando Jason acabou, o velho homem deu um gole na limonada.
“Entendo,” Quíron disse. “E você deve ter perguntas para mim.”
“Só uma,” Jason admitiu. “O que você quis dizer quando falou que eu deveria
estar morto?”
Quíron o estudou com preocupação, como se esperasse que Jason explodisse em
chamas. “Meu garoto, você sabe o que essas marcas no seu braço significam? A cor da
sua camisa? Você lembra de algo?”
Jason olhou para a tatuagem no seu antebraço: SPQR, a águia, vinte linhas retas.
“Não,” ele disse. “Nada.”
“Você sabe onde está?” Quíron perguntou. “Você entende o que esse lugar é, e
quem eu sou?”
“Você é o centauro Quíron,” Jason disse. “Suponho que seja o mesmo das
histórias antigas, que costumava treinar os heróis gregos como Hércules. Esse é um
acampamento para semideuses, filhos dos deuses olimpianos.”
“Então você acredita que esses deuses ainda existem?”
“Sim,” Jason disse imediatamente. “Digo, não acho que devíamos adorá-los ou
sacrificar galinhas por eles ou qualquer coisa, mas eles ainda estão por perto, pois são
uma poderosa parte da civilização. Eles vão de país em país conforme o centro do poder
se desloca — como eles foram da Grécia Antiga para Roma.”
“Não podia ter dito melhor.” Algo na voz de Quíron mudou. “Então você já
sabe que os deuses são reais. Você já foi reclamado, não foi?”
“Talvez,” Jason respondeu. “Não tenho total certeza.”
O leopardo Seymour rosnou.
Quíron esperou, e Jason percebeu o que acabara de acontecer. O centauro havia
mudado para outro idioma e Jason entendera automaticamente respondendo na mesma
língua.
“Quis erat —” Jason vacilou, então fez um esforço consciente para falar inglês.
“O que foi aquilo?”
“Você sabe Latim,” Quíron observou. “A maioria dos semideuses reconhecem
algumas frases, naturalmente. Está no sangue deles, mas não tanto quanto Grego
Antigo. Ninguém pode falar Latim fluentemente sem prática.”
Jason tentou envolver a mente no que aquilo significava, mas vários pedaços da
sua memória estavam perdidos. Ele ainda tinha a sensação que não deveria estar aqui.
Era errado — e perigoso. Mas pelo menos Quíron não metia medo. Na verdade o
centauro parecia preocupado com ele, com medo pela sua segurança.
O fogo refletia nos olhos de Quíron, fazendo-os dançar agastadamente. “Eu
ensinei o seu xará, você sabe, o Jasão original. Ele teve um caminho duro. Eu vi vários heróis ir e vir. Ocasionalmente, eles têm finais felizes. Na maior parte, não. Isso quebra
meu coração, é como perder um filho sempre que um dos meus pupilos morre. Mas
você — você não é como qualquer pupilo que eu já ensinei. Sua presença aqui poderia
ser um desastre.”
“Obrigado,” Jason disse. “Você deve ser um professor inspirador.”
“Desculpe meu garoto. Mas é verdade. Eu esperava que depois do sucesso de
Percy —”
“Percy Jackson, você se refere. O namorado de Annabeth, o que está sumido.”
Quíron assentiu. “Esperava que depois que ele tivesse sucesso na Guerra dos
Titãs e salvasse o Monte Olimpo, pudéssemos ter alguma paz. E eu poderia ser capaz de
desfrutar um triunfo final, um final feliz, e talvez uma retirada discreta. Eu devia ter me
informado melhor. O último capítulo se aproxima, assim como foi antes. O pior ainda
está por vir.”
No canto, o fliperama fez um triste som pa-pa-pa-pa, como se o Pacman tivesse
morrido.
“Ok...” Jason disse. “Então — último capítulo aconteceu antes, pior ainda por
vir. Soa divertido, mas podemos voltar à parte onde eu devia estar morto? Não gosto
dessa parte.”
“Tenho medo que não possa explicar meu garoto. Jurei pelo Rio Styx e por todas
as coisas sagradas que eu nunca...” Quíron franziu a testa. “Mas você está aqui, em
violação do mesmo juramento. Isso também, não deveria ser possível. Eu não entendo.
Quem faria tal coisa? Quem —”
O leopardo Seymour berrou. Sua boca congelou meio aberta. O fliperama parou
de fazer bip. O fogo parou de estalar, suas chamas endurecendo como vidro vermelho.
As máscaras olhavam para Jason silenciosamente com seus olhos de uva grotescos e
línguas frondosas.
“Quíron?” Jason perguntou. “O que está aconte...”
O velho centauro congelara, também. Jason pulou do sofá, mas Quíron
continuou olhando para o mesmo lugar, sua boca aberta no meio de uma afirmação.
Seus olhos não piscavam. Seu peito não se mexia.
Jason, uma voz disse.
Por um horrível momento, ele pensou que o leopardo falou. Então névoa escura
evaporou da boca do Seymour, e um pensamento ainda pior ocorreu a Jason: espíritos
de tempestade.Ele pegou a moeda de ouro do seu bolso. Com um rápido arremesso, ela se
transformou numa espada.
A névoa tomou a forma de uma mulher em robes negros. Seu rosto estava
encapuzado, mas seus olhos brilhavam na escuridão. Sobre seus ombros ela usava uma
capa de pele de cabra. Jason não tinha certeza de como sabia que era pele de cabra, mas
ele a reconheceu e sabia que era importante.
Você atacaria seu patrono? A mulher repreendeu. Sua voz ecoou na cabeça de
Jason. Abaixe sua espada.
“Quem é você?” ele exigiu. “Como você —”
Nosso tempo é limitado, Jason. Minha prisão cresce mais forte a cada hora. Me
tomou um mês inteiro para reunir energia o suficiente até para trabalhar com a menor
magia entre seus grilhões. Eu consegui trazer você aqui, mas agora não me resta muito
tempo, e até menos energia. Essa pode ser a última vez que eu fale com você.
“Você está numa prisão?” Jason decidiu que talvez ele não baixasse sua espada.
“Olhe, eu não te conheço, e você não é meu patrono.”
Você me conhece, ela insistiu. Eu conheço você desde o seu nascimento.
“Eu não lembro. Eu não me lembro de nada.”
Não, você não lembra, ela concordou. Isso também foi necessário. Tempos
atrás, seu pai me deu sua vida como presente para apaziguar minha raiva. Ele lhe
nomeou como Jason, por causa do meu mortal favorito. Você pertence a mim.
“Uou,” Jason disse. “Eu não pertenço a ninguém.”
Agora é a hora de pagar sua dívida, ela disse. Encontre minha prisão. Liberteme,
ou o rei deles irá erguer-se da terra, e eu serei destruída. Você nunca reaverá sua
memória.
“É uma ameaça? Você pegou minhas memórias?”
Você tem até o pôr-do-sol no solstício, Jason. Quatro pequenos dias. Não me
falhe.
A mulher obscura se dissolveu, e a névoa girou para a boca do leopardo.
O tempo descongelou. O berro do Seymour veio numa tosse como se tivesse
engolido uma bola de pelos. O fogo estalou para a vida, o fliperama fez bip, e Quíron
disse, “— ousaria trazer-lhe aqui?”
“Provavelmente a mulher na névoa,” Jason propôs.
Quíron olhou em surpresa. “Você não estava sentado... por que você tem uma
espada na mão?”
“Odeio lhe dizer isso,” Jason disse, “mas eu acho que seu leopardo comeu uma
deusa.”
Ele contou para Quíron sobre a visita congelada-no-tempo, a obscura figura
nevoenta que desapareceu na boca de Seymour.
“Ah, meu caro,” Quíron murmurou. “Isso explica muito.”
“Então por que você não explica muito para mim?” Jason disse. “Por favor.”
Antes que Quíron pudesse dizer alguma coisa, passos ecoaram na varanda do
lado de fora. A porta da frente abriu com uma batida, e Annabeth e outra garota, uma
ruiva, entraram explodindo, arrastando Piper entre elas. A cabeça de Piper folgava como
se estivesse inconsciente.
“O que aconteceu?” Jason apressou-se. “O que há de errado com ela?”
“Chalé de Hera,” Annabeth ofegou, como se tivessem corrido por todo o
caminho. “Visão. Mau.”
A garota ruiva olhou para cima, e Jason viu que ela estava chorando.
“Eu acho...” A garota ruiva tragou. “Eu acho que posso ter matado ela.”
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