IV
Piper
PIPER LOGO PERCEBEU QUE O CORAÇÃO DE ANNABETH não estava no passeio.
Ela falou sobre todas essas coisas surpreendentes que o acampamento oferecia
— arco e flecha mágico, equitação de pégaso, a parede de lava, luta com monstros —
mas ela não demonstrou nenhuma animação, como se sua mente estivesse em outro
lugar. Ela apontou para o pavilhão de jantar ao ar livre que contemplava do alto o
Estreito de Long Island. (Sim, Long Island, Nova York; eles haviam viajado aquela
distância na biga.) Annabeth explicou que o Acampamento Meio-Sangue era na maior
parte um acampamento de verão, mas alguns garotos ficavam aqui quase um ano, e eles
tinham adicionado tantos campistas que sempre estava cheio agora, até no inverno.
Piper queria saber quem dirigia o acampamento, e como eles sabiam que Piper e
seus amigos eram membros dali. Ela queria saber se teria que ficar em tempo integral,
ou se ela teria alguma vantagem nas atividades. Você poderia ser jubilado na luta com
monstros? Milhões de perguntas borbulhavam na sua cabeça, mas dado o ânimo de
Annabeth, ela decidiu ficar quieta.
Enquanto eles subiam uma colina na beira do acampamento, Piper virou e teve
uma incrível visão do vale — uma grande extensão de florestas ao noroeste, uma linda
praia, o riacho, o lago de canoagem, magníficos campos verdes, e a amostra completa
dos chalés — um bizarro agrupamento de construções, arranjados como um ômega
grego, Ω, com um laço de chalés ao redor de um campo central, e duas asas ressaltando
a base em cada lado. Piper contou vinte chalés ao total. Um brilhava a ouro, outro a
prata. Um tinha grama no telhado. Outro era vermelho vivo com trincheiras de arame
farpado. Um chalé era preto com ardentes tochas verdes na frente.
Tudo isso parecia como um mundo diferente das colinas nevadas e campos do
lado de fora.
“O vale é protegido dos olhos mortais,” Annabeth disse. “Como você pode ver,
o clima é controlado, também. Cada chalé representa um deus grego — um lugar para o
filho daquele deus viver.”
Ela olhou para Piper como se estivesse tentando julgar como Piper estava
tratando as notícias.
“Você está dizendo que minha mãe era uma deusa.”
Annabeth assentiu. “Você está tomando isso com uma tremenda calma.”
Piper não pôde dizer a ela o porque. Ela não podia admitir que isso só
confirmava algumas misteriosas sensações que ela teve por anos, discussões que ela
tivera com seu pai sobre por que não haviam fotos da mãe na casa, e por que o pai
nunca contou-lhe exatamente como ou por que sua mãe havia deixado-os. Mas
principalmente, o sonho havia alertado-a que isso estava vindo. Logo eles a
encontrarão, semideusa, aquela voz falou grossamente. Quando eles lhe encontrarem,
siga nossas direções. Colabore, e seu pai poderá viver.
Piper tomou um fôlego vacilante. “Acho que depois dessa manhã, será um pouco
mais fácil de acreditar. Então, quem é minha mãe?”
“Devemos saber logo,” Annabeth disse. “Você tem o quê — quinze anos? Os
deuses deviam reclamar você quando tivesse treze. Esse foi o acordo.”
“O acordo?”
“Eles fizeram uma promessa no último verão... bem longa história... mas eles
prometeram não ignorar seus filhos semideuses, não mais, reclamá-los na hora que
fizessem treze. Às vezes demora um pouco, mas você viu como foi rápido para Leo ser
reclamado quando chegou aqui. Deve acontecer com você em breve. De noite na
fogueira, aposto que teremos um sinal.”
Piper queria saber se ele teria um grande martelo flamejante sobre a cabeça, ou,
com sua sorte, algo até mais embaraçoso. Um marsupial flamejante, talvez.
Quem quer que fosse sua mãe, Piper não tinha razão para pensar que ela estaria
orgulhosa de reclamar uma filha cleptomaníaca com tantos problemas. “Por que treze
anos?”
“O mais velho que você chega,” Annabeth disse, “o mais velho que os monstros
lhe notam, até tentarem te matar. Por volta dos treze anos é geralmente quando começa.
É por isso que mandamos protetores nas escolas para encontrar vocês, trazê-los ao
acampamento antes que seja tarde demais.”
“Como o Treinador Hedge?”
Annabeth assentiu. “Ele é — ele era um sátiro: meio homem, meio bode. Sátiros
trabalham para o acampamento, encontrando semideuses, protegendo-os, trazendo-os
enquanto ainda há tempo.”
Piper não tinha problemas para acreditar que o Treinador Hedge era metade
bode. Ela vira o cara comer. Ela nunca gostou muito do treinador, mas ela não podia
acreditar que ele se sacrificara para salvá-los.
“O que aconteceu com ele?” ela perguntou. “Quando subimos nas nuvens, ele...
ele se foi para sempre?”
“Difícil dizer.” A expressão de Annabeth estava aflita. “Espíritos de
tempestade... são difíceis de combater. Mesmo nossas melhores armas, de Bronze
celestial, passam através deles a não ser que você possa pegá-los de surpresa.”
“A espada de Jason transformou-os em pó,” Piper lembrou.
“Ele teve sorte, então. Se você golpear um monstro certeiro, você pode dissolvêlos,
enviar a sua essência de volta ao Tártaro.”
“Tártaro?”
“Um abismo imenso no Mundo Inferior de onde os piores monstros vêm. Um
tipo de buraco de maldade sem fundo. De qualquer jeito, quando os monstros
dissolvem, geralmente leva meses, anos até que possam se reformar. Mas desde que
esse espírito de tempestade, Dylan, partiu — bem, eu não sei por que ele manteria
Hedge vivo. Hedge era um protetor, entretanto. Ele conhecia os riscos. Sátiros não têm
almas mortais. Ele irá reencarnar como uma árvore ou flor ou alguma coisa assim.”
Piper tentou imaginar o Treinador Hedge como uma moita de amores-perfeitos
muito irritadiços. Aquilo a fez sentir-se pior ainda.
Ela olhou fixamente para os chalés abaixo, e uma sensação preocupante a
tomou. Hedge morrera para trazê-la aqui em segurança. O chalé da sua mãe estava em
algum lugar ali embaixo, o que significava que ela tinha irmãos e irmãs, mais pessoas
que ela teve de abandonar.
Faça o que falamos para você, a voz tinha dito. Ou as consequências serão
dolorosas. Ela contraiu as mãos debaixo dos braços, tentando fazê-las parar de tremer.
“Será legal,” Annabeth prometeu. “Você tem amigos aqui. Todos nós temos
vivido coisas esquisitas. Sabemos o que você está passando.”
Duvido, Piper pensou.
“Eu fui expulsa de cinco diferentes escolas nesses últimos cinco anos,” ela disse.
“Meu pai está correndo atrás de lugares para me colocar.”
“Só cinco?” Annabeth não soava como se estivesse provocando. “Piper, todos
aqui somos encrenqueiros qualificados. Eu fugi de casa quando tinha sete anos.”
“Sério?”
“Ah, sim. A maior parte de nós é diagnosticada com transtorno de déficit de
atenção ou dislexia, ou ambos —”
“Leo tem ADHD,” Piper disse.
“Certo. É porque somos preparados para a batalha. Agitados, impulsivos — não
nos encaixamos como crianças normais. Você deve ter ouvido quanto problema Percy
—” Seu rosto escureceu. “De qualquer jeito, semideuses conseguem uma má reputação.
Como você entrou em encrenca?”
Normalmente quando alguém fazia aquela pergunta, Piper começava uma luta,
ou mudava de assunto, ou causava algum tipo de distração. Mas por algum motivo ela
achou-se falando a verdade.
“Eu roubo coisas,” ela disse. “Bem, não realmente roubo...”
“Sua família é pobre?”
Piper riu amargamente. “Não mesmo. Eu fazia isso… Não sei por quê. Por
atenção, acho. Meu pai nunca tinha tempo para mim a menos que entrasse em
encrenca.”
Annabeth assentiu. “Eu posso entender. Mas você disse que não realmente
roubava? O que você quer dizer?”
“Bem... ninguém nunca acredita em mim. A polícia, professores — até as
pessoas de quem eu pego coisas: eles ficam tão embaraçados, eles vão negar o que
aconteceu. Mas a verdade é que eu não roubo nada. Eu só peço coisas para as pessoas. E
eles me dão as coisas. Até uma BMW conversível. Eu só pedi. E o revendedor disse
“Certo. Pegue-a.” Depois, ele percebeu o que fizera, eu acho. Então a polícia veio atrás
de mim.”
Piper esperou. Ela estava costumada às pessoas chamando-a de mentirosa, mas
quando ergueu os olhos, Annabeth apenas assentiu.
“Interessante. Se seu pai fosse o deus, eu diria que você é uma criança de
Hermes, deus dos ladrões. Ele pode ser bastante convincente. Mas seu pai é mortal...”
“Muito,” Piper concordou.
Annabeth sacudiu a cabeça, aparentemente iludida. “Eu não sei, então. Com
sorte, sua mãe irá lhe reclamar à noite.”
Piper quase esperou que não acontecesse. Se sua mãe fosse uma deusa, ela
saberia sobre aquele sonho? Ela saberia o que Piper fora pedida para fazer? Piper queria saber se deuses olimpianos alguma vez detonaram seus filhos com raios por serem
maus, ou mandaram-nos ao Mundo Inferior.
Annabeth estava estudando-lhe. Piper decidiu que teria de ser cuidadosa com o
que diria agora. Annabeth era obviamente bastante esperta. Se alguém pudesse
descobrir o segredo de Piper...
“Vamos lá,” Annabeth disse finalmente. “Há uma coisa a mais que eu preciso
checar.”
Elas andaram um pouco mais até que alcançaram uma caverna perto do topo da
colina. Ossos e espadas velhas espalhavam-se no chão. Tochas ladeavam a entrada, que
estava coberta com uma cortina de veludo enfeitada com cobras. Parecia o cenário para
algum tipo de show de marionetes.
“O que tem aí?” Piper perguntou.
Annabeth colocou a cabeça para frente, então suspirou e fechou as cortinas.
“Nada, agora. Lugar de uma amiga. Estive esperando-a por alguns dias, mas até agora,
nada.”
“Sua amiga mora numa caverna?”
Annabeth quase controlou um sorriso. “Na verdade, a família dela tem um
condomínio de luxo no Queens, e ela vai para uma escola de moças em Connecticut.
Mas quando ela está aqui no acampamento, sim, ela mora na caverna. Ela é nosso
oráculo, prevê o futuro. Eu estava esperando que ela pudesse me ajudar —”
“A encontrar Percy,” Piper supôs.
Toda a energia drenou-se de Annabeth, como se ela estivesse segurando-a o
máximo que pôde. Ela sentou numa rocha, e sua expressão estava tão cheia de dor,
Piper sentiu-se como uma voyeur.
Ela forçou-se a olhar para outro lado. Seus olhos flutuaram para o topo da
colina, onde um pinheiro solitário dominava o horizonte. Algo brilhava no seu galho
mais baixo — como um tapete felpudo e dourado.
Não... Não um tapete. Era o velocino de uma ovelha.
Ok, Piper pensou. Acampamento grego. Eles tinham uma réplica do Velocino de
Ouro.
Então ela notou a base da árvore. No começo ela pensou que a árvore estava
enrolada numa pilha de cabos roxos. Mas os cabos tinham escamas reptilianas, patas com garras, e uma cabeça parecida com a de uma cobra com olhos amarelos e narinas
fumegantes.
“Aquilo é — um dragão,” ela gaguejou. “Aquele é o Velocino de Ouro
verdadeiro?”
Annabeth assentiu, mas estava claro que ela não estava realmente ouvindo. Seus
ombros abaixaram. Ela esfregou o rosto e tomou um fôlego trêmulo. “Desculpe. Estou
um pouco cansada.”
“Você parece pronta para cair,” Piper disse. “Há quanto tempo está procurando
pelo seu namorado?”
“Três dias, seis horas, e aproximadamente vinte minutos.”
“E você não tem idéia do que aconteceu com ele?”
Annabeth balançou a cabeça miseravelmente. “Estávamos tão animados por que
ambos começáramos as férias de inverno cedo. Encontraríamos-nos no acampamento na
terça-feira, calculamos que nós tínhamos três semanas juntos. Seria incrível. Então
depois da fogueira, ele — me deu um beijo de boa noite, voltou para o seu chalé, e na
manhã seguinte, ele havia partido. Procuramos pelo acampamento inteiro. Contatamos
sua mãe. Tentamos alcançá-lo de todas as maneiras que sabemos. Nada. Ele
simplesmente desapareceu.”
Piper estava pensando: Três dias atrás. A mesma noite que ela tivera seu sonho.
“Há quanto tempo vocês dois estão juntos?”
“Desde agosto,” Annabeth disse. “Dezoito de agosto.”
“Quase exatamente quando eu encontrei Jason,” Piper disse. “Mas só ficamos
juntos por algumas semanas.”
Annabeth estremeceu. “Piper... sobre isso. Talvez você devesse sentar-se.”
Piper sabia onde isso ia dar. Pânico começar a crescer dentro dela, como se os
pulmões estivessem cheios d’água. “Olhe, eu sei que Jason pensou — ele pensou que só
apareceu na nossa escola hoje. Mas não é verdade. Eu o conheço há quatro meses.”
“Piper,” Annabeth disse tristemente. “É a Névoa.”
“O quê?”
“Névoa. É um tipo de véu separando o mundo mortal do mundo mágico. Mentes
mortais — elas não podem processar coisas estranhas como deuses e monstros, então a
Névoa distorce a realidade. Faz mortais verem coisas de um modo que eles possam entender — como se os olhos deles só pudessem saltar sobre esse vale, ou eles
pudessem olhar para aquele dragão e ver uma pilha de cabos.”
Piper tragou. “Não. Você mesma disse que eu não sou uma mortal comum. Eu
sou uma semideusa.”
“Até semideuses podem ser afetados. Eu vi isso várias vezes. Monstros
infiltram-se em algum lugar como uma escola, passam-se por humanos, e todos acham
que lembram daquela pessoa. Eles acreditam que ele sempre esteve por perto. A Névoa
pode mudar memórias, até criar memórias de coisas que nunca aconteceram —”
“Mas Jason não é um monstro!” Piper insistiu. “Ele é um humano, ou semideus,
ou como você quiser chamá-lo. Minhas memórias não são falsas. Elas são muito reais.
A vez que nós colocamos as calças do Treinador Hedge no fogo. A vez que Jason e eu
assistimos uma chuva de meteoros no telhado do dormitório e eu finalmente consegui
fazer o sujeito estúpido me beijar...”
Ela encontrou-se falando, contando para Annabeth sobre todo o seu semestre na
Wilderness School. Ela havia gostado de Jason desde há primeira semana que se
encontraram. Ele era tão bondoso com ela, e tão paciente, ele podia até tramar com o
hiperativo Leo e suas estúpidas brincadeiras. Ele havia aceitado-a por ser ela mesma e
não a julgou por causa das coisas estúpidas que ela fizera. Eles gastaram horas
conversando, olhando para as estrelas, e consequentemente — finalmente — dando as
mãos. Tudo aquilo não podia ser mentira.
Annabeth franziu os lábios. “Piper, suas memórias são mais aguçadas que a
maioria. Vou admitir isso, e não sei por que. Mas se você o conhece tão bem—”
“Eu conheço!”
“Então de onde ele é?”
Piper sentiu-se como se fosse atingida entre os olhos. “Ele deve ter me dito, mas
—”
“Você já havia notado sua tatuagem hoje mais cedo? Ele já lhe disse alguma
coisa sobre seus pais, ou seus amigos, ou sua última escola?”
“Eu — eu não sei, mas —”
“Piper, qual é o sobrenome dele?”
Sua mente ficou vazia. Ela não sabia o sobrenome de Jason. Como podia ser?
Ela começou a chorar. Ela se sentiu uma completa tola, mas ela sentou-se na
rocha do lado de Annabeth e sentiu-se quebrada em pedaços. Era muito. Tudo que era
bom na sua vida estúpida e miserável tinha que ser tirado?
Sim, o sonho lhe havia dito. Sim, a menos que você faça exatamente o que
dissermos.
“Ei,” Annabeth disse. “Vamos descobrir. Jason está aqui agora. Quem sabe?
Talvez vocês se resolvam realmente.”
Não é provável, Piper pensou. Não se o sonho havia lhe dito a verdade. Mas ela
não podia falar isso.
Ela limpou uma lágrima da bochecha. “Você me trouxe aqui para que ninguém
me visse chorando, hein?”
Annabeth deu de ombros. “Pensei que seria difícil para você. Eu sei como é
perder um namorado.”
“Mas eu ainda não posso acreditar... Eu sei que tivemos algo. E agora
simplesmente se foi, ele nem me reconhece. Se ele realmente só apareceu hoje, então
por quê? Como ele chegou aqui? Por que ele não pode lembrar-se de nada?”
“Boas perguntas,” Annabeth disse. “Esperamos que Quíron possa compreender
isso. Mas agora, precisamos deixar você arrumada. Está pronta para voltar lá pra
baixo?”
Piper fitou o louco agrupamento de chalés no vale. Sua nova casa, uma família
que, supostamente, a entendia — mas em breve eles só seriam outro grupo de pessoas
que ela desapontaria só outro lugar de onde ela seria expulsa. Você irá abandoná-los
por nós a voz lhe alertara. Ou você perderá tudo.
Ela não tinha escolha.
“Sim,” ela mentiu. “Estou pronta.”
No campo central, um grupo de campistas estava jogando basquete. Eles eram
jogadores incríveis. Nenhum errava a cesta. Bolas de três pontos entravam
automaticamente.
“Chalé de Apolo,” Annabeth explicou. “Turma de faroleiros com armas projéteis
— flechas, bolas de basquete.”
Eles passaram por uma depressão central, onde dois rapazes estavam cortando
um ao outro com espadas.
No campo central, um grupo de campistas estava jogando basquete. Eles eram
jogadores incríveis. Nenhum errava a cesta. Bolas de três pontos entravam
automaticamente.
“Chalé de Apolo,” Annabeth explicou. “Turma de faroleiros com armas projéteis
— flechas, bolas de basquete.”
Eles passaram por uma depressão central, onde dois rapazes estavam cortando
um ao outro com espadas.
“Lâminas reais?” Piper notou. “Não é perigoso?”
“Faz parte do ponto,” Annabeth disse. “Ah, desculpe. Trocadilho ruim. Aquele é
meu chalé. Número Seis.” Ela assentiu para uma construção cinza com uma coruja
esculpida sobre a porta. Através da entrada aberta, Piper pôde ver prateleiras de livros,
exposição de armas, e um daqueles SMART Board computadorizados que eles tinham
em salas de aula. Duas garotas estavam desenhando um mapa que parecia com um
diagrama de batalha.
“Falando de lâminas,” Annabeth disse, “venha aqui.”
Ela levou Piper para o lado do chalé, para um grande abrigo de metal que
parecia que fora feito para instrumentos de jardinagem. Annabeth destrancou-o, e dentro
não havia nenhum instrumento de jardinagem, a menos que você queira fazer uma
guerra nas suas plantações de tomate. O abrigo estava alinhado com todos os tipos de
armas — de espadas a arpões e porretes como o do Treinador Hedge.
“Todo semideus precisa de uma arma,” Annabeth disse. “Hefesto faz o melhor,
mas temos uma boa seleção, também. Tudo de Atena é sobre estratégia — combinando
a arma certa para a pessoa certa. Vamos ver...”
Piper não sentiu-se muito como ir às compras, por objetos mortais, mas ela sabia
que Annabeth estava tentando fazer algo bondoso para ela.
Annabeth deu para ela uma pesada espada, que Piper dificilmente podia levantar.
“Não,” ambas disseram de uma vez.
Annabeth procurou um pouco mais longe no abrigo e tirou algo mais.
“Uma espingarda?” Piper perguntou.
“Mossberg 500.” Annabeth checou a ação de tiro como se não fosse nada
demais. “Não se preocupe. Não fere humanos. É modificada para atirar bronze Celestial,
então só mata monstros.”
“Hã, eu não acho que seja meu estilo,” Piper disse.
“Hum, sim,” Annabeth concordou. “Muito superficial.”
Ela colocou a espingarda de volta e começou a remexer por uma prateleira de
bestas quando algo no canto do abrigo chamou a atenção de Piper.
“O que é aquilo?” ela disse. “Uma faca?”
Annabeth tirou-a e assoprou a poeira da bainha. Parecia não ter visto a luz do dia
por séculos.
“Não sei Piper.” Annabeth soou inquieta. “Não acho que você queira essa.
Espadas geralmente são melhores.”
“Você usa uma faca.” Piper apontou para a faca presa no cinto de Annabeth.
“Sim, mas...” Annabeth deu de ombros. “Bem, dê uma olhada se quiser.”
A bainha usada era de couro e preta, atada em bronze. Nada extravagante nada
superficial. A alça de madeira polida cabia belamente na mão de Piper. Quando ela
desembainhou, encontrou uma lâmina triangular de quarenta e cinco centímetros —
bronze cintilando como se tivesse sido polida ontem. As pontas eram mortalmente
afiadas.
Seu reflexo na lâmina pegou-a de surpresa. Ela parecia mais velha, mais séria, e
não tão assustada quanto se sentia.
“Ela serve para você,” Annabeth admitiu. “Esse tipo de lâmina é chamado de
parazonium. Era principalmente cerimonial, carregada por oficiais de auto-nível nos
exércitos gregos. Mostrava que você era uma pessoa de poder e rica, mas numa luta,
pode protegê-la bem.”
“Eu gosto,” Piper disse. “Por que você não achou que seria bom?”
Annabeth exalou. “Essa lâmina tem uma longa história. A maioria das pessoas
teria medo de ficar com ela. Sua primeira dona... bem, as coisas não foram muito bem
para ela. Seu nome era Helena.”
Piper engasgou. “Espere, você quer dizer a Helena? Helena de Tróia?
Annabeth assentiu.
Subitamente Piper sentiu que devia estar segurando o punhal com luvas
cirúrgicas.
“E isso está simplesmente acomodado no seu abrigo de ferramentas?”
“Somos rodeados por coisas da Grécia Antiga,” Annabeth disse. “Isso não é um
museu. Armas como essa — elas foram feitas para sempre serem usadas. Elas são nossa
herança como semideuses. Esse foi um presente de casamento de Menelau, primeiro
marido de Helena. Ela nomeou a adaga como Katoptris.”
“Significado?”
“Espelho,” Annabeth disse. “Vidro para olhar. Provavelmente por que foi a
única coisa para que Helena a usou. Não acho que até tenha visto uma batalha.”
Piper olhou para a lâmina novamente. Por um momento, sua própria imagem
olhou para ela, mas então o reflexo mudou. Ela viu chamas, e uma face grotesca como
algo esculpido de um leito de rocha. Ela ouviu a mesma risada como no sonho. Ela viu
seu pai numa prisão, amarrando a um poste de frente para uma fogueira estrondosa.
Ela deixou a lâmina cair.
“Piper?” Annabeth gritou para as crianças do Apolo no campo, “Médico!
Preciso de ajuda aqui!”
“Não, está — está tudo bem,” Piper controlou-se.
“Tem certeza?”
“Sim. Eu só...” Ela tinha que se controlar. Com os dedos trêmulos, ela levantou a
adaga. “Eu só fiquei um pouco tonta. Muitos acontecimentos hoje. Mas... eu quero ficar
com a adaga, se estiver tudo bem.”
Annabeth hesitou. Então, acenou para as crianças de Apolo ficarem onde
estavam. “Ok, se você está certa. Você ficou realmente pálida, aí. Pensei que você
estava tendo uma doença repentina ou algo assim.”
“Estou legal,” Piper prometeu, embora seu coração ainda estivesse acelerado.
“Tem... hã, um celular no acampamento? Eu posso ligar pro meu pai?”
Os olhos cinza de Annabeth estavam quase tão desanimados quanto à lâmina da
adaga. Ela parecia estar calculando um milhão de possibilidades, tentando ler os
pensamentos de Piper.
“Não permitimos celulares,” ela disse. “A maioria dos semideuses, se eles usam
um celular, é como mandar um sinal, deixando os monstros saberem onde você está.
Mas... eu tenho um.” Ela tirou-o rapidamente do bolso. “Um pouco contra as regras,
mas se puder ser nosso segredo...”
Piper o pegou agradecidamente, tentando não deixar suas mãos tremerem. Ela
distanciou-se de Annabeth e virou para encarar o campo central.
Ela ligou para a linha privada do pai, mesmo que soubesse o que iria acontecer.
Caixa postal. Ela esteve tentando por três dias, desde seu sonho. A Wilderness School
só permitia privilégios de celular uma vez por dia, mas ela ligou todas as manhãs, e não
chegou a lugar nenhum.
Com relutância ela discou o outro número. A assistente pessoal do seu pai
respondeu imediatamente. “Escritório do Sr. McLean.”
“Jane,” Piper disse, rangendo os dentes. “Onde está meu pai?”
Jane ficou em silêncio por um momento, provavelmente pensando se ela poderia
escapar se desligasse.
“Piper, achei que você não devia ligar da escola.”
“Talvez eu não esteja na escola,” Piper disse. “Talvez eu tenha fugido para viver
entre criaturas silvestres.”
“Hum.” Jane não soava preocupada. “Bem, eu vou dizer que você ligou.”
“Onde ele está?”
“Saiu.”
“Você não sabe, sabe?” Piper diminuiu a voz, pensando que Annabeth seria
muito experiente para ouvir. “Quando você vai ligar para a polícia, Jane? Ele pode estar
com problemas.”
“Piper, não vamos transformar isso num circo da mídia. Tenho certeza de que
ele está bem. Ele sai ocasionalmente. Mas ele sempre volta.”
“Então, é verdade. Você não sabe —”
“Eu tenho que ir, Piper,” Jane vociferou. “Divirta-se na escola.”
A linha morreu. Piper xingou. Ela voltou para Annabeth e devolveu o celular.
“Sem sorte?” Annabeth perguntou.
Piper não respondeu. Ela não confiava em si mesma no momento, de que não
iria chorar de novo.
Annabeth olhou para a tela do telefone e hesitou. “Seu sobrenome é McLean?
Desculpe, não é meu serviço. Mas parece realmente familiar.”
“Nome comum.”
“Sim, suponho. O que seu pai faz?”
“Ele tem uma posição nas Belas-Artes,” Piper disse automaticamente. “Ele é um
artista de Cherokee.”
Sua resposta-padrão. Não uma mentira, só não era a verdade completa. A
maioria das pessoas, quando ouviam isso, entendia que seu pai vendia souvenires índios
num stand do lado da estrada numa reserva. Acomodando Touros com cabeças que se
mexem, colares de concha, blocos de papel do Big Chief — esse tipo de coisa.
“Ah.” Annabeth não parecia convencida, mas ela guardou o telefone. “Você está
se sentindo bem? Quer continuar?”
Piper fixou sua nova adaga no cinto e prometeu a si mesma que depois, quando
estivesse sozinha, ela entenderia como aquilo funcionava. “Certo,” ela disse. “Eu quero
ver tudo.”
Todos os chalés eram legais, mas nenhuma estampava Piper como o dela. Nenhum sinal
ardente — marsupiais ou qualquer coisa — aparecia sobre sua cabeça.
O Chalé Oito era inteiramente de prata e brilhava como a luz da lua.
“Ártemis?” Piper supôs.
“Você conhece a mitologia grega,” Annabeth disse.
“Eu li um pouco quando meu pai estava trabalhando num projeto ano passado.”
“Pensei que ele fazia arte de Cherokee.”
Piper refreou um palavrão. “Ah, certo. Mas — você sabe, ele faz outras coisas
também.”
Piper pensou que tinha entregado tudo: McLean, mitologia grega.
Agradecidamente, Annabeth não pareceu fazer a conexão.
“De qualquer jeito,” Annabeth continuou, “Ártemis é deusa da lua, deusa da
caça. Mas sem campistas. Ártemis era uma virgem eterna, então não tem filhos.”
“Ah.” Aquele tipo ficou à toa para Piper. Ela sempre gostou das histórias de
Ártemis, e pensou que ela faria uma boa mãe.
“Bem, há as Caçadoras de Ártemis,” Annabeth corrigiu. “Elas nos visitam às
vezes. Elas não são as filhas de Ártemis, mas são suas ajudantes — esse bando de
adolescentes imortais que se aventuram juntas e caçam monstros e coisas assim.”
Piper recobrou-se. “Parece legal. Elas são imortais?”
“A menos que morram em combate, ou quebrem seus juramentos. Mencionei
que elas têm que se afastar dos garotos? Sem encontros — nunca. Pela eternidade.”
“Ah,” Piper disse. “Não importa.”
Annabeth riu. Por um momento ela pareceu quase feliz, e Piper pensou que ela
seria uma boa amiga para ficar nas melhores horas.
Esqueça, Piper lembrou-se. Você não vai fazer amigos aqui. Não quando eles
descobrirem.
Elas passaram o próximo chalé, Número Dez, que estava decorado como uma
casa da Barbie com cortinas com laço, uma porta rosa, e vasos de cravos nas janelas.
Elas andaram na entrada, e o cheiro de perfume quase fez Piper vomitar.
“Gah, é aonde as supermodelos vem para morrer?”
Annabeth sorriu. “Chalé de Afrodite. Deusa do amor. Drew é a conselheira.”
“Percebe-se,” Piper rosnou.
“Elas não são todas más,” Annabeth disse. “A última conselheira que tivemos
era incrível.”
“O que aconteceu com ela?”
A expressão de Annabeth escureceu. “Devíamos continuar andando.”
Elas olharam para as outras cabines, mas Piper só ficou mais deprimida. Ela
queria saber se podia ser a filha de Deméter, a deusa da colheita.
Então novamente, Piper matou todas as plantas que já tocou. Atena era legal. Ou
talvez Hécate, a deusa da magia. Mas isso realmente não importava. Até aqui, onde
todos deviam encontrar um parente perdido, ela sabia que ainda acabaria a criança
indesejável. Ela não estava pensando na fogueira à noite.
“Nós começamos com os doze deuses olimpianos,” Annabeth explicou. “Deuses
do sexo masculino na esquerda, do sexo feminino à direita. Então ano passado,
acrescentamos um novo grupo de chalés para os outros deuses que não tinham tronos no
Olimpo — Hécate, Hades, Íris —”
“Quais são os dois maiores, afinal?” Piper perguntou.
Annabeth franziu a testa. “Zeus e Hera. Rei e rainha dos deuses.”
Piper olhou para aquela direção, e Annabeth seguiu, embora ela não parecesse
muito animada. O chalé de Zeus fazia Piper se lembrar de um banco. Mármore branco
com grandes colunas na frente e portas de bronze polido brasonado com raios.
O chalé de Hera era menor, mas feito no mesmo estilo, exceto que as portas
eram esculpidas com desenhos de penas de pavão, brilhando em diferentes cores.
Diferente dos outros chalés, que eram todos barulhentos, abertos e cheios de
atividade, os chalés de Zeus e Hera pareciam fechados e em silêncio.
“Estão vazios?” Piper perguntou.
Annabeth assentiu. “Zeus ficou um bom tempo sem ter filhos. Bem, na maioria.
Zeus, Poseidon e Hades, os irmãos mais velhos entre os deuses — eles são chamados de
Os Três Grandes. Seus filhos são realmente poderosos, realmente perigosos. Pelos
últimos setenta anos aproximadamente, eles tentaram evitar filhos semideuses.”
“Tentaram evitar?”
“Algumas vezes eles... hã, trapacearam. Eu tenho uma amiga, Thalia Grace, que
é filha de Zeus. Mas ela desistiu da vida de acampamento e se tornou uma Caçadora de
Ártemis. Meu namorado, Percy, ele é um filho de Poseidon. E há um garoto que aparece
às vezes, Nico — filho de Hades. Exceto por eles, não há outros semideuses filhos dos
Três Grandes deuses. Pelo menos, não que saibamos.”
“E Hera?” Piper olhou para as portas decoradas de pavão. O chalé a
incomodava, embora ela não tivesse a certeza do porque.
“Deusa do casamento.” O tom de Annabeth estava cuidadosamente controlado,
como se ela estivesse tentando evitar xingar. “Ela não tem filhos com ninguém a não ser
Zeus. Assim, é sem semideuses. O chalé é só honorário.”
“Você não gosta dela,” Piper notou.
“Temos uma longa história,” Annabeth admitiu. “Eu achei que teríamos paz,
mas quando Percy desapareceu... eu tive essa visão misteriosa no sonho por ela.”
“Dizendo para você ir nos buscar,” Piper disse. “Mas você pensou que Percy
estaria ali.”
“Provavelmente é melhor que eu não fale sobre isso,” Annabeth disse. “Eu não
tenho nada de bom para falar sobre Hera agora.”
Piper olhou a base das portas. “Então quem entra aqui?”
“Ninguém. O chalé é só honorário, como eu disse. Ninguém entra.”
“Alguém entra.” Piper apontou para uma pegada na soleira empoeirada da porta.
Por instinto, ela empurrou as portas e elas abriram facilmente.
Annabeth recuou. “Hã, Piper, não acho que deveríamos —”
“Devíamos fazer coisas perigosas, certo?” E Piper entrou.
O chalé de Hera não era um lugar onde Piper iria querer morar. Era tão frio quanto um
freezer, com um círculo de colunas brancas ao redor de uma estátua central da deusa,
três metros de altura, sentada num trono em um fluido manto dourado. Piper sempre pensou em estátuas gregas como brancas com olhos vazios, mas essa estava
lustrosamente pintada de forma que parecia quase humana — exceto por ser imensa. Os
olhos penetrantes de Hera pareciam seguir Piper.
Nos pés da deusa, uma chama queimava em um braseiro de bronze. Piper queria
saber quem cuidava dali se o chalé estava sempre vazio. Havia um falcão de pedra no
ombro de Hera, e na sua mão tinha um cajado com uma flor de lótus no topo. O cabelo
da deusa estava preso em tranças negras. Seu rosto sorria, mas os olhos eram frios e
sagazes, como se dissessem: Sua mãe conhece melhor. Agora não passe por mim ou
terei que pisar em você.
Não havia mais nada no chalé — sem camas, sem móveis, sem banheiros, sem
janelas, nada que realmente alguém pudesse usar para viver. Para uma deusa da casa e
do casamento, o lugar de Hera fazia Piper se lembrar de uma tumba.
Não, essa não era sua mãe. Pelo menos Piper tinha certeza daquilo. Ela não
entrara aqui por que sentira uma boa conexão, mas porque seu sentido de medo era mais
forte aqui. Seu sonho — aquele horrível ultimato que ela passou — tinha alguma
relação com esse chalé.
Ela congelou. Eles não estavam sozinhos. Atrás da estátua, num pequeno altar
atrás estava uma figura coberta num xale escuro. Somente suas mãos eram visíveis, as
palmas para cima. Ela parecia estar cantando algo como um feitiço ou rezando.
Annabeth ofegou. “Rachel?”
A outra garota virou. Ela baixou o xale, revelando um cabelo ondulado e ruivo e
um rosto sardento que não combinava com a seriedade do chalé ou do xale preto
também. Ela parecia ter uns dezessete anos, uma adolescente totalmente normal numa
blusa verde e jeans esfarrapados cobertos com marcadores sem sentido. Apesar do chão
frio, ela estava descalça.
“Ei!” Ela correu para dar um abraço em Annabeth. “Mil desculpas! Eu vim o
mais rápido que pude.”
Elas conversaram por alguns minutos sobre o namorado de Annabeth e como
não havia notícias, etc., até finalmente Annabeth lembrar-se de Piper, que estava parada
ali sentindo-se desconfortável.
“Estou sendo rude,” Annabeth desculpou-se. “Rachel, essa é Piper, uma dos
meio-sangues que resgatamos hoje. Piper, essa é Rachel Elizabeth Dare, nosso oráculo.”
“A amiga que mora na caverna,” Piper supôs.
Rachel sorriu. “Sou eu.”
“Então você é um oráculo?” Piper perguntou. “Você pode prever o futuro?”
“É mais como se o futuro me assaltasse de tempos em tempos,” Rachel disse.
“Eu falo profecias. O espírito do oráculo tipo que me sequestra todas às vezes e fala
coisas importas que não fazem sentido para ninguém. Mas sim, as profecias contam o
futuro.”
“Ah.” Piper mudou o apoio de um pé ao outro. “É legal.”
Rachel riu. “Não se preocupe. Todos acham isso um pouco arrepiador. Até eu.
Mas geralmente eu sou inofensiva.”
“Você é uma semideusa?”
“Não,” Rachel disse. “Só mortal.”
“Então o que você...” Piper indicou com a mão ao redor da sala.
O sorriso de Rachel esvaiu. Ela olhou para Annabeth, então voltou para Piper.
“Só uma intuição. Algo sobre esse chalé e o desaparecimento de Percy. Eles estão
conectados de algum jeito. Eu aprendi a seguir minhas intuições, especialmente no mês
passado, desde que os deuses se silenciaram.”
“Silenciaram?” Piper perguntou.
Rachel franziu a testa para Annabeth. “Você ainda não contou para ela?”
“Eu estava chegando lá,” Annabeth disse. “Piper, no último mês... Bem, é
normal para os deuses não conversarem muito com os filhos, mas geralmente podemos
contar com algumas mensagens uma hora ou outra. Alguns de nós podem até visitar o
Olimpo. Eu gastei praticamente todo o semestre no Edifício Empire State.”
“Desculpe?”
“A entrada para o Monte Olimpo esses dias.”
“Ah,” Piper disse. “Certo, por que não?”
“Annabeth estava redesenhando o Olimpo depois que foi destruído na Guerra
dos Titãs,” Rachel explicou. “Ela é uma arquiteta incrível. Você devia ver o balcão de
salada —”
“Resumindo,” Annabeth disse, “começando há um mês, o Olimpo caiu em
silêncio. A entrada foi fechada, e ninguém pôde entrar. Ninguém sabe o porquê. É como
se os deuses se prendessem. Até minha mãe não respondeu minhas preces, e nosso
diretor do acampamento, Dioniso, foi chamado de volta.”
“O diretor do acampamento de vocês era o deus do... vinho?”
“Sim, é uma —”
“Longa história,” Piper supôs. “Certo. Continue.”
“É isso, realmente,” Annabeth disse. “Semideuses ainda são reclamados, porém
nada mais. Sem mensagens. Sem visitas. Nenhum sinal que os deuses até possam estar
ouvindo. É como se algo tivesse acontecido — algo realmente ruim. Então Percy
desapareceu.”
“E Jason apareceu na nossa excursão de campo,” Piper completou. “Sem
memória.”
“Meu —” Piper parou antes que pudesse dizer “namorado,” mas o efeito fez seu
peito doer. “Meu amigo. Mas Annabeth, você disse que Hera lhe mandou uma visão de
sonho.”
“Certo,” Annabeth disse. “A primeira comunicação de um deus num mês, e é
Hera, a deusa menos útil, e ela me contata, sua semideusa menos favorita. Ela me diz
que vou descobrir o que aconteceu com Percy se eu for para o Grand Canyon pelos céus
e procurar um garoto com um sapato. Ao invés disso, eu encontro vocês, e o garoto com
um sapato é Jason. Não faz sentido.”
“Algo ruim está acontecendo,” Rachel concordou. Ela olhou para Piper, e Piper
sentiu um desejo esmagador de contar a elas sobre seu sonho, confessar que ela sabia o
que estava acontecendo — pelo menos, parte da história. E as coisas ruins estavam só
começando.
“Gente,” ela disse. “Eu — eu preciso —”
Antes que ela pudesse continuar, o corpo de Rachel endureceu. Seus olhos
começaram a brilhar com uma luz esverdeada, e ela agarrou Piper pelos ombros.
Piper tentou recuar, mas as mãos eram como fios de aço.
Me liberte, ela disse. Mas não era a voz de Rachel. Soava como uma mulher
mais velha, falando de algum lugar muito longe, muito abaixo, ecoando num tubo.
Me liberte, Piper McLean, ou a terra irá nos engolir. Deve ser no solstício.
A sala começou a girar, Annabeth tentou separar Piper de Rachel, mas não
adiantou. Fumaça verde a envolveu, e Piper não estava mais certa se ela estava acordada
ou sonhando. A estátua gigante da deusa parecia levantar do trono. Inclinou-se para
Piper, seus olhos perfurando dentro dela. A boca da estátua abriu, sua respiração com
um perfume horrivelmente denso. Ela falou na mesma voz ecoada: Nossos inimigos se
agitam. O ardente é só o primeiro. Curve-se ao seu desejo, e o rei deles irá se erguer,
condenando todos nós. ME LIBERTE!
Os joelhos de Piper dobraram, e tudo ficou escuro.
Nenhum comentário:
Postar um comentário