domingo, 18 de setembro de 2011

Capítulo Dois - O Herói Perdido

II
Jason

A TEMPESTADE SE TRANSFORMOU NUM FURACÃO EM MINIATURA. Um funil de
nuvens serpenteava em direção ao observatório como os tentáculos de uma águamarinha
monstro.
Crianças gritaram e correram para o prédio. O vento arrancou seus cadernos,
jaquetas, chapéus e mochilas. Jason derrapou pelo piso escorregadio.
Leo perdeu o equilíbrio e quase caiu sobre os trilhos, mas Jason agarrou sua
jaqueta e puxou ele de volta.
“Obrigado, cara!” Leo gritou.
“Vai, vai, vai!” Disse o treinador Hedge.
Piper e Dylan estavam segurando as portas abertas, agrupando as outras crianças
no interior. A jaqueta de snowboard de Piper estava se agitando descontroladamente
com o vento, seu cabelo preto estava em todo seu rosto. Jason pensou que ela devia
estar congelando, mas ela parecia calma e confiante — falando para os outros que daria
tudo certo, encorajando eles a se manterem em movimento.
Jason, Leo e o treinador Hedge correram em direção a eles, mas era como correr
em areia movediça. O vento parecia lutar contra eles, os empurrando de volta.
Dylan e Piper empurraram mais uma criança para dentro, e depois perderam o
seu domínio sobre a porta. Eles acabaram fechados no observatório. Piper puxou as
alças. As crianças que estavam no interior bateram nos vidros, mas as portas pareciam
presas.
“Dylan ajude!” Piper gritou.
Dylan só ficou observando, com um sorriso idiota, sua jaqueta dos Cowboys
ondulando ao vento, como se ele repentinamente estivesse gostando da tempestade.
"Sinto muito, Piper,” disse ele. “Estou cansado de ajudar.” Ele movimentou
rapidamente seu pulso e Piper voou para trás, batendo na porta e deslizando pelo convés
do observatório.
“Piper!” Jason tentou a custo ir para frente, mas o vento estava contra ele, e o
Treinador Hedge o puxou para trás.
“Treinador,” Disse Jason, “Deixe-me ir!”
“Jason, Leo, fiquem atrás de mim,” o treinador ordenou. “Essa é minha luta. Eu
deveria saber que era nosso monstro.”
“O que?” Leo demandou. Uma planilha errante bateu em seu rosto, mas ele a
afastou. “Que monstro?”
O boné do treinador foi soprado para longe e acima de seu cabelo crespo
estavam dois galos — como aqueles que os personagens de desenho animado ganham
quando batem a cabeça. O Treinador Hedge levantou seu bastão de baseball — mas não
era mais um bastão regular. De alguma forma ele tinha se transformado em um bastão
de ramo de árvore em forma crua, com ramos e folhas ainda anexados.
Dylan deu a ele o seu sorriso feliz e psicótico. “Ah, vamos lá, treinador. Deixa o
garoto me atacar. Afinal, você está ficando muito velho para isso. Não é por isso que
eles te trouxeram para esta escola estúpida? Eu estive no seu time a temporada toda e
você nem reparou. Você está perdendo seu faro, vovô.”
O treinador fez um som irritado, como um animal balindo. “É isso aí,
queridinho. Eu vou te derrubar.”
“Você acha que pode proteger três meio-sangues de uma vez só, velho?” Dylan
riu. “Boa sorte.”
Dylan apontou para Leo e uma nuvem em forma de funil se materializou ao
redor dele. Leo voou pelo observatório como se ele tivesse sido arremessado. De
alguma forma, ele conseguiu girar no ar e bateu de lado na parede do desfiladeiro. Ele
derrapou, procurando desesperadamente por algum apoio para as mãos. Finalmente, ele
agarrou uma pequena fenda cerca de 50 pés abaixo da passarela e se segurou com as
pontas dos dedos.
“Ajudem-me!” ele gritou para os outros. “Uma corda, por favor? Um elástico de
bungee jump? Alguma coisa?”
O treinador Hedge praguejou e atirou para Jason seu galho. “Eu não sei quem é
você, garoto, mas eu espero que você seja bom. Mantenha aquela coisa ocupada” — ele
apontou com o dedão para Dylan — “enquanto eu pego o Leo”
“Pegá-lo como?” Jason perguntou. “Você vai voar?”
“Voar, não. Escalar.” Hedge arrancou seus sapatos e Jason quase teve um
enfarte. Ele tinha cascos — cascos de bode. O que significava que aquelas coisas em
sua cabeça, Jason compreendeu, não eram galos. Eram chifres.
“Você é um fauno,” Jason disse.
“Sátiro!” vociferou Hedge. “Faunos são Romanos. Mas nós discutiremos isso
depois.”
Hedge pulou a grade. Ele partiu em direção à parede do desfiladeiro e bateu com
os cascos primeiro. Ele desceu o penhasco com uma agilidade incrível, encontrando
apoios para os pés não maiores do que selos, desviando de redemoinhos que tentavam
atacá-lo enquanto ele prosseguia na direção de Leo.
“Isso não é fofo?” Dylan se virou para Jason. “Agora é a sua vez, garoto.”
Jason atirou o bastão. Pareceu inútil com ventos tão fortes, mas o galho voou
direto na direção de Dylan, até curvando quando ele tentava desviar, e bateu na sua
cabeça com tanta força que ele caiu de joelhos.
Piper não estava tão estupefata quanto parecia. Seus dedos se fecharam ao redor
do galho quando este rolou para perto dela, mas, antes que ela pudesse usá-lo, Dylan se
levantou. Sangue — sangue dourado — corria de sua testa.
“Boa tentativa, garoto.” Ele tinha um olhar penetrante para Jason. “Mas você vai
ter que fazer melhor.”
O observatório estremeceu. Trincados apareceram no vidro. Dentro do museu, as
crianças pararam de bater nas portas. Elas se afastaram, olhando aterrorizadas.
O corpo de Dylan se dissolveu em fumaça, como se suas moléculas estivessem
se descolando. Ele tinha o mesmo rosto, o mesmo sorriso branco brilhante, mas todo o
seu corpo era repentinamente composto de um vapor preto em espiral, seus olhos
pareciam faíscas elétricas em uma viva nuvem de tempestade. Ele abriu asas pretas de
fumaça e se elevou acima do observatório. Se anjos pudessem ser maus, Jason pensou,
eles pareceriam exatamente com isso.
“Você é um ventus,” Jason disse, apesar de não ter nenhuma idéia de como ele
sabia essa palavra. “Um espírito da tempestade.”
A risada de Dylan parecia o som de um tornado arrancando um telhado. “Estou
feliz por ter esperado, semideus. Eu sabia de Leo e Piper por semanas. Eu poderia tê-los
matado a qualquer momento. Só que minha senhora me disse que havia um terceiro a
caminho — alguém especial. Ela vai me recompensar enormemente pela sua morte!”
Mais duas nuvens em forma de funil apareceram de cada lado de Jason e se
transformaram em ventus — rapazes espectrais com asas de fumaça e olhos que
tremeluziam como raios.
Piper se manteve abaixada, fingindo estar aturdida, sua mão ainda segurando o
galho. Seu rosto estava pálido, mas ela deu a Jason um olhar determinado e ele entendeu
a mensagem: mantenha-os distraídos, baterei neles por trás.
Linda, esperta e violenta. Jason desejava poder se lembrar de tê-la como sua
namorada. Ele fechou seus punhos e se preparou para atacar, mas ele nunca teve a
chance.
Dylan levantou sua mão com arcos de eletricidade correndo entre seus dedos, e
atirou em Jason no peito.
Bang! Jason se viu deitado de costas no chão. Sua boca estava com gosto de
lâmina de alumínio queimada. Ele levantou a cabeça e percebeu que suas roupas
estavam fumegando. O raio foi direto em sua direção e explodiu seu sapato esquerdo.
Seus pés estavam negros de fuligem.
Os espíritos da tempestade estavam rindo. Os ventos enfureciam-se. Piper estava
gritando desafiadoramente, mas tudo parecia metálico e distante.
Do canto de seu olho, Jason viu o treinador Hedge escalando o penhasco com
Leo nas suas costas. Piper estava de pé, balançando desesperadamente o galho para
afastar os dois espíritos de tempestade extras, mas eles estavam apenas brincando com
ela. O galho atravessou seus corpos como se eles não estivessem lá. E Dylan, um
tornado escuro com asas e olhos, avançou ameaçadoramente em direção a Jason.
“Pare,” Jason persuadiu. Ele se levantou cambaleante, e não tinha certeza de
quem estava mais surpreso: ele ou os espíritos de tempestade.
“Como você está vivo?” a forma de Dylan surgiu. “Aquilo tinha eletricidade
suficiente para matar vinte homens!”
“Minha vez,” disse Jason.
Ele colocou a mão no bolso e tirou a moeda de ouro. Ele deixou seus instintos
assumirem, lançando a moeda no ar como já tinha feito milhares de vezes. Ele a
capturou na palma da mão, e de repente estava segurando uma espada — uma arma
perversamente afiada de dois gumes. O cunho coube perfeitamente em seus dedos, e
tudo era puro ouro — cabo, cunho e lâmina.
Dylan rosnou e se apoiou para levantar. Ele olhou para seus dois comparsas e
gritou, “E então?! Matem-no!”
Os outros espíritos de tempestade não pareceram felizes com aquela ordem, mas
voaram em direção a Jason com seus dedos faiscando eletricidade.
Jason se atirou contra o primeiro espírito. Sua lâmina atravessou o espírito e a
forma esfumaçada da criatura se desintegrou. O segundo espírito atirou um raio, mas a
espada de Jason absorveu a carga. Jason se moveu para frente — uma rápida investida,
e o segundo espírito de tempestade se dissolveu em pó dourado.
Dylan se lamentou indignado. Ele olhou para baixo como se esperasse que seus
comparsas se reestruturassem, mas o pó dourado continuou disperso no ar. “Impossível!
Quem é você, meio-sangue?”
Piper estava tão aturdida que deixou o taco cair. “Jason, como…?”
Então o Treinador Hedge saltou de volta no observatório e derrubou Leo como
se fosse um saco de farinha.
“Espíritos, temam a mim!” Hedge berrou, flexionando seus braços curtos. Então
ele olhou em volta e percebeu que só havia o Dylan.
“Maldição, menino!” ele se virou para Jason. “Você não deixou alguns para
mim? Eu gosto de desafios!”
Leo se levantou, respirando com dificuldade. Ele parecia completamente
humilhado, suas mãos sangrando de escalar as pedras. “Ei, Treinador Super Cabra, ou o
que quer que você seja — eu acabei de cair do maldito Grand Canyon! Pare de pedir por
desafios!”
Dylan sibilou para eles, mas Jason podia perceber medo nos olhos dele. “Vocês
não fazem idéia de quantos inimigos vocês despertaram meio-sangues. Minha mestra irá
destruir todos os semideuses. Esta guerra vocês não podem vencer.”
Acima deles, a chuva se explodiu em uma tempestade com força total.
Rachaduras apareceram no observatório. Lençóis de água caíam, e Jason teve que se
abaixar para manter o equilíbrio.
Um buraco se abriu entre as nuvens — um turbilhão de preto e prateado.
“Minha mestra me chama de volta!” Dylan gritou de alegria. “E você, semideus,
virá comigo!”
Ele investiu contra Jason, mas Piper atacou o monstro por trás. Mesmo ele sendo
feito de fumaça, Piper de alguma maneira conseguiu se conectar. Os dois começaram a
cair. Leo, Jason e o treinador se inclinaram para ajudar, mas o espírito gritou com ódio.
Ele jogou uma corrente de ar que derrubou todos eles. A espada de Jason derrapou entre
o vidro. Leo bateu a parte de trás da cabeça e se encolheu em um canto, atordoado e gemendo. Piper recebeu o pior. Ela foi arrancada das costas de Dylan e bateu na grade,
caindo na borda até que ela estava pendurada por uma mão sobre o abismo.
Jason se moveu em direção a ela, mas Dylan gritou, “Eu vou me vingar por
essa!”
Ele agarrou o braço de Leo e começou a subir, arrastando um Leo semiconsciente
com ele. A tempestade rodopiou com mais força, puxando eles para cima
como um aspirador de pó.
“Socorro!” Piper gritou. “Alguém!”
Ela, então, escorregou, gritando enquanto caía.
“Jason vá!” Hedge gritou. “Salve-a!”
O treinador se lançou contra o espírito com alguns golpes fortes de Bode Fu —
atacando-o com seus chifres, liberando Leo do poder do espírito. Leo caiu são e salvo
no chão, mas Dylan agarrou o braço do treinador em troca. Hedge tentou cabecear ele, e
então o chutou e o chamou de queridinho. Eles se levantaram no ar, ganhando
velocidade.
O Treinador Hedge gritou mais uma vez, “Salve-a! Eu cuido disso!” Então o
sátiro e o espírito de tempestade rodopiaram entre as nuvens e desapareceram.
Salvar ela? Jason pensou. Ela está morta!
No entanto, outra vez seus instintos venceram. Ele correu para a grade pensando,
Eu sou louco, e pulou de lado.

Jason não estava com medo da altura. Ele estava com medo de ser esmagado no
chão do desfiladeiro, mil e quinhentos metros abaixo. Ele percebeu que não tinha
conseguido nada, exceto morrer junto com Piper, mas jogou os braços para frente e caiu
de cabeça. As bordas do desfiladeiro passavam por ele como num filme em velocidade
acelerada. Seu rosto parecia que estava descascando.
Num piscar de olhos, ele alcançou Piper, que caía descontroladamente. Ele
segurou a cintura dela e fechou os olhos, aguardando a morte. Piper gritou. O vento
assobiou no ouvido de Jason. Ele imaginou como seria morrer. Ele estava pensando,
provavelmente não era muito bom. Ele desejou que de alguma forma eles nunca
batessem no chão.
De repente, o vento parou. O grito de Piper se transformou em um suspiro
estrangulado. Jason pensou que eles deveriam estar mortos, mas não sentiu impacto
nenhum.
“J-J-Jason,” Piper murmurou.
Ele abriu os olhos. Eles não estavam mais caindo. Estavam flutuando no meio do
ar, trezentos metros acima do rio.
Ele abraçou Piper com força, e ela se reposicionou de forma que também estava
abraçando ele. Eles estavam de frente, nariz a nariz. O coração dela batia tão forte que
Jason podia sentir através da roupa dela.
O hálito dela cheirava a canela. Ela disse “Como você—”
“Eu não fiz nada,” ele respondeu. “Acho que eu saberia se soubesse voar…”
Então ele pensou: Eu não sei nem mesmo quem eu sou.
Ele pensou estar subindo. Piper ganiu conforme eles começavam a ir para cima.
Eles não estavam exatamente flutuando, Jason decidiu. Ele podia sentir a pressão
embaixo dos pés como se eles estivessem balançando em cima de um cilindro a gás.
“O ar está ajudando a gente,” ele disse.
“Bem, diga a ele para ajudar mais! Tira a gente daqui!”
Jason olhou para baixo. A coisa mais fácil a fazer seria descer tranquilamente até
o chão do desfiladeiro. Então ele olhou para cima. A chuva tinha parado. As nuvens não
pareciam tão violentas, mas ainda estava trovejando e piscando. Não havia garantia de
que os espíritos tinham sumido de vez. Ele não fazia idéia do que tinha acontecido ao
Treinador Hedge. E ele tinha deixado Leo lá em cima, semi-inconsciente.
“Nós temos que ajudá-los,” Piper disse como se lesse os pensamentos dele.
“Você pode—”“Estúpido… bode… feio,” ele murmurou.
“Aonde ele foi?” Piper perguntou.
Leo apontou para cima. “Nunca voltou. Por favor, diga que ele não salvou
mesmo a minha vida.”
“Duas vezes,” Jason falou.
Leo grunhiu ainda mais alto. “O que aconteceu? O cara tornado, a espada de
ouro… eu bati a minha cabeça. Foi isso, certo? Estou alucinando?”
Jason tinha esquecido a espada. Ele foi até onde ela estava e a pegou. A lâmina
estava bem balanceada. Numa intuição ele a girou. No meio da volta, a espada se
transformou novamente em uma moeda e pousou na sua palma.
“É” Leo disse. “Definitivamente alucinando.”
Piper se arrepiou por causa da roupa molhada pela chuva. “Jason, aquelas coisas
—”
“Venti,” ele disse. “Espíritos de tempestade.”
“Tá. Você agiu como… como se você já tivesse visto eles antes. Quem é você?”
Ele balançou a cabeça. “É isso que eu estava tentando te dizer. Eu não sei.”
A tempestade parou. As outras crianças da Wilderness School olhavam para as
portas de vidro horrorizadas. Os guardas de segurança estavam mexendo nas
fechaduras, mas não pareciam estar conseguindo nada.
“O Treinador Hedge disse que tinha que proteger três pessoas,” Jason lembrou.
“Eu acho que ele estava falando da gente.”
“E aquela coisa em que o Dylan se transformou…” Piper tremeu. “Meu Deus, eu
não acredito que ele estava me passando cantadas. Ele chamou a gente de… como era,
semideuses?”
Leo se deitou de costas no chão, olhando para o céu. Ele não parecia ansioso
para levantar. “Não sei o que semi significa,” ele disse. “Mas eu não estou me sentindo
muito divino não. Vocês estão?”
Houve um som quebradiço como de galhos secos estalando, e as rachaduras no
observatório começaram a aumentar.
“Nós precisamos sair daqui,” Jason falou. “Talvez se nós—”

“Vamos ver.” Jason pensou para cima, e instantaneamente eles foram em direção
ao céu.
O fato de ele estar escalando o ar seria algo legal em outras circunstâncias, mas
ele estava extremamente em choque. Assim que eles alcançaram o observatório,
correram em direção a Leo.
Piper virou para Leo, e ele grunhiu. O casaco dele de exército estava ensopado
pela chuva. Seu cabelo cacheado brilhava a ouro por rolar em pó de monstro. Mas pelo
menos ele não estava morto.
“Aaaah tá,” Leo interrompeu. “Olhem para cima e me digam se aquilo são
cavalos voadores.”
De início Jason pensou que Leo tinha batido a cabeça forte demais. Só que então
ele viu uma silhueta escura descendo do leste — devagar demais para ser um avião,
grande demais para ser um pássaro. Conforme foi se aproximando, ele pôde ver um par
de animais alados — cinza, de quatro patas, exatamente como cavalos — exceto pelo
fato de que cada um tinha asas de seis metros. E eles estavam puxando uma caixa
pintada com duas rodas: uma biga.
“Reforços,” ele disse. “Hedge disse que um pelotão de extração estava vindo
atrás da gente.”
“Pelotão de extração?” Leo se levantou. “Isso parece doloroso.”
“E para onde eles vão extrair a gente?” Piper perguntou. Jason observou a biga
pousar na ponta do observatório. Os cavalos alados dobraram suas asas e galoparam
nervosamente através do vidro, como se sentissem que estava quase quebrando. Dois
adolescentes estavam na biga — uma loira alta, talvez um pouco mais velha que Jason,
e um cara largo com a cabeça raspada e um rosto como uma pilha de tijolos. Os dois
usavam calças jeans e camisetas laranja, com escudos guardados nas costas. A garota
pulou antes mesmo de a biga parar de andar. Ela pegou uma faca e correu em direção ao
grupo de Jason enquanto o cara largo controlava os cavalos.
“Onde ele está?” a garota demandou. Seus olhos cinzentos eram ferozes e um
pouco assustadores.
“Onde está quem?” Jason perguntou.
Ela franziu o cenho como se a resposta dele fosse inaceitável. Então ela se virou
para Leo e Piper. “E o Gleeson? Onde está o seu protetor, Gleeson Hedge?”
O primeiro nome do treinador era Gleeson? Jason teria rido se a manhã não
tivesse sido tão estranha e assustadora. Gleeson Hedge: Treinador de futebol, homem
bode, protetor de semideuses. Claro. Por que não?
Leo pigarreou. “Ele foi capturado por algumas… coisas-tornado.”
“Os Ventus,” Jason disse. “Espíritos de tempestade.”
A menina loira levantou uma sobrancelha. “Você quer dizer anemoi thuellai?
Esse é o termo grego. Quem é você e o que aconteceu?”
Jason se esforçou ao máximo para explicar, embora fosse difícil encarar aqueles
olhos cinzentos tão intensos. Mais ou menos no meio da história, o outro cara da biga se aproximou. Ele ficou lá encarando eles, seus braços cruzados. Ele tinha uma tatuagem
de arco-íris no bíceps, o que parecia um pouco atípico.
Quando Jason terminou a história, a garota loira não parecia satisfeita. “Não,
não, não! Ela me disse que ele estaria aqui. Ela disse que se eu viesse aqui, encontraria a
resposta.”
“Annabeth,” o cara careca grunhiu. “Olha só.” Ele apontou para o pé de Jason.
Jason não tinha parado para pensar a respeito, mas ele ainda estava sem seu
sapato esquerdo que tinha sido arrancado pelo raio. Seu pé livre estava bem, mas
parecia um pedaço de carvão. “O cara com um sapato só,” disse o cara careca. “Ele é a
resposta.”
“Não, Butch,” a garota insistiu. “Ele não pode ser. Eu fui enganada.” Ela olhou
para o céu como se ele tivesse feito algo errado. “O que vocês querem de mim?” ela
gritou. “O que vocês fizeram com ele?”
O céu tremeu, e os cavalos relincharam urgentemente.
“Annabeth,” disse o cara careca, Butch, “nós temos que ir. Vamos levar esses
três pro acampamento e tentar descobrir lá. Aqueles espíritos de tempestade podem
voltar.”
Ela exasperou-se por um momento. “Ótimo.” Ela encarou Jason com um olhar
ressentido. “Nós vamos resolver isso depois.” Ela girou o corpo pelo calcanhar e
marchou em direção à biga.
Piper balançou a cabeça. “Qual é o problema dela? O que tá rolando?”
“Sério mesmo,” Leo concordou.
“Nós precisamos tirar vocês daqui,” Butch disse. “Eu explico no caminho.”
“Eu não vou a lugar nenhum com ela.” Jason apontou em direção à loira. “Ela
me olha como se quisesse me matar.”
Butch hesitou. “Annabeth é tranquila. Você tem que dar uma folga pra ela. Ela
teve uma visão dizendo a ela para vir aqui, para achar um cara com um sapato só. Essa
deveria ser a resposta para o problema dela.”
“Qual problema?” Piper perguntou.
“Ela está procurando por um dos nossos campistas, que está desaparecido há três
dias,” Butch disse. “Ela está perdendo a cabeça de preocupação. Ela esperava que ele
estivesse aqui.”
“Quem?” Jason perguntou.
“O namorado dela,” Butch disse. “Um cara chamado Percy Jackson.”

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