segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Capítulo Nove - O Herói Perdido

IX
Piper


PIPER SONHOU SOBRE SEU ÚLTIMO DIA com o pai.
Eles estavam na praia perto de Big Sur, descansando do surfe. A manhã foi tão
perfeita que Piper sabia que algo tinha que dar errado logo — uma multidão furiosa de
paparazzi, ou talvez um grande tubarão branco atacasse. De jeito nenhum sua sorte
poderia continuar.
Mas até agora, eles tinham excelentes ondas, um céu nublado, e dois quilômetros
de mar completamente para eles. Seu pai encontrou esse lugar fora da trilha, alugou
uma casa de campo com vista para o mar e as propriedades em cada lado, e de algum
jeito conseguiu manter isso em segredo. Se ele ficasse ali muito tempo, Piper sabia que
os fotógrafos o encontrariam. Eles sempre encontravam.
“Belo trabalho aqui, Pipes.” Ele lhe deu o sorriso pelo qual ele era famoso:
dentes perfeitos, queixo com covinhas, uma piscadela nos seus olhos escuros que
sempre brotavam um grito nas mulheres e as faziam pedir-lhe para assinar seus corpos
com tinta permanente. (É sério, Piper pensou, tenha uma vida.) Seu cabelo negro
cortado a escovinha brilhava com água salgada. “Você está ficando melhor no Hang
Ten.”
Piper corou em orgulho, embora ela suspeitasse que o pai só estivesse sendo
simpático. Ela ainda gastava a maioria do tempo caindo. Parecia um talento especial
atropelar a si mesma com uma prancha de surfe. Seu pai era um surfista natural — o
que não fazia nenhum sentido desde que ele ressuscitou uma pobre criança em
Oklahoma, centenas de quilômetros do oceano — mas ele era incrível nas ondulações.
Piper teria desistido de surfar a muito tempo atrás exceto que isso a deixava ficar com
ele. Não havia muitos jeitos para conseguir aquilo.
“Sanduíche?” O pai cavou na cesta de piquenique que seu chef, Arno, fizera.
“Vamos ver: peito de peru, bolo de caranguejo wasabi — ei, um especial da Piper.
Manteiga de amendoim e geleia.”
Ela pegou o sanduíche, embora seu estômago estivesse muito agitado para
comer. Ela sempre pedia PJ&B. Piper era vegetariana, por uma coisa. Ela era desde que
haviam passado dirigindo por aquele matadouro em Chino e o cheiro fez as suas entranhas quererem ir para fora. Mas era mais que isso. PB&J era comida simples,
como uma criança normal teria para almoço. Às vezes ela fingiu que era seu pai que
fazia isso para ela, não um personal chef da França que gostava de enrolar o sanduíche
numa folha de ouro com um diamante brilhante ao invés de um palito de dente.
Alguma coisa não podia ser simples? É por isso que ela recusava as roupas
elaboradas que seu pai sempre oferecia, o estilista de sapatos, as visitas ao salão. Ela
cortava seu próprio cabelo com um par de tesouras de plásticos seguras do Garfield,
deliberadamente o tornando desigual. Ela preferia usar tênis velhos, jeans, uma
camiseta, e sua antiga jaqueta da vez que foram esquiar na neve.
E ela odiava as escolas particulares esnobes que papai pensava que eram boas
para ela. Ela continuava sendo expulsa. Ele continuou a encontrar mais escolas.
Ontem, ela tinha realizado seu maior guincho mais uma vez — dirigindo aquela
BMW “emprestada” para fora da concessionária. Ela tinha que realizar uma proeza
maior toda vez, porque estava ainda mais difícil conseguir a atenção do pai.
Agora ela lamentava. O pai ainda não sabia.
Ela queria contá-lo essa manhã. Ele a havia surpreendido com essa viagem, e ela
não poderia arruinar isso. Era a primeira vez que eles teriam um dia juntos em o que —
três meses?
“Qual o problema?” Ele lhe passou um refrigerante.
“Pai, tem uma coisa —”
“Espere, Pipes. Isso é uma face séria. Pronta para Três Perguntas Quaisquer?”
Eles estiveram jogando aquele jogo por anos — o modo do seu pai de ficar
conectado no menor tempo possível. Eles podiam perguntar um para o outro três
perguntas quaisquer. Nada fora dos limites, e você tinha que responder honestamente. O
resto do tempo, o pai prometia ficar fora da vida dela — o que era fácil, desde que ele
nunca estava por perto.
Piper sabia que a maioria das crianças acharia um Perguntas e Respostas assim
com os pais totalmente mortificante. Mas ela avançou a isso. Era como surfar — não
fácil, mas um jeito de sentir como se realmente tivesse um pai.
“Primeira pergunta,” ela disse. “Mamãe.”
Sem surpresa. Era sempre um dos seus tópicos.
Seu pai deu de ombros com resignação. “O que você quer saber, Piper? Eu já lhe
disse — ela desapareceu. Não sei por que, ou para onde ela foi. Depois que você nasceu,
ela simplesmente partiu. Eu nunca mais ouvi falar dela.”
“Você acha que ela ainda está viva?”
Não era uma pergunta real. Seu pai permitia-se dizer que não sabia. Mas ela
queria ouvir como ele responderia.
Ele olhou para as ondas.
“Seu avô Tom,” ele disse finalmente, “ele costumava me dizer que se você andar
longe o bastante para o pôr-do-sol, você viria para o País Fantasma, onde você poderia
conversar com a morte. Ele disse há muito tempo atrás, você poderia trazer a morte de
volta; mas então a humanidade bagunçaria. Bem, é uma longa história.”
“Como a Terra dos Mortos para os gregos,” Piper lembrou. “Era no oeste,
também. E Orfeu — ele tentou trazer sua esposa de volta.”
Seu pai assentiu. Um ano antes, ele tivera esse papel maior como um rei da
Grécia Antiga. Piper havia lhe ajudado a pesquisar os mitos — todas aquelas histórias
antigas sobre pessoas virando pedra e afundando em lagos de lava. Eles tiveram um
tempo divertido lendo juntos, e isso fez a vida de Piper não parecer tão má. Por um
instante ela se sentiu mais próxima do pai, mas como tudo, isso não continuou.
“Várias semelhanças entre os gregos e os Cherokee,” o pai concordou. “Eu
penso o que seu avô pensaria se nos visse agora, sentando no fim da terra ocidental. Ele
provavelmente pensaria que somos fantasmas.”
“Então você está dizendo que acredita nessas histórias? Você acha que a mamãe
está morta?”
Seus olhos molharam, e Piper viu a tristeza atrás dele. Ela entendeu o porquê de
mulheres serem tão atraentes para ele. Na superfície, ele parecia confiante e forte, mas
seus olhos seguravam muita tristeza. Mulheres queriam descobrir por quê. Elas queriam
confortá-lo, e elas nunca podiam. O pai contava a Piper que era coisa de Cherokee —
todos eles tinham aquela escuridão dentro deles de gerações de dor e sofrimento. Mas
Piper pensou que era mais que isso.
“Eu não acredito nas histórias,” ele disse. “Elas são divertidas de contar, mas se
eu realmente acreditasse em País Fantasma, ou espíritos animais, ou deuses gregos... eu
não acho que poderia dormir à noite. Eu sempre estaria procurando por alguém para
acusar.”
Alguém para acusar pela morte do vovô Tom de câncer de pulmão, Piper
pensou, antes que seu pai ficasse famoso e tivesse dinheiro para ajudar. Para mamãe — a única mulher que ele já amou — abandoná-lo sem mesmo uma carta de adeus,
deixando-o com uma garota recém-nascida pelo qual ele não estava pronto para cuidar.
Para ele ser um sucesso tão grande, e ainda infeliz.
“Eu não sei se ela está viva,” ele disse. “Mas eu acho que ela também pode estar
no País Fantasma, Piper. Não há volta para ela. Se eu acreditasse por outro lado... eu
não acho que poderia tolerá-la, afinal.”
Atrás deles, a porta de um carro abriu. Piper virou, e seu coração afundou. Jane
estava marchando na direção deles no seu terno de trabalho, vacilando sobre a areia nos
seus altos calcanhares, seu PDA na mão. O olhar no seu rosto estava em parte confuso,
em parte triunfante, e Piper sabia que ela mantivera contato com a polícia.
Por favor caia, Piper rezou. Se há algum espírito animal ou deus grego que
possa ajudar, faça-a dar um mergulho. Não estou pedindo dano permanente, só
eliminá-la pelo resto do dia, por favor?
Mas Jane continuou avançando.
“Pai,” Piper disse rapidamente. “Uma coisa aconteceu ontem...”
Mas ele viu Jane também. Ele já estava reconstruindo seu rosto de negócios.
Jane não estaria aqui se não fosse sério. Um diretor de estúdio chamava — um projeto
foi arruinado — ou Piper havia estragado tudo novamente.
“Vamos voltar a isso, Pipes,” ele prometeu. “É melhor eu ver o que a Jane quer.
Você sabe como ela é.”
Sim — Piper sabia. O pai marchou pela areia para encontrá-la. Piper não podia
ouvi-los conversando, mas ela não precisava. Ela era boa em leitura facial. Jane lhe deu
os fatos sobre o carro roubado, ocasionalmente apontando para Piper como se ela fosse
um animal repulsivo que silvava no carpete.
A energia e entusiasmo do pai drenaram. Ele gesticulou pra Jane esperar. Então
ele voltou para Piper. Ela não podia aguentar aquele olhar nos olhos deles — como se
ela tivesse traído sua confiança.
“Você me disse que iria tentar, Piper,” ele disse.
“Pai, eu odeio aquela escola. Eu não posso fazer isso. Eu queria lhe dizer sobre a
BMW, mas —”
“Eles lhe expulsaram,” ele disse. “Um carro, Piper? Você vai fazer dezesseis no
próximo ano. Eu lhe compraria qualquer carro que quisesse. Como você pôde —”
“Você quer dizer que Jane me compraria um carro?” Piper exigiu. Ela não podia
ajudar nisso. A raiva só aumentava e derramava para fora dela. “Pai, só ouça por uma
vez. Não me faça esperar por você para fazer suas estúpidas três perguntas. Eu quero ir
para uma escola normal. Eu quero que você me leve para a noite dos pais, e não Jane.
Ou me eduque em casa! Eu aprendi tanto quando lemos sobre a Grécia juntos.
Poderíamos fazer isso toda a hora! Poderíamos —”
“Não faça isso comigo,” seu pai disse. “Eu faço o melhor que posso, Piper. Já
tivemos essa conversa.”
Não, ela pensou. Você adiou essa conversa. Por anos.
Seu pai suspirou. “Jane falou com a polícia, fechou um acordou. A
concessionária não vai pressionar, mas você tem que concordar em ir para um internato
em Nevada. Eles são especialistas em problemas... em crianças com assuntos difíceis.”
“É o que eu sou.” Sua voz estremeceu. “Um problema.”
“Piper... você disse que tentaria. Você me desapontou. Eu não sei mais o que
fazer.”
“Faça qualquer coisa,” ela disse. “Mas faça você mesmo! Não deixe Jane cuidar
disso para você. Você não pode simplesmente me despachar.”
O pai olhou para a cesta de piquenique. Seu sanduíche estava intocado num
pedaço de folha dourada. Eles planejaram uma tarde inteira no surfe. Agora isso estava
arruinado. Piper não pôde acreditar que ele realmente cedera aos desejos da Jane. Não
dessa vez. Não em algo maior que um internato.
“Vá vê-la,” papai disse. “Ela tem os detalhes.”
“Pai...”
Ele desviou o olhar, olhando para o oceano como se pudesse ver todo o caminho
para o País Fantasma. Piper prometeu a si que não iria chorar. Ela foi em direção a Jane,
que sorria friamente e segurava uma passagem de voo. Como sempre, ela já arranjou
tudo. Piper era só outro problema diário que Jane agora podia tirar da lista.
* * *
O sonho de Piper mudou.
Ela estava no topo de um Monte de noite, as luzes da cidade cintilando abaixo.
Em frente a ela, uma fogueira reluzia. As chamas arroxeadas pareciam fazer mais
sombras que a luz, mas o calor era tão intenso que suas roupas queimavam.
“Esse é o seu segundo alerta,” uma voz ressoou, tão poderosa que sacudiu o
mundo. Piper ouvira aquela voz antes nos seus sonhos. Tentou convencer-se que não era
tão assustador quanto ela lembrava, mas era pior.
Atrás da fogueira, um grande rosto aparecia indistintamente na escuridão.
Parecia flutuar sobre as chamas, mas Piper sabia que devia estar conectado a um corpo
enorme. As feições rudes deveriam ter sido esculpidas de rochas. O rosto dificilmente
parecia vivo exceto pelos seus penetrantes olhos brancos, como diamantes novos, e sua
estrutura horrível de medo, trançada com ossos humanos. Ela sorriu, e Piper tremeu.
“Você fará o que lhe for dito,” o gigante disse. “Você irá à missão. Execute
nossa ordem, e você pode partir viva. Caso contrário —”
Ele gesticulou para um lado do fogo. O pai de Piper estava pendurado
inconsciente, amarrado num poste.
Ela tentou gritar. Ela queria chamar pelo seu pai, e exigir que o gigante o
soltasse, mas sua voz não funcionou.
“Estarei observando,” o gigante disse. “Sirva-me, e ambos vivem. Você tem a
palavra de Encélado. Falhe-me... bem, eu dormi por um milênio, jovem semideusa. Eu
estou com muita fome. Falhe, e vou comer bem.”
O gigante riu. A terra estremeceu. Uma fenda abriu-se nos pés de Piper, e ela
tombou na escuridão.
Ela acordou como se tivesse sido pisoteada por uma multidão dançando o passoirlandês.
Seu peito doía, e ela mal podia respirar. Ela desceu e fechou a mão ao redor do
punho da adaga que Annabeth lhe dera — Katoptris, a arma de Helena de Troia.
Então o Acampamento Meio-Sangue não foi um sonho.
“Como você está se sentindo?” alguém perguntou.
Piper tentou focar-se. Ela estava deitada numa cama com uma cortina branca
num lado, como uma enfermaria. Aquela garota ruiva, Rachel Dare, sentava perto dela.
Na parede tinha um pôster com o desenho de um sátiro que parecia incomodamente
como o Treinador Hedge com um termômetro na boca. A legenda dizia: Não deixe
doenças chegarem ao seu bode!
“Onde —” A voz de Piper morreu quando ela viu o sujeito na porta.
Ele parecia um surfista típico da Califórnia — bronzeado, cabelo loiro, vestindo
um short e uma camiseta. Mas ele tinha centenas de olhos azuis sobre o corpo — ao longo dos braços, nas pernas, e em todo o rosto. Até seus pés tinham olhos, olhando
para ela por entre as tiras das sandálias.
“Esse é Argos,” Rachel disse, “nosso chefe da segurança. Ele só está dando uma
olhada nas coisas... por assim dizer.”
Argos assentiu. O olho no seu queixo piscou.
“Onde — ?” Piper tentou novamente, mas sentia como se estivesse falando
através de um bocado de algodão.
“Você está na Casa Grande,” Rachel disse. “Escritório do acampamento.
Trouxemos você aqui quando caiu.”
“Você me agarrou,” Piper lembrou. “A voz de Hera —”
“Me perdoe por aquilo,” Rachel disse. “Acredite em mim, não foi minha ideia
ser possuída. Quíron lhe curou com um pouco de néctar —”
“Néctar?”
“A bebida dos deuses. Em pequenas quantidades, cura semideuses, se assim não
— er — te reduzir a cinzas.”
“Ah. Divertido.”
Rachel sentou-se mais para frente. “Você lembra sua visão?”
Piper teve um momento de medo, pensando que ela dizia sobre o sonho com o
gigante. Então ela percebeu que Rachel estava falando sobre o que aconteceu no chalé
de Hera.
“Tem algo de errado com a deusa,” Piper disse. “Me disse para libertá-la, como
se estivesse presa. Ela mencionou a terra nos engolindo, e um ardente, e algo sobre o
solstício.”
No canto, Argos fez um som retumbante no peito. Seus olhos todos agitaram-se
de uma vez.
“Hera criou Argos,” Rachel explicou. “Ele na verdade é bastante sensível
quando vem para a segurança dela. Estamos tentando impedi-lo de chorar, porque da
última vez que isso aconteceu... bem, causou uma bela duma inundação.”
Argos fungou. Ele pegou um punhado de lenços do criado-mudo e começou a
esfregar todos os olhos sobre o corpo.
“Então...” Piper tentou não olhar enquanto Argos limpava as lágrimas dos
cotovelos. “O que aconteceu com Hera?”
“Não temos certeza,” Rachel disse. “Annabeth e Jason estiveram aqui por você,
a propósito. Jason não queria te deixar, mas Annabeth teve uma ideia — algo que pode
restaurar as memórias dele.”
“Isso é... isso é legal.”
Jason estivera aqui por ela? Ela queria estar consciente para isso. Se ele
conseguisse sua memória de volta, aquilo seria uma coisa boa? Ela ainda estava
resistindo para a esperança que eles realmente conheciam um ao outro. Ela não queria
que o relacionamento deles fosse só um truque da Névoa.
Recomponha-se, ela pensou. Se ela ia salvar seu pai, não importava se Jason
gostava dela ou não. Ele a odiaria no fim. Todos aqui iriam.
Ele olhou para a adaga cerimonial amarrada ao seu lado. Annabeth disse que era
uma marca de poder e status, mas não era normalmente usada em batalha. Tudo de
amostra e nenhuma matéria. Uma falsa, assim como Piper. E seu nome era Katoptris,
espelho. Ela não ousou desembainhá-la novamente, porque ela não poderia carregar
para ver seu próprio reflexo.
“Não se preocupe.” Rachel apertou sua mão. “Jason parece um cara bom. Ele
teve uma visão também, muito parecida com a sua. O que quer que esteja acontecendo
com Hera — eu acho que vocês dois deverão trabalhar juntos.”
Rachel sorriu como se fosse uma boa notícia, mas os espíritos de Piper
afundaram mais ainda. Ela pensou que essa missão — o que quer que fosse —
envolveria pessoas sem reputação. Agora Rachel estava basicamente lhe dizendo: Boas
notícias! Não só seu pai é que será sequestrado por um gigante canibal, você também
conseguirá trair o cara que você gosta! Isso não é incrível?
“Ei,” Rachel disse. “Não precisa chorar. Você vai compreender.”
Piper secou os olhos, tentando controlar-se. Essa não era ela. Ela devia ser
resistente — uma ladra de carros endurecida, a aflição das escolas particulares de L.A.
Aqui estava ela, chorando como um bebê. “Como você pode saber o que estou
encarando?”
Rachel deu de ombros. “Eu sei que é uma escolha difícil, e suas opções não são
perfeitas. Como disse, eu tenho intuições às vezes. Mas você será reclamada na
fogueira. Tenho quase certeza. Quando você souber quem seu pai olimpiano é, as coisas
podem ficar mais claras.”
Mais claras, Piper pensou. Não necessariamente melhores.
Ela sentou na cama. Sua testa doía como se alguém tivesse dirigido um prego
entre seus olhos. Não há como conseguir sua mãe de volta, seu pai lhe dissera. Mas aparentemente, à noite, sua mãe a reclamaria. Pela primeira vez, Piper não tinha certeza
se queria isso.
“Espero que seja Atena.” Ela ergueu os olhos, com medo que Rachel pudesse
tirar sarro dela, mas o oráculo só sorriu.
“Piper, não lhe censuro. Sinceramente? Acho que Annabeth está esperando isso
também. Vocês têm muito em comum.”
A comparação fez Piper se sentir mais culpada ainda. “Outra intuição? Você não
sabe nada sobre mim.”
“Você se surpreenderia.”
“Você só está falando isso porque você é um oráculo, não é? Você devia soar
toda misteriosa.”
Rachel riu. “Não fique dando meus segredos, Piper. E não se preocupe. As
coisas vão se resolver — somente talvez não do jeito que você planeja.”
“Não está me fazendo sentir melhor.”
Em algum lugar distante, uma buzina de concha soou. Argos rosnou e abriu a
porta.
“Jantar?” Piper supôs.
“Você dormiu durante ele,” Rachel disse. “Hora da fogueira. Vamos descobrir
quem você é.”

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