domingo, 18 de setembro de 2011

Capítulo Um - O Herói Perdido

I
JASON
Antes mesmo de ser eletrocutado, Jason estava tendo um dia podre.
Ele acordou no banco traseiro de um ônibus escolar, sem ter certeza de onde
estava, segurando a mão de uma garota que ele não conhecia. Essa não era
necessariamente a parte podre. A menina era bonita, mas ele não conseguia entender
quem ela era ou o que ela estava fazendo ali. Ele se sentou e esfregou os olhos, tentando
pensar.
Umas poucas dúzias de crianças espalhavam-se pelos bancos em frente ao dele,
ouvindo seus iPods, conversando, ou dormindo. Todos eles pareciam ter sua idade…
Quinze? Dezesseis? Ok, isso era assustador. Ele não sabia sua própria idade.
O ônibus trafegava por uma estrada esburacada. Do lado de fora das janelas,
passava o deserto, debaixo de um brilhante céu azul.
Jason estava certo que ele não morava no deserto. Ele tentou pensar
novamente… a última coisa que ele lembrava…
A garota apertou sua mão. “Jason, você está bem?”
Ela usava jeans desbotados, botas de caminhada, e uma jaqueta de lã de
snowboard. Seu cabelo castanho-chocolate era cortado de forma desigual, com os lados
trançados para baixo. Ela não usava maquiagem, como se ela estivesse tentando não
chamar atenção para si mesma; mas não funcionou. Ela era realmente bonita. Seus olhos
pareciam mudar de cor como em um caleidoscópio — marrom, azul, e verde.
Jason soltou a mão dela. “Hum, eu não —”
Na parte da frente do ônibus, um professor gritou “Está bem, bolinhos, ouçam!”
O homem obviamente era um treinador. Seu boné de beisebol estava afundado
na cabeça, deixando a vista somente seus olhos lustrosos. Ele tinha uma barbicha rala e
uma cara azeda, como se tivesse comido algo mofado. Seus braços castanhos e peito
vestindo uma radiante camisa pólo laranja. Suas calças de treino de náilon e seus Nikes
estavam imaculadamente brancos. Usava um apito pendurado no pescoço, e um
megafone estava preso ao seu cinto. Ele teria parecido bastante assustador se não tivesse
apenas um metro e meio de altura. Quando ele se levantou no corredor, um dos
estudantes gritou “Levante-se, Treinador Hedge!”
“Eu ouvi isso!” O treinador examinou o ônibus atrás do ofensor. Então seus
olhos fixaram-se em Jason e sua carranca se aprofundou.
Uma sacudida desceu pela coluna de Jason. Ele estava certo de que o treinador
sabia que ele não pertencia aquele lugar. Ele estava indo chamar Jason, perguntar o que
ele estava fazendo no ônibus — e Jason não saberia o que dizer.
Só que o Treinador Hedge olhou para longe e pigarreou. “Chegaremos em cinco
minutos! Permaneçam com sua dupla. Não percam suas planilhas. E se um de vocês
preciosos pequenos bolinhos causarem qualquer problema nessa excursão, eu vou
pessoalmente mandá-los de volta para o campus do jeito difícil.”
Ele pegou um taco de baseball e fez como se estivesse batendo em um pombocorreio.
Jason olhou para a garota ao seu lado. “Ele pode falar conosco desse jeito?”
Ela deu de ombros. “Ele sempre fala. Essa é a Wilderness School, ‘Onde
crianças são os animais’.”
Ela falou como se fosse uma piada que tinham partilhado antes.
“Isso é um algum tipo de engano,” Jason falou. “Eu não devia estar aqui.”
O garoto que estava a sua frente virou e riu. “Sim, certo, Jason. Todos nós fomos
enquadrados! Eu não fugi seis vezes. Piper não roubou uma BMW.”
A garota corou. “Eu não roubei esse carro, Leo!”
“Oh, eu esqueci, Piper. Qual foi a sua história? Você ‘jogou conversa’ para o
vendedor emprestar para você?” Ele levantou as sobrancelhas para Jason como se
dissesse, Você acredita nela?
Leo parecia um elfo latino do Papai Noel, com cabelos pretos encaracolados,
orelhas pontudas, uma cara alegre, infantil, e um sorriso travesso que lhe disse logo:
esse cara não deve ser confiável na presença de fósforos ou objetos cortantes. Seus
dedos longos e ágeis não paravam de se movimentar — batucando no banco, colocando
o cabelo atrás das orelhas, brincando com os botões do paletó de farda de exército. Ou o
garoto era naturalmente hiperativo ou se entupiu de açúcar e cafeína o suficiente para
dar um ataque cardíaco a um búfalo.
“De qualquer forma,” disse Leo, “Eu espero que esteja com a sua planilha,
porque eu usei a minha para fazer bolas de cuspe a dias atrás. Por que você está me
olhando assim? Alguém desenhou na minha cara de novo?”
“Eu não te conheço,” Jason disse.
Leo deu-lhe um sorriso de crocodilo. “Claro. Não sou seu melhor amigo. Eu sou
o clone mau dele.”
“Leo Valdez!” Treinador Hedge gritou da frente. “Algum problema aí atrás?”
Leo piscou para Jason. “Assista essa.” Ele virou-se para frente. “Desculpe-me,
Treinador! Eu estava tendo problemas para te escutar. Você pode usar seu megafone,
por favor?”
O Treinador Hedge grunhiu como se ele estivesse feliz por ter uma desculpa. Ele
tirou o megafone do seu cinto e continuou a dar orientações, mas sua voz saiu como a
de Darth Vader. As crianças caíram na gargalhada. O treinador tentou novamente, mas
desta vez o megafone bradou: “A vaca diz moo!”
Os garotos gritaram, e o treinador bateu o megafone. “Valdez!”
Piper abafou um riso. “Meu Deus, Leo. Como você fez isso?”
Leo deixou uma pequena chave de fenda Phillips cair de sua manga. “Sou um
garoto especial.”
“Gente, é sério,” Jason confessou. “O que estou fazendo aqui? Para onde
estamos indo?”
Piper arqueou suas sobrancelhas. “Jason você está brincando?”
“Não! Eu não tenho idéia —”
“Ah, sim, ele está brincando,” Disse Leo. “Ele está tentando descontar daquela
vez que tinha creme de barbear na Jell-O, não é?”
Jason olhou para ele sem expressão.
“Não, eu acho que ele está falando sério.” Piper tentou pegar sua mão
novamente, mas ele a puxou.
“Desculpe-me,” Ele disse. “Eu não — Eu não posso —”
“É isso aí!” Treinador Hedge gritou pela frente. “A fila de trás acabou de se
oferecer para limpar a bagunça depois do almoço!”
O resto dos garotos aplaudiu.
“Isso é chocante,” Disse Leo.
No entanto, Piper manteve seus olhos em Jason, como se ela não pudesse se
decidir se estava machucada ou preocupada. “Você bateu a cabeça ou algo assim? Você
realmente não sabe quem somos?”
Jason deu com os ombros, impotente. “É pior do que isso. Eu não sei quem sou.”
O ônibus deixou-os na frente de um grande complexo de estuque vermelho
parecido com um museu, localizado no meio do nada. Talvez seja isso o que é: o Museu
Nacional de Meio do Nada, Jason pensou. Um vento frio soprava do deserto. Jason não
tinha prestado muita atenção ao que ele estava usando, mas não era nem perto de ser
quente o suficiente: jeans e tênis, uma camiseta roxa, e um blusão preto fino.
“Então, um curso intensivo para amnésia,” Leo disse, em um tom prestativo que
levou Jason a pensar que não ajudaria em nada. “Nós frequentamos a ‘Wilderness
School’” — Leo fez as aspas no ar com os dedos. “O que significa que somos ‘crianças
más’. Sua família ou o órgão responsável por você decidiram que você era muito
problemático, então te mandaram para esta adorável prisão — me desculpe ‘internato’
— em Armpit, Nevada, na qual você aprende valiosas habilidades naturais como correr
dez quilômetros por dia, através dos cactos e tecelagem de margaridas em chapéus! E
para um tratamento especial nós vamos a viagens ‘educacionais’ de campo com o
Treinador Hedge que mantém a ordem com um taco de baseball. Está tudo voltando
para você agora?”
“Não.” Jason olhou apreensivamente para as outras crianças: vinte garotos,
talvez, e a metade deste número de garotas. Nenhum deles parecia ser criminosos
perigosos, só que ele imaginou o que eles teriam feito para serem sentenciados a uma
escola para delinquentes e imaginou por que ele pertencia a este grupo.
Leo revirou os olhos. “Você realmente vai continuar com isso, não é? Ok, então
nós três entramos aqui juntos este ano. Nós somos bem próximos. Você faz tudo o que
eu digo, me dá sua sobremesa e faz meus deveres…”
“Leo!” Piper vociferou.
“Está bem. Ignore esta última parte. Mas nós somos amigos. Bom, Piper é um
pouco mais do que sua amiga nas últimas semanas —”
“Leo, pára com isso!” O rosto de Piper ficou vermelho. Jason também podia
sentir seu rosto queimando. Pensou que se lembraria se estivesse saindo com uma
garota como Piper.
“Ele está com amnésia ou algo do tipo.” Piper disse. “Nós temos que contar a
alguém.”
Leo zombou. “Quem, o Treinador Hedge? Ele tentaria curar Jason batendo em
cima da sua cabeça.”
O treinador estava na frente do grupo, gritando ordens e assoprando seu apito
para manter as crianças na fila, mas, de vez em quando, ele olhava para Jason e franzia
as sobrancelhas.
“Leo, Jason precisa de ajuda.” Piper insistiu. “Ele teve uma concussão ou…”
“E aí, Piper.” Um dos outros meninos ficou para trás para se juntar aos três
enquanto a turma se dirigia para o museu. O garoto novo se espremeu entre Jason e
Piper e derrubou Leo. “Não fale com estes perdedores. Você é minha parceira, lembrase?”
O novo rapaz tinha cabelos escuros cortado ao estilo do Super-Homem, era bem
bronzeado, e tinha dentes tão brancos que eles deveriam vir com uma placa de
recomendação: não olhe diretamente para os dentes, pode causar cegueira permanente.
Ele vestia um casaco dos Dallas Cowboys, calças jeans e botas ao estilo faroeste, e
sorria como se fosse um presente de Deus para todas as meninas delinquentes de todo
lugar. Jason odiou-o instantaneamente.
“Vá embora, Dylan,” Piper resmungou. “Eu não pedi para trabalhar com você.”
“Ah, não seja assim. Hoje é o seu dia de sorte!” Dylan enganchou seu braço no
de Piper e arrastou-a pela entrada do museu. Piper deu uma última olhada por sobre o
ombro, como se fosse um pedido de ajuda urgente.
Leo se levantou e se limpou. “Eu odeio esse cara.” Ele ofereceu seu braço a
Jason, como se eles fossem entrar juntos pulando. “Eu sou o Dylan. Eu sou tão legal, eu
gostaria de namorar comigo mesmo, mas eu não consigo descobrir como! Você quer
sair comigo, então? Você tem tanta sorte!” “Leo,” Jason disse, “você é estranho.”
“É, você me diz isso bastante.” Leo sorriu largamente. “Mas se você não se
lembra de mim, significa que eu posso recontar todas as minhas piadas antigas. Vamos
lá!”
Jason deduziu que, se este era seu melhor amigo, sua vida devia ser uma
bagunça, mas ele seguiu Leo para dentro do museu.
Eles caminharam para dentro do prédio, parando aqui e ali para o treinador Hedge lhes
dar um sermão com o seu megafone, que alternadamente o fazia parecer um lorde Sith
ou soltava comentários aleatórios como “o porco diz oink.”
Leo continuava tirando porcas de parafusos, pregos, limpadores de cachimbo do
bolso e juntando-os, como se ele tivesse que manter suas mãos ocupadas o tempo todo.
Jason estava distraído demais para prestar muita atenção para as exposições, mas
elas falavam do Grand Canyon e da tribo Hualapai, que era dona do museu.
Algumas garotas continuavam olhando para Piper e Dylan e rindo baixinho.
Jason deduziu que estas garotas eram do grupo das populares. Elas usavam calças jeans
combinando, blusas rosa e tanta maquiagem que elas poderiam ir a uma festa de Dia das
Bruxas.
Uma delas disse “Ei, Piper, a sua tribo cuida desse lugar? Você entra de graça se
fizer a dança da chuva?”
As outras garotas riram. Até o assim dito parceiro da Piper, Dylan, suprimiu um
sorriso. O casaco de snowboard de Piper escondeu suas mãos, mas Jason teve a
sensação de que ela tinha cerrado seus punhos.
“Meu pai é Cherokee,” ela disse, “e não Hualapai. Mas é claro, você precisaria
de alguns neurônios para saber a diferença, Isabel.”
Isabel abriu os olhos em uma surpresa irônica, de maneira que pareceu uma
coruja maquiada. “Ah, desculpe-me. A sua mãe era dessa tribo? Ah, é verdade. Você
nunca conheceu sua mãe.”
Piper avançou sobre ela, mas antes que uma briga pudesse começar, o treinador
Hedge vociferou “Já chega, vocês aí atrás! Sejam um bom exemplo ou eu vou pegar o
meu taco de baseball!” O grupo prosseguiu para a próxima exposição, mas algumas
meninas continuaram soltando pequenos comentários para Piper.
“É bom estar de volta à reserva?” uma perguntou com uma voz doce.
“O pai deve estar bêbado demais para trabalhar,” outra disse com um pesar falso.
“É por isso que ela se tornou cleptomaníaca.”
Piper as ignorava, mas Jason estava pronto para socá-las. Ele poderia não se
lembrar de Piper e nem de quem ele era, mas ele odiava crianças más. Leo segurou seu
braço. “Fique calmo. Piper não gosta que lutemos suas batalhas por ela. Além disso, se
essas garotas descobrissem a verdade sobre o pai dela, elas estariam todas a
reverenciando e gritando ‘nós não somos merecedoras!’”
“Por quê? O que tem o pai dela?”
Leo riu, sem acreditar. “Você não está brincando? Você realmente não se lembra
de que o pai da sua namorada…”
“Olha, eu queria lembrar, mas eu nem mesmo me lembro dela, muito menos de
seu pai.”
Leo assobiou. “Tanto faz. Nós temos que conversar quando voltarmos ao
dormitório.”
Eles chegaram ao final da sala de exibições, onde grandes portas de vidro
levavam a um terraço.
“Tudo bem, bolinhos,” o treinador Hedge anunciou. “Vocês estão prestes a ver o
Grand Canyon. Tentem não quebrá-lo. O observatório aguenta o peso de setenta jatos,
então vocês, pesos-pena, devem estar seguros lá. Se possível, evitem empurrar uns aos
outros por sobre a cerca, porque isso me daria mais papelada pra preencher.”
O treinador abriu as portas e todos saíram. O Grand Canyon se estendia diante
deles, ao vivo e em pessoa. Além da beira, se abria uma passarela em forma de
ferradura feita de vidro, de forma a permitir que você possa ver através dela.
“Cara,” Leo disse. “Isso é muito louco.”
Jason tinha de concordar. Apesar de sua amnésia e de sua sensação de que ele
não pertencia àquele grupo, ele não podia evitar ficar impressionado.
O desfiladeiro era maior e mais largo do que se poderia imaginar por uma foto.
Eles estavam tão alto que pássaros voavam abaixo deles. Quinhentos pés abaixo, um rio
serpenteava ao longo do pé do desfiladeiro. Bancos de nuvens de tempestade haviam se
movido ao alto enquanto eles estavam dentro do museu, lançando sombras que
pareciam rostos zangados sobre o penhasco. Até onde Jason podia ver em qualquer
direção, ravinas vermelhas e cinzas cortavam o deserto como se um Deus louco tivesse
o cortado com uma faca.
Jason sentia uma dor perfurante atrás dos olhos. Deuses loucos… De onde ele
tirou essa idéia? Ele sentia como se tivesse chegado perto de algo importante — algo
que ele devia saber. Ele também tinha a inequívoca sensação de que ele estava em
perigo.
“Você está bem?” Leo perguntou. “Você não vai vomitar por cima da cerca, vai?
Porque eu deveria ter trazido minha câmera.”
Jason se apoiou na grade. Ele estava tremendo e suando, mas não tinha nada a
ver com altura. Ele piscou e a dor atrás dos olhos melhorou um pouco.
“Eu estou bem,” ele disse. “É só uma dor de cabeça.”
Trovões estrondavam acima deles. Um vento frio quase o derrubou de lado
“Isto não pode ser seguro.” Leo lançou um olhar furtivo para as nuvens. “A
tempestade está bem acima de nós, mas o céu está limpo ao nosso redor. Estranho,
não?”
Jason olhou para cima e viu que Leo estava certo. Um círculo de nuvens escuras
havia se estacionado em cima do observatório, mas o resto do céu em todas as direções
estava perfeitamente limpo. Jason teve um pressentimento ruim sobre isso.
“Tudo bem, molengas!” Gritou o Treinador Hedge. Ele franziu o cenho para a
tempestade como se isso o incomodasse muito. “Talvez tenhamos que encurtar o
passeio, então mãos a obra! Lembrem-se, frases completas!”
A tempestade rugia, e a cabeça de Jason começou a doer de novo. Sem saber por
que fez isso, enfiou a mão no bolso do jeans e de lá tirou uma moeda — um círculo de
ouro do tamanho de uma moeda de 50 cents, um pouco mais espessa e mais desigual.
Em um dos lados estava estampada a figura de um machado de batalha. No outro estava
o rosto de um garoto coberto de louros. A inscrição dizia algo como ivlivs.
“Nossa, isso é ouro?” Leo perguntou. “Você esteve escondendo de mim!”
Jason colocou a moeda longe, se perguntando como ele viria a tê-la, e porque ele
sentia que precisaria dela em breve.
“Não é nada” ele disse. “Só uma moeda.”
Leo balançou os ombros. Talvez sua mente tivesse que manter se movimentando
tanto quanto suas mãos. “Vamos lá” ele disse. “Te desafio a cuspir na beirada.”
Eles não se esforçaram muito na planilha. Por um motivo, Jason estava muito
distraído com a tempestade e com os seus próprios sentimentos confusos. Por outro
motivo, ele não tinha nenhuma idéia como “nomear três camadas sedimentares que você
observa” ou “descrever dois exemplos de erosão.”
Leo não era de muita ajuda. Ele estava muito ocupado construindo um
helicóptero de limpadores de cachimbo.
“Veja isso.” Ele lançou o helicóptero. Jason imaginou que iria despencar, mas as
lâminas dos limpadores de cachimbo estavam realmente afiadas. O pequeno helicóptero
voou pelo desfiladeiro antes de perder a força inicial e cair em espiral no vazio.
“Como você fez isso?” Jason perguntou.
Leo deu de ombros “Poderia ter sido mais legal se eu tivesse alguns elásticos.”
“Falando sério,” Jason falou, “Nós somos amigos?”
“Na última vez que eu verifiquei.”
“Você tem certeza? Qual foi o primeiro dia que nós nos encontramos? Do que
nós falamos?”
“Foi…” Leo franziu a testa. “Não lembro exatamente. Tenho ADHD, cara. Você
não pode esperar que eu me lembre de detalhes.”
“Mas eu não me lembro de nada de você. Não me lembro de ninguém daqui. E
se —”
“Você está certo e todo mundo está errado?” Leo perguntou. “Você acha que só
apareceu aqui nesta manhã, e todos nós temos memórias falsas de você?” Uma pequena
voz na cabeça de Jason dizia, É exatamente o que eu penso.
No entanto, isso parecia loucura. Todo mundo tinha certeza da presença dele.
Todos agiram como se ele fosse uma parte normal da classe — exceto para o Treinador
Hedge.
“Pegue a planilha.” Jason entregou o papel para Leo. “Eu já volto.”
Antes que Leo pudesse protestar, Jason se dirigiu ao observatório.
O grupo escolar deles tinha o lugar inteiramente para eles mesmos. Talvez fosse
muito cedo para turistas, ou talvez o clima estranho tenha assustado todos. As crianças
da ‘Wilderness School’ se espalharam em pares em todo o observatório. A maioria
estava brincando ou conversando. Alguns garotos estavam jogando moedas de um
centavo para além da cerca. A mais ou menos cinqüenta pés de distancia, Piper estava
tentando preencher a sua planilha, mas o seu parceiro estúpido, Dylan, estava jogando
cantadas nela, colocando a sua mão no ombro da garota e dando-lhe aquele ofuscante
sorriso branco. Ela continuava afastando-o, e quando ela viu Jason, olhou para ele como
quem diz, Estrangule este garoto para mim.
Jason fez sinal para ela esperar. Ele caminhou até o Treinador Hedge, que estava
encostado em seu taco de baseball, estudando as nuvens de tempestade.
“Você fez isto?” o treinador perguntou para ele.
Jason deu um passo para trás. “Fiz o que?” Soou como se o treinador tivesse
acabado de perguntar se ele tinha feito a tempestade.
O Treinador Hedge olhou para ele, seus lustrosos olinhos brilhando sob a aba do
boné. “Não brinque comigo, criança. O que você está fazendo aqui e por que está
atrapalhando meu trabalho?”
“Você quer dizer que… você não me conhece?” Jason falou. “Não sou um de
seus alunos?”
Hedge inspirou. “Nunca tinha visto você até hoje.”
Jason estava tão aliviado que quase quis chorar. Pelo menos ele não estava
ficando louco. Ele estava no lugar errado. “Olhe, senhor, eu não sei como cheguei aqui.
Eu só acordei no ônibus da escola. Tudo que eu sei é que eu não deveria estar aqui.”
“Está certíssimo.” A voz rouca de Hedge caiu para um sussurro, como se ele
fosse partilhar um segredo. “Você tem uma maneira poderosa de manipular a névoa,
criança, já que você pode fazer todas essas pessoas pensarem que te conhecem; mas
você não pode me fazer de tolo. Eu estive farejando um monstro por dias. Eu sabia que
nós tínhamos um invasor, mas você não cheira como um monstro. Você cheira como
um meio-sangue. Então — quem é você, e de onde você veio?”
A maior parte do que o treinador falou não fazia sentido, mas Jason decidiu
responder honestamente. “Não sei quem eu sou. Não tenho nenhuma lembrança. Você
tem que me ajudar.”
Treinador Hedge estudou o seu rosto como se estivesse tentando ler os
pensamentos de Jason.
“Ótimo,” murmurou Hedge. “Você está sendo verdadeiro.”
“É claro que eu estou! E o que é tudo isso sobre monstros e meio-sangues? São
códigos ou alguma coisa assim?”
Hedge estreitou seus olhos. Parte de Jason se perguntou se o cara era só louco. A
outra parte, porém, sabia melhor.
“Olhe garoto,” Hedge falou, “Eu não sei quem você é. Só sei o que você é, e isso
significa problema. Agora eu tenho que proteger três de vocês e não dois. Você é o
pacote especial? É isso?”
“Do que você está falando?”
Hedge olhou para a tempestade. As nuvens estavam ficando mais grossas e mais
escuras, pairando diretamente sobre a passarela.
“Essa manhã,” Hedge falou, “recebi uma mensagem do acampamento. Eles
disseram que uma equipe de extração está a caminho. Eles estão vindo para pegar um
pacote especial, mas eles não deveriam me dar detalhes. Eu pensei por mim mesmo. Os
dois que eu estou observando são mais poderosos, mais velhos que a maioria. Eu sei que
eles estão sendo perseguidos. Eu posso sentir o cheiro de um monstro no grupo. Eu
imaginei que esse era o motivo para de repente o acampamento estar frenético para
buscá-los. Então você aparece do nada. Então, você é o pacote especial?.”
A dor atrás dos olhos de Jason ficou pior do que nunca. Meio-sangues.
Acampamento. Monstros. Ele continuou sem entender nada do que Hedge estava
falando, mas as palavras lhe deram um pesado congelamento nos miolos — como se sua
mente estivesse tentando acessar informações que deveriam estar ali, mas não estavam.
Ele tropeçou, e o Treinador Hedge o pegou. Para um cara pequeno, o treinador
tinha mãos de ferro.
“Calma lá, molenga. Você disse que não tem lembranças, né? Bem. Eu vou ter
que te observar, também, até a equipe chegar aqui. Vamos deixar o diretor descobrir
essas coisas.”
“Que diretor?” disse Jason. “Que acampamento?”
“Apenas sente. Reforços devem chegar aqui em breve. Espero que nada aconteça
antes —”
Um raio caiu acima de suas cabeças. O vento se manifestou com vingança.
Planilhas voaram para dentro do Grand Canyon, e a ponte inteira estremeceu. Crianças
gritaram, tropeçando e agarrando os trilhos.
“Eu preciso falar uma coisa,” Hedge resmungou. Ele gritou em seu megafone:
“Todo mundo lá dentro! A vaca disse mu! Fora do observatório”
“Achei que você disse que isso era estável!” Jason gritou por cima do vento.
“Em circunstâncias normais,” Hedge concordou, “as quais não são. Vamos!”

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