X
Piper
TODA A IDEIA DA FOGUEIRA ALUCINAVA PIPER. A fazia lembrar aquela grande
fogueira nos sonhos, e seu pai amarrado num poste.
O que ela conseguiu era quase tão apavorante quanto: um grupo de canto. As
escadas do anfiteatro eram gravadas no lado de uma colina, encarando um poço de fogo
alinhado com pedras. Cinquenta ou sessenta crianças enchiam as fileiras, agrupadas sob
vários banners.
Piper localizou Jason na frente, do lado de Annabeth. Leo estava por perto,
sentando com um grupo de campistas fortes sob um banner cinza de aço brasonado com
um martelo. Em pé à frente do fogo, meia-dúzia de campistas com guitarras e harpas
antiquadas e estranhas — liras? — estavam pulando, liderando uma música sobre
pedaços de armaduras, algo sobre como as suas avós vestiam-se para a guerra. Todos
estavam cantando com eles e fazendo gestos para os pedaços de armadura e brincando.
Foi possivelmente a coisa mais estranha que Piper já viu — uma daquelas músicas de
fogueira que seriam completamente embaraçosas na luz do dia; mas no escuro, com
todos participando, era meio que brega e divertido. Conforme o nível de energia crescia,
as chamas também cresciam, virando de vermelho para laranja e para ouro.
Finalmente a música acabou com vários aplausos desordeiros. Um sujeito num
cavalo trotou. Pelo menos na luz bruxuleante, Piper pensou que era um sujeito num
cavalo. Então ela percebeu que era um centauro — na metade de baixo era um garanhão
branco, na sua metade de cima um sujeito de meia-idade com cabelo cacheado e uma
barba cortada. Ele brandiu uma lança espetada com marshmallows tostados. “Muito
bem! E um bem-vindo especial para nossas novas visitas. Eu sou Quíron, diretor do
acampamento e das atividades, e estou feliz que todos vocês chegaram aqui vivos e com
a maioria dos seus membros fixados. Num momento, prometo que vamos aos
marshmallows, mas primeiro —”
“E a captura à bandeira?” alguém gritou.
Rosnados romperam entre algumas crianças com armadura, dentando sob um
banner vermelho com o emblema duma cabeça de javali.
“Sim,” o centauro disse. “Eu sei que o chalé de Ares estava ansioso para retornar
à floresta para as nossas atividades regulares.”
“E matar pessoas!” um deles gritou.
“Porém,” Quíron disse, “até o dragão ser posto sob controle, isso não será
possível. Chalé Nove, algo para informar a respeito disso?”
Ele virou para o grupo do Leo. Leo piscou para Piper e atirou nela com uma
arma imaginária. A garota perto dele levantou-se inconfortavelmente. Ela vestia um
casaco do exército como o de Leo, com seu cabelo coberto com uma bandana vermelha.
“Estamos trabalhando nisso.”
Mais rosnados.
“Como, Nyssa?” uma criança de Ares exigiu.
“Realmente difícil,” a garota disse.
Ela sentou a vários gritos e reclamações, que fizeram o fogo crepitar
caoticamente. Quíron bateu o casco contra as pedras do poço de fogo — bang, bang,
bang — e os campistas silenciaram.
“Teremos que ser pacientes,” Quíron disse. “Entretanto, temos questões mais
urgentes a discutir.”
“Percy?” alguém perguntou. O fogo escurecia a cada vez, mas Piper não
precisava do ânimo das chamas para sentir a ansiedade da multidão.
Quíron gesticulou para Annabeth. Ela tomou um fôlego profundo e levantou.
“Eu não encontrei Percy,” ela anunciou. Sua voz falhou um pouco quando ela
disse seu nome. “Ele não estava no Grand Canyon como pensei. Mas não estamos
desistindo. Temos equipes em todos os lugares. Grover, Tyson, Nico, as Caçadoras de
Ártemis — todos estão procurando. Nós vamos encontrá-lo. Quíron está falando sobre
algo diferente. Uma nova missão.”
“É a Grande Profecia, não é?” uma garota gritou.
Todos viraram. A voz viera de um grupo atrás, sentando sob um banner cor-derosa
com uma pomba. Eles estiveram conversando entre eles e não dando muita atenção
até a líder deles se levantar: Drew.
Todos olharam surpresas. Aparentemente Drew não discutia muito com a
multidão.
“Drew?” Annabeth disse. “O que você quer dizer?”
“Bem, vamos lá.” Drew abriu as mãos como se a verdade estivesse óbvia. “O
Olimpo está fechado. Percy está desaparecido. Hera lhe manda uma visão e você volta
com três novos semideuses num dia. Digo, algo estranho está acontecendo. A Grande
Profecia começou, certo?”
Piper sussurrou para Rachel, “Sobre o que ela está falando — a Grande
Profecia?”
Então ela percebeu que todos estavam olhando para Rachel, também.
“Então?” Drew invocou. “Você é o oráculo. Começou ou não?”
Os olhos de Rachel pareciam assustados na luz da fogueira. Piper tinha medo
que ela pudesse apertar e começar a canalizar uma estranha deusa-pavão novamente,
mas ela deu um passo à frente calmamente e disse ao acampamento:
“Sim,” ela disse. “A Grande Profecia começou.”
O pandemônio rompeu.
Piper pegou o olho do Jason. Ele gesticulou com os lábios, Você está bem? Ela
assentiu e administrou um sorriso, mas então desviou o olhar. Era muito doloroso vê-lo
e não estar com ele.
Quando a conversa finalmente baixou, Rachel deu outro passo para a plateia, e
mais de cinquenta semideuses recuaram dela, como se uma mortal ruiva e magra fosse
mais ameaçadora que todos eles colocados juntos.
“Para esses de vocês que não ouviram,” Rachel disse, “a Grande Profecia foi
minha primeira profecia. Chegou em Agosto. É assim:
“Sete meio-sangues atenderão ao chamado. Em tempesdade ou fogo, o mundo
terá acabado —”
Jason atirou a seus pés. Seus olhos pareciam selvagens, como se tivesse acabado de ser
acertado por uma arma de eletrochoque.
Até Rachel pareceu pega de surpresa. “J-Jason?” ela disse. “O que está —”
“Ut cum spiritu postrema sacramentum dejuremus,” ele cantou. “Et hostes
ornamenta addent ad ianuam necem.”
Um silêncio inquietante estabeleceu-se no grupo. Piper pôde ver pelos seus
rostos que vários deles estavam tentando traduzir as linhas. Ela podia dizer que era latim, mas não tinha certeza porque seu esperançosamente futuro namorado estava
subitamente cantando como um sacerdote católico.
“Você acabou de... finalizar a profecia,” Rachel gaguejou. “— Um juramento a
manter com um alento final / E inimigos com armas ás Portas da Morte afinal. Como
você —”
“Eu conheço essas linhas.” Jason tremeu e colocou as mãos nas têmporas. “Não
sei como, mas eu conheço essa profecia.”
“Em latim, nada menos,” Drew gritou. “Bonito e esperto.”
Houve alguns risos do chalé de Afrodite. Deus, que bando de perdedores, Piper
pensou. Mas não fazia muito para quebrar a tensão. A fogueira estava queimando uma
tonalidade caótica e nervosa de verde.
Jason sentou, parecendo embaraçado, mas Annabeth colocou uma mão no seu
ombro e murmurou algo tranquilizador. Piper sentiu uma pontada de ciúmes. Devia ser
ela ao lado dele, reconfortando-o.
Rachel Dare ainda parecia um pouco mexida. Ela olhou para Quíron pedindo por
orientação, mas o centauro continuou sorridente e em silêncio, como se estivesse
assistindo uma peça que não poderia interromper — uma tragédia que acabaria com
muitas pessoas mortas no palco.
“Bem,” Rachel disse, tentando recuperar sua compostura. “Então, é, essa é a
Grande Profecia. Esperávamos que não pudesse acontecer por anos, mas temo que
esteja começando agora. Não posso provar. Só uma sensação. E como Drew disse,
alguma coisa estranha está acontecendo. Os sete semideuses, quem quer que sejam,
ainda não foram reunidos. Tenho a sensação que alguns estão aqui essa noite. Alguns
não.”
Os campistas começaram a agitarem e murmurarem, olhando um para o outro
nervosamente, até uma voz sonolenta na multidão gritou, “Estou aqui! Ah... vocês
estavam fazendo chamada?”
“Volte a dormir, Clovis,” alguém gritou, e várias pessoas riram.
“Entretanto,” Rachel continuou, “não sabemos o que a Grande Profecia
significa. Não sabemos que desafio os semideuses irão enfrentar, mas como a primeira
Grande Profecia profetizou a Guerra dos Titãs, podemos supor que a segunda Grande
Profecia irá profetizar algo pelo menos nesse nível de maldade.”
“Ou pior,” Quíron murmurou.
Talvez ele não quisesse que todos ouvissem, mas ouviram.
A fogueira imediatamente virou roxo escuro, a mesma cor como no sonho de
Piper.
“O que nós sabemos,” Rachel disse, “é que a primeira fase começou. Um
problema maior surgiu, e precisamos de uma missão para resolver isso. Hera, a rainha
dos deuses, foi raptada.”
Silêncio chocado. Então cinquenta semideuses começaram a conversar de vez.
Quíron bateu seu casco novamente, mas Rachel ainda tinha que esperar antes
que pudesse recuperar a atenção deles.
Ela contou-os sobre o acidente no céu do Grand Canyon — como Gleeson
Hedge sacrificou-se quando os espíritos de tempestade atacaram, e os espíritos
alertaram que era só o começo. Eles aparentemente serviam alguma grande mestra que
destruiria todos os semideuses.
Então Rachel contou para eles sobre o desmaio de Piper no chalé de hera. Piper
tentou manter uma expressão calma, mesmo quando ela notou Drew na fileira de trás,
pantominando um desmaio, e suas amigas rindo. Finalmente Rachel lhes contou sobre a
visão de Jason na sala de estar da Casa Grande. A mensagem que Hera entregou era tão
similar que Piper teve um calafrio. A única diferença: Hera alertara para Piper não traíla:
Curve-se ao seu desejo, e o rei deles irá se erguer condenando todos nós. Hera sabia
sobre a ameaça do gigante. Mas se aquilo era verdade, por que ela não alertou Jason, e
expôs Piper como uma agente inimiga?
“Jason,” Rachel disse. “Hã... você lembra seu último nome?”
Ele parecia autoconsciente, mas sacudiu a cabeça.
“Vamos só lhe chamar de Jason, então,” Rachel disse. “Está claro que a própria
Hera lhe expediu uma missão.”
Rachel pausou, como se desse a Jason uma chance de protestar seu destino. Os
olhos de todos estavam nele; havia tanta pressão, Piper pensou que teria se curvado na
sua posição. Contudo ele parecia corajoso e determinado. Ele endureceu a mandíbula e
assentiu. “Eu concordo.”
“Você deve salvar Hera para prevenir um grande mal,” Rachel continuou.
“Algum tipo de rei a erguer-se. Por motivos que ainda não entendemos, deve acontecer
no solstício de inverno, somente quatro dias a partir de agora.”
“Esse é o dia do conselho dos deuses,” Annabeth disse. “Se os deuses não já
souberam que Hera sumiu, eles definitivamente irão reconhecer sua a ausência pelo
então. Eles provavelmente romperão brigando, acusando um ao outro de pegá-la. É o
que eles geralmente fazem.”
“O solstício de inverno,” Quíron falou, “também é a hora de maior escuridão. Os
deuses se reúnem nesse dia, como mortais sempre fazem, pois há força nos números. O
solstício é um dia quando a magia do mal é forte. Magia antiga, mais velha que os
deuses. É um dia quando as coisas... se agitam.”
O jeito que ele disse isso, agitação soou absolutamente sinistra — como se
devesse ser um delito de primeiro grau, não algo que você fez para massa de biscoito.
“Ok,” Annabeth falou, olhando para o centauro. “Obrigada, Capitão Sunshine.
Que quer que esteja acontecendo, eu concordou com Rachel. Jason foi escolhido para
liderar essa missão, então —”
“Por que ele não foi reclamado?” alguém gritou do chalé de Ares. “Se ele é tão
importante —”
“Ele foi reclamado,” Quíron anunciou. “Tempos atrás. Jason, nos dê uma
demonstração.”
A princípio, Jason não pareceu entender. Ele deu um passo para frente
nervosamente, mas Piper não pôde deixar de pensar como ele parecia incrível com seus
cabelos loiros brilhando na luz do fogo, suas feições reais como a de uma estátua
romana. Ele olhou para Piper, e ela assentiu encorajadoramente. Ela fez uma mímica de
arremessar uma moeda.
Jason colocou uma mão no bolso. Sua moeda cintilou no ar, e quando ele a
pegou em sua mão, ele estava segurando uma lança — uma haste de ouro de
aproximadamente dois metros, com uma ponta de dardo numa extremidade. Os outros
semideuses ofegaram. Rachel e Annabeth deram um passo para trás para evitar a ponta,
que parecia afiada como um furador de gelo.
“Isso não era...” Annabeth hesitou. “Pensei que você tivesse uma espada.”
“Hã, sobe as extremidades, eu acho,” Jason disse. “Mesma moeda, forma de
arma de longo alcance.”
“Rapaz, eu quero uma!” gritou alguém do chalé de Ares.
“Melhor que a lança elétrica da Clarisse, cara!” um dos seus irmãos concordou.
“Elétrica,” Jason murmurou como se fosse uma boa ideia. “Recuem.”
Annabeth e Rachel entenderam a mensagem. Jason levantou sua lança, e um
trovão rompeu no céu. Todos os cabelos no braço de Piper se eriçaram. Um raio
arqueou para baixo através do ponto da lança dourada e acertou a fogueira com a força
de um projétil de artilharia.
Quando a fumaça dissipou, e o zumbido nos ouvidos de Piper diminuiu, o
acampamento inteiro estava congelado em choque, meio cego, coberto de cinzas,
olhando para o lugar onde a fogueia estava. Choveu cinzas de todo o lugar. Um pedaço
de lenha queimando empalou-se alguns metros da criança dorminhoca Clovis, que não
tinha nem se mexido.
Jason baixou sua lança. “Hã... desculpe.”
Quíron limpou algumas brasas queimando na sua barba. Ele fez uma careta
como se seus piores medos fossem confirmados. “Um pouco destruidor, talvez, mas
você conseguiu o que queria. E acredito que sabemos que seu pai é.”
“Júpiter,” Jason disse. “Quero dizer Zeus. Lorde do Céu.”
Piper não pôde deixar de sorrir. Fazia perfeito sentido. O deus mais poderoso, o
pai de todos os maiores heróis nos mitos antigos — ninguém mais poderia ser
possivelmente o pai de Jason.
Aparentemente, o resto do acampamento não tinha tanta certeza. Tudo quebrou
em caos, com dúzias de pessoas perguntando coisas até Annabeth levantar os braços.
“Esperem!” ela disse. “Como ele pode ser filho de Zeus? Os Três Grandes... o
pacto deles de não ter filhos mortais... como não pudemos saber sobre ele antes?”
Quíron não respondeu, mas Piper teve a sensação de que ele sabia. E a verdade
não era boa.
“A coisa importante,” Rachel disse, “é que Jason está aqui agora. Ele tem uma
missão para cumprir, o que significa que ele precisará da sua própria profecia.”
Ela fechou os olhos e desmaiou. Dois campistas correram para a frente e a
pegaram. Um terceiro correu para o lado do anfiteatro e pegou um banco dourado de
três pernas, como se tivessem sido treinados para essa função. Eles soltaram Rachel no
banco em frente à fogueira arruinada. Sem o fogo, a noite era escura, mas névoa verde
começou a redemoinhar ao redor dos pés de Rachel. Quando ela abriu os olhos, eles
estavam brilhando. Fumaça esmeralda surgiu de sua boca. A voz que saiu era metálica e
antiga — o som que uma cobra faria se pudesse falar:
“Criança do raio, cuidado com a terra, A vingança dos gigantes os sete irão
nascer, A forja e a pomba quebrarão a prisão, E a morte desatrelada pela ira de
Hera.”
Na última palavra, Rachel caiu, mas seus ajudantes estavam esperando para pegá-la.
Eles a arrebataram da fogueira e a deitaram no canto para descansar.
“Isso é normal?” Piper perguntou. Então ela percebeu que havia falado no
silêncio, e todos estavam olhando para ela. “Digo... ela vomita fumaça verde
constantemente?”
“Deuses, como você é estúpida!” Drew zombou. “Ela acabou de emitir uma
profecia — a profecia do Jason para salvar Hera! Por que você simplesmente não —”
“Drew,” Annabeth vociferou. “Piper fez uma pergunta clara. Algo sobre essa
profecia definitivamente não é normal. Se quebrar a prisão de Hera libera sua ira e causa
várias mortes... por que a libertaríamos? Pode ser uma armadilha, ou — ou talvez Hera
vá se virar contra seus salvadores. Ela nunca foi gentil com heróis.”
Jason levantou. “Não tenho muita escolha. Hera pegou minha memória. Preciso
dela de volta. Além disso, não podemos simplesmente não ajudar a rainha dos céus se
ela está em perigo.”
Uma garota do chalé de Hefesto se levantou — Nyssa, a de bandana vermelha.
“Talvez. Mas você devia ouvir a Annabeth. Hera pode ser vingativa. Ela jogou seu
próprio filho — nosso pai — de um Monte só porque ele era feio.”
“Realmente feio,” riu alguém de Afrodite.
“Cale a boca!” Nyssa rosnou. “Em todo o caso, também temos que pensar — por
que tomar cuidado com a terra? E o que é a vingança dos gigantes? Com o que estamos
tratando aqui que é poderoso o bastante para sequestrar a rainha dos céus?”
Ninguém respondeu, mas Piper notou Annabeth e Quíron tendo uma troca
silenciosa. Piper pensou que era algo como:
Annabeth: A vingança dos gigantes... não, não pode ser.
Quíron: Não fale disso aqui. Não os assuste.
Annabeth: Você está brincando comigo! Não podemos ser tão azarados.
Quíron: Depois, criança. Se você os contasse tudo, eles estariam muito
aterrorizados para continuar.
Piper sabia que era loucura pensar que ela podia ler suas expressões tão bem —
duas pessoas que ela mal conhecia. Mas ela estava absolutamente positiva que ela os
entendeu, e isso assustou suas jujubas para fora.
Annabeth respirou fundo. “É a missão de Jason,” ela anunciou, “então é a
escolha de Jason. Obviamente, ele é a criança do raio. Segundo a tradição, ele pode
escolher dois companheiros quaisquer.”
Alguém do chalé do Hermes gritou, “Bem, você obviamente, Annabeth. Você
tem mais experiência.”
“Não, Travis,” Annabeth disse. “Primeiro, eu não estou ajudando Hera. Todas as
vezes que tentei, ela me enganou, ou voltou para trapacear depois. Esqueça. Sem
chance. Em segundo lugar, a primeira coisa que vou fazer na manhã é partir para
encontrar Percy.”
“Está conectado,” Piper deixou escapar, sem saber como ela teve coragem.
“Você sabe que é verdade, não é? Esse negócio completo, o desaparecimento do seu
namorado — tudo está conectado.”
“Como?” perguntou Drew. “Se você é tão esperta, como?”
Piper tentou formar uma resposta, mas não conseguiu.
Annabeth a salvou. “Você pode estar certa, Piper. Se isso está conectado, vou
descobrir do outro lado — procurando por Percy. Como disse, não estou prestes a
apressar-me a resgatar Hera, mesmo se seu desaparecimento põe o resto dos olimpianos
lutando novamente. Mas há outro motivo que eu não possa ir. A profecia diz diferente.”
“Diz quem eu escolho,” Jason concordou. “A forja e a pomba quebrarão a
prisão. A forja é o símbolo de Vul — Hefesto.”
Sob o banner do Chalé Nove, os ombros da Nyssa caíram, como se lhe foi dada
uma bigorna pesada para carregar. “Você tem que tomar cuidado com a terra,” ela disse,
“você devia evitar viajar por terra. Você precisará de transporte aéreo.”
Piper estava prestes a gritar que Jason podia voar. Mas então ela pensou melhor
a respeito. Aquilo era para Jason contá-los, e ele não estava voluntariando a informação.
Talvez ele calculasse que já tivera alucinado-os o bastante para uma noite.
“A biga voadora está quebrada,” Nyssa continuou, “e os pégasos, estamos
usando para procurar pelo Percy. Mas talvez o chalé do Hefesto possa ajudar
descobrindo algo mais para ajudar. Com Jake incapacitado, sou a campista sênior. Posso
voluntariar-me para a missão.”
Ela não soava entusiasmada.
Então Leo levantou-se. Ele estivera muito quieto, Piper quase esqueceu que ele
estava ali, o que é totalmente fora do estilo de Leo.
“Sou eu,” ele disse.
Seus companheiros se agitaram. Vários tentaram empurrá-lo de volta ao assento,
mas Leo resistiu.
“Não, sou eu. Eu sei que é. Eu tenho uma ideia para o problema do transporte.
Deixem-me tentar. Eu posso resolver isso!”
Jason estudou-o por um momento. Piper tinha que certeza que ele ia dizer não
para Leo. Aí ele sorriu. “Começamos isso juntos, Leo. Só parece certo que você venha
também. Se você nos encontrar uma carona, você está dentro.”
“Yes!” Leo bateu o punho.
“Será perigoso,” Nyssa o alertou. “Miséria, monstros, sofrimento terrível.
Possivelmente ninguém de vocês voltará vivo.”
“Ah.” Subitamente Leo não pareceu tão animado. Então ele lembrou que todos
estavam observando. “Digo... Ah, legal! Sofrimento? Amo sofrimento! Vamos fazer
isso.”
Annabeth assentiu. “Então, Jason, você só precisa escolher o terceiro membro da
missão. A pomba —”
“Ah, absolutamente!” Drew estava de pé e brilhando um sorriso a Jason. “A
pomba é Afrodite. Todos sabem disso. Eu sou totalmente sua.”
As mãos de Piper cerraram-se. Ela deu um passo à frente. “Não.”
Drew virou os olhos. “Ah, por favor, garota lixo. Desista.”
“Eu tive a visão de Hera; não você. Eu tenho que fazer isso.”
“Qualquer um pode ter uma visão,” Drew disse. “Você só estava no lugar certo
na hora certa.” Ela virou para Jason. “Olhe, lutar é tudo bem, suponho. E pessoas que
constroem coisas...” Ela olhou para Leo em desdém. “Bem, suponho que alguém tenha
que sujar as mãos. Mas você precisa de charme do seu lado. Eu posso ser muito
persuasiva. Eu poderia ajudar muito.”
Os campistas começaram a murmurou sobre como Drew era bastante
persuasiva. Piper podia ver Drew conquistando-os. Até Quíron estava coçando a barba,
como se a participação de Drew subitamente fizesse sentido para ele.
“Bem...” Annabeth falou. “Dadas as palavras da profecia —”
“Não!” A própria voz de Piper soou estranha aos seus ouvidos — mais insistente
e rica em tom. “Eu tenho que ir.”
Então a coisa mais estranha aconteceu. Todos começaram a assentir,
murmurando que hum, o ponto de vista da Piper fazia sentido também. Drew olhou em
volta, incrédula. Até algumas das suas próprias campistas estavam assentindo.
“Sai dessa!” Drew vociferou para a multidão. “O que Piper pode fazer?”
Piper tentou responder, mas sua confiança começou a se esvair. O que ela podia
oferecer? Ela não era uma lutadora, ou planejadora, ou uma montadora. Ela não tinha
experiência exceto entrar em encrenca e ocasionalmente convencer pessoas a fazer
coisas estúpidas.
E mais, ela era uma mentirosa. Ela precisava ir nessa missão por motivos que
iam além de Jason — e se ela fosse ela acabaria traindo todos ali. Ela ouviu aquela voz
no sonho: Execute nossa ordem, e você pode partir viva. Como ela podia fazer uma
escolha assim — entre ajudar seu pai e ajudar Jason?
“Bem,” Drew disse presunçosamente, “suponho que isso resolve.”
Subitamente ouve uma arfada coletiva. Todos olharam para Piper como se ela
fosse explodir. Ela queria saber o que fez de errado. Então ela percebeu que havia um
brilho avermelhado ao redor dela.
“O quê?” ela perguntou.
Ela olhou sobre si, mas não havia nenhum sinal queimando como o que apareceu
sobre Leo. Então ela olhou para baixo e ganiu.
Suas roupas... o que no mundo ela estava vestindo? Ela desprezava vestidos. Ela
não tinha um vestido. Mas agora ela estava adornada num bonito vestido branco sem
mangas que descia aos tornozelos, com um decote em forma de V tão baixo que era
totalmente embaraçoso. Delicadas braçadeiras douradas revolviam seu bíceps. Um colar
complexo de âmbar, coral, e flores douradas resplandecendo no seu peito, e seu cabelo...
“Ah, Deus,” ela disse. “O que aconteceu?”
Uma Annabeth aturdida apontou para a adaga de Piper, que estava agora suja de
óleo e brilhando, pendurada no seu lado por laços dourados. Piper não queria puxá-la.
Ela tinha medo do que veria. Mas sua curiosidade venceu. Ela desembainhou Katoptris
e olhou para seu reflexo na lâmina de metal polida. Seu cabelo estava perfeito:
luxuriante, longo e castanho-chocolate, trançado com fitas douradas num lado de forma
que caia no seu ombro. Ela até usava maquiagem, melhor do que Piper jamais iria saber
se produzir — toques sutis que faziam seus lábios vermelho-cereja e exibia todas as
cores diferentes no seus olhos.
Ela estava... ela estava...
“Linda,” Jason exclamou. “Piper, você... você está uma maravilha.”
Sob diferentes circunstâncias, aquilo teria sido o momento mais feliz da sua
vida. Mas agora todos estavam olhando para ela como se fosse um fenômeno. O rosto
de Drew estava completo de horror e revulsão. “Não!” ela gritou. “Não é possível!”
“Não sou eu,” Piper protestou. “Eu — não entendo.”
O centauro Quíron dobrou as pernas frontais e inclinou-se para ela, e todos os
campistas seguiram seu exemplo.
“Saudações, Piper McLean,” Quíron anunciou gravemente, como se ele
estivesse falando no seu funeral. “Filha de Afrodite, senhora das pombas, deusa do
amor.”
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Capítulo Nove - O Herói Perdido
IX
Piper
PIPER SONHOU SOBRE SEU ÚLTIMO DIA com o pai.
Eles estavam na praia perto de Big Sur, descansando do surfe. A manhã foi tão
perfeita que Piper sabia que algo tinha que dar errado logo — uma multidão furiosa de
paparazzi, ou talvez um grande tubarão branco atacasse. De jeito nenhum sua sorte
poderia continuar.
Mas até agora, eles tinham excelentes ondas, um céu nublado, e dois quilômetros
de mar completamente para eles. Seu pai encontrou esse lugar fora da trilha, alugou
uma casa de campo com vista para o mar e as propriedades em cada lado, e de algum
jeito conseguiu manter isso em segredo. Se ele ficasse ali muito tempo, Piper sabia que
os fotógrafos o encontrariam. Eles sempre encontravam.
“Belo trabalho aqui, Pipes.” Ele lhe deu o sorriso pelo qual ele era famoso:
dentes perfeitos, queixo com covinhas, uma piscadela nos seus olhos escuros que
sempre brotavam um grito nas mulheres e as faziam pedir-lhe para assinar seus corpos
com tinta permanente. (É sério, Piper pensou, tenha uma vida.) Seu cabelo negro
cortado a escovinha brilhava com água salgada. “Você está ficando melhor no Hang
Ten.”
Piper corou em orgulho, embora ela suspeitasse que o pai só estivesse sendo
simpático. Ela ainda gastava a maioria do tempo caindo. Parecia um talento especial
atropelar a si mesma com uma prancha de surfe. Seu pai era um surfista natural — o
que não fazia nenhum sentido desde que ele ressuscitou uma pobre criança em
Oklahoma, centenas de quilômetros do oceano — mas ele era incrível nas ondulações.
Piper teria desistido de surfar a muito tempo atrás exceto que isso a deixava ficar com
ele. Não havia muitos jeitos para conseguir aquilo.
“Sanduíche?” O pai cavou na cesta de piquenique que seu chef, Arno, fizera.
“Vamos ver: peito de peru, bolo de caranguejo wasabi — ei, um especial da Piper.
Manteiga de amendoim e geleia.”
Ela pegou o sanduíche, embora seu estômago estivesse muito agitado para
comer. Ela sempre pedia PJ&B. Piper era vegetariana, por uma coisa. Ela era desde que
haviam passado dirigindo por aquele matadouro em Chino e o cheiro fez as suas entranhas quererem ir para fora. Mas era mais que isso. PB&J era comida simples,
como uma criança normal teria para almoço. Às vezes ela fingiu que era seu pai que
fazia isso para ela, não um personal chef da França que gostava de enrolar o sanduíche
numa folha de ouro com um diamante brilhante ao invés de um palito de dente.
Alguma coisa não podia ser simples? É por isso que ela recusava as roupas
elaboradas que seu pai sempre oferecia, o estilista de sapatos, as visitas ao salão. Ela
cortava seu próprio cabelo com um par de tesouras de plásticos seguras do Garfield,
deliberadamente o tornando desigual. Ela preferia usar tênis velhos, jeans, uma
camiseta, e sua antiga jaqueta da vez que foram esquiar na neve.
E ela odiava as escolas particulares esnobes que papai pensava que eram boas
para ela. Ela continuava sendo expulsa. Ele continuou a encontrar mais escolas.
Ontem, ela tinha realizado seu maior guincho mais uma vez — dirigindo aquela
BMW “emprestada” para fora da concessionária. Ela tinha que realizar uma proeza
maior toda vez, porque estava ainda mais difícil conseguir a atenção do pai.
Agora ela lamentava. O pai ainda não sabia.
Ela queria contá-lo essa manhã. Ele a havia surpreendido com essa viagem, e ela
não poderia arruinar isso. Era a primeira vez que eles teriam um dia juntos em o que —
três meses?
“Qual o problema?” Ele lhe passou um refrigerante.
“Pai, tem uma coisa —”
“Espere, Pipes. Isso é uma face séria. Pronta para Três Perguntas Quaisquer?”
Eles estiveram jogando aquele jogo por anos — o modo do seu pai de ficar
conectado no menor tempo possível. Eles podiam perguntar um para o outro três
perguntas quaisquer. Nada fora dos limites, e você tinha que responder honestamente. O
resto do tempo, o pai prometia ficar fora da vida dela — o que era fácil, desde que ele
nunca estava por perto.
Piper sabia que a maioria das crianças acharia um Perguntas e Respostas assim
com os pais totalmente mortificante. Mas ela avançou a isso. Era como surfar — não
fácil, mas um jeito de sentir como se realmente tivesse um pai.
“Primeira pergunta,” ela disse. “Mamãe.”
Sem surpresa. Era sempre um dos seus tópicos.
Seu pai deu de ombros com resignação. “O que você quer saber, Piper? Eu já lhe
disse — ela desapareceu. Não sei por que, ou para onde ela foi. Depois que você nasceu,
ela simplesmente partiu. Eu nunca mais ouvi falar dela.”
“Você acha que ela ainda está viva?”
Não era uma pergunta real. Seu pai permitia-se dizer que não sabia. Mas ela
queria ouvir como ele responderia.
Ele olhou para as ondas.
“Seu avô Tom,” ele disse finalmente, “ele costumava me dizer que se você andar
longe o bastante para o pôr-do-sol, você viria para o País Fantasma, onde você poderia
conversar com a morte. Ele disse há muito tempo atrás, você poderia trazer a morte de
volta; mas então a humanidade bagunçaria. Bem, é uma longa história.”
“Como a Terra dos Mortos para os gregos,” Piper lembrou. “Era no oeste,
também. E Orfeu — ele tentou trazer sua esposa de volta.”
Seu pai assentiu. Um ano antes, ele tivera esse papel maior como um rei da
Grécia Antiga. Piper havia lhe ajudado a pesquisar os mitos — todas aquelas histórias
antigas sobre pessoas virando pedra e afundando em lagos de lava. Eles tiveram um
tempo divertido lendo juntos, e isso fez a vida de Piper não parecer tão má. Por um
instante ela se sentiu mais próxima do pai, mas como tudo, isso não continuou.
“Várias semelhanças entre os gregos e os Cherokee,” o pai concordou. “Eu
penso o que seu avô pensaria se nos visse agora, sentando no fim da terra ocidental. Ele
provavelmente pensaria que somos fantasmas.”
“Então você está dizendo que acredita nessas histórias? Você acha que a mamãe
está morta?”
Seus olhos molharam, e Piper viu a tristeza atrás dele. Ela entendeu o porquê de
mulheres serem tão atraentes para ele. Na superfície, ele parecia confiante e forte, mas
seus olhos seguravam muita tristeza. Mulheres queriam descobrir por quê. Elas queriam
confortá-lo, e elas nunca podiam. O pai contava a Piper que era coisa de Cherokee —
todos eles tinham aquela escuridão dentro deles de gerações de dor e sofrimento. Mas
Piper pensou que era mais que isso.
“Eu não acredito nas histórias,” ele disse. “Elas são divertidas de contar, mas se
eu realmente acreditasse em País Fantasma, ou espíritos animais, ou deuses gregos... eu
não acho que poderia dormir à noite. Eu sempre estaria procurando por alguém para
acusar.”
Alguém para acusar pela morte do vovô Tom de câncer de pulmão, Piper
pensou, antes que seu pai ficasse famoso e tivesse dinheiro para ajudar. Para mamãe — a única mulher que ele já amou — abandoná-lo sem mesmo uma carta de adeus,
deixando-o com uma garota recém-nascida pelo qual ele não estava pronto para cuidar.
Para ele ser um sucesso tão grande, e ainda infeliz.
“Eu não sei se ela está viva,” ele disse. “Mas eu acho que ela também pode estar
no País Fantasma, Piper. Não há volta para ela. Se eu acreditasse por outro lado... eu
não acho que poderia tolerá-la, afinal.”
Atrás deles, a porta de um carro abriu. Piper virou, e seu coração afundou. Jane
estava marchando na direção deles no seu terno de trabalho, vacilando sobre a areia nos
seus altos calcanhares, seu PDA na mão. O olhar no seu rosto estava em parte confuso,
em parte triunfante, e Piper sabia que ela mantivera contato com a polícia.
Por favor caia, Piper rezou. Se há algum espírito animal ou deus grego que
possa ajudar, faça-a dar um mergulho. Não estou pedindo dano permanente, só
eliminá-la pelo resto do dia, por favor?
Mas Jane continuou avançando.
“Pai,” Piper disse rapidamente. “Uma coisa aconteceu ontem...”
Mas ele viu Jane também. Ele já estava reconstruindo seu rosto de negócios.
Jane não estaria aqui se não fosse sério. Um diretor de estúdio chamava — um projeto
foi arruinado — ou Piper havia estragado tudo novamente.
“Vamos voltar a isso, Pipes,” ele prometeu. “É melhor eu ver o que a Jane quer.
Você sabe como ela é.”
Sim — Piper sabia. O pai marchou pela areia para encontrá-la. Piper não podia
ouvi-los conversando, mas ela não precisava. Ela era boa em leitura facial. Jane lhe deu
os fatos sobre o carro roubado, ocasionalmente apontando para Piper como se ela fosse
um animal repulsivo que silvava no carpete.
A energia e entusiasmo do pai drenaram. Ele gesticulou pra Jane esperar. Então
ele voltou para Piper. Ela não podia aguentar aquele olhar nos olhos deles — como se
ela tivesse traído sua confiança.
“Você me disse que iria tentar, Piper,” ele disse.
“Pai, eu odeio aquela escola. Eu não posso fazer isso. Eu queria lhe dizer sobre a
BMW, mas —”
“Eles lhe expulsaram,” ele disse. “Um carro, Piper? Você vai fazer dezesseis no
próximo ano. Eu lhe compraria qualquer carro que quisesse. Como você pôde —”
“Você quer dizer que Jane me compraria um carro?” Piper exigiu. Ela não podia
ajudar nisso. A raiva só aumentava e derramava para fora dela. “Pai, só ouça por uma
vez. Não me faça esperar por você para fazer suas estúpidas três perguntas. Eu quero ir
para uma escola normal. Eu quero que você me leve para a noite dos pais, e não Jane.
Ou me eduque em casa! Eu aprendi tanto quando lemos sobre a Grécia juntos.
Poderíamos fazer isso toda a hora! Poderíamos —”
“Não faça isso comigo,” seu pai disse. “Eu faço o melhor que posso, Piper. Já
tivemos essa conversa.”
Não, ela pensou. Você adiou essa conversa. Por anos.
Seu pai suspirou. “Jane falou com a polícia, fechou um acordou. A
concessionária não vai pressionar, mas você tem que concordar em ir para um internato
em Nevada. Eles são especialistas em problemas... em crianças com assuntos difíceis.”
“É o que eu sou.” Sua voz estremeceu. “Um problema.”
“Piper... você disse que tentaria. Você me desapontou. Eu não sei mais o que
fazer.”
“Faça qualquer coisa,” ela disse. “Mas faça você mesmo! Não deixe Jane cuidar
disso para você. Você não pode simplesmente me despachar.”
O pai olhou para a cesta de piquenique. Seu sanduíche estava intocado num
pedaço de folha dourada. Eles planejaram uma tarde inteira no surfe. Agora isso estava
arruinado. Piper não pôde acreditar que ele realmente cedera aos desejos da Jane. Não
dessa vez. Não em algo maior que um internato.
“Vá vê-la,” papai disse. “Ela tem os detalhes.”
“Pai...”
Ele desviou o olhar, olhando para o oceano como se pudesse ver todo o caminho
para o País Fantasma. Piper prometeu a si que não iria chorar. Ela foi em direção a Jane,
que sorria friamente e segurava uma passagem de voo. Como sempre, ela já arranjou
tudo. Piper era só outro problema diário que Jane agora podia tirar da lista.
* * *
O sonho de Piper mudou.
Ela estava no topo de um Monte de noite, as luzes da cidade cintilando abaixo.
Em frente a ela, uma fogueira reluzia. As chamas arroxeadas pareciam fazer mais
sombras que a luz, mas o calor era tão intenso que suas roupas queimavam.
“Esse é o seu segundo alerta,” uma voz ressoou, tão poderosa que sacudiu o
mundo. Piper ouvira aquela voz antes nos seus sonhos. Tentou convencer-se que não era
tão assustador quanto ela lembrava, mas era pior.
Atrás da fogueira, um grande rosto aparecia indistintamente na escuridão.
Parecia flutuar sobre as chamas, mas Piper sabia que devia estar conectado a um corpo
enorme. As feições rudes deveriam ter sido esculpidas de rochas. O rosto dificilmente
parecia vivo exceto pelos seus penetrantes olhos brancos, como diamantes novos, e sua
estrutura horrível de medo, trançada com ossos humanos. Ela sorriu, e Piper tremeu.
“Você fará o que lhe for dito,” o gigante disse. “Você irá à missão. Execute
nossa ordem, e você pode partir viva. Caso contrário —”
Ele gesticulou para um lado do fogo. O pai de Piper estava pendurado
inconsciente, amarrado num poste.
Ela tentou gritar. Ela queria chamar pelo seu pai, e exigir que o gigante o
soltasse, mas sua voz não funcionou.
“Estarei observando,” o gigante disse. “Sirva-me, e ambos vivem. Você tem a
palavra de Encélado. Falhe-me... bem, eu dormi por um milênio, jovem semideusa. Eu
estou com muita fome. Falhe, e vou comer bem.”
O gigante riu. A terra estremeceu. Uma fenda abriu-se nos pés de Piper, e ela
tombou na escuridão.
Ela acordou como se tivesse sido pisoteada por uma multidão dançando o passoirlandês.
Seu peito doía, e ela mal podia respirar. Ela desceu e fechou a mão ao redor do
punho da adaga que Annabeth lhe dera — Katoptris, a arma de Helena de Troia.
Então o Acampamento Meio-Sangue não foi um sonho.
“Como você está se sentindo?” alguém perguntou.
Piper tentou focar-se. Ela estava deitada numa cama com uma cortina branca
num lado, como uma enfermaria. Aquela garota ruiva, Rachel Dare, sentava perto dela.
Na parede tinha um pôster com o desenho de um sátiro que parecia incomodamente
como o Treinador Hedge com um termômetro na boca. A legenda dizia: Não deixe
doenças chegarem ao seu bode!
“Onde —” A voz de Piper morreu quando ela viu o sujeito na porta.
Ele parecia um surfista típico da Califórnia — bronzeado, cabelo loiro, vestindo
um short e uma camiseta. Mas ele tinha centenas de olhos azuis sobre o corpo — ao longo dos braços, nas pernas, e em todo o rosto. Até seus pés tinham olhos, olhando
para ela por entre as tiras das sandálias.
“Esse é Argos,” Rachel disse, “nosso chefe da segurança. Ele só está dando uma
olhada nas coisas... por assim dizer.”
Argos assentiu. O olho no seu queixo piscou.
“Onde — ?” Piper tentou novamente, mas sentia como se estivesse falando
através de um bocado de algodão.
“Você está na Casa Grande,” Rachel disse. “Escritório do acampamento.
Trouxemos você aqui quando caiu.”
“Você me agarrou,” Piper lembrou. “A voz de Hera —”
“Me perdoe por aquilo,” Rachel disse. “Acredite em mim, não foi minha ideia
ser possuída. Quíron lhe curou com um pouco de néctar —”
“Néctar?”
“A bebida dos deuses. Em pequenas quantidades, cura semideuses, se assim não
— er — te reduzir a cinzas.”
“Ah. Divertido.”
Rachel sentou-se mais para frente. “Você lembra sua visão?”
Piper teve um momento de medo, pensando que ela dizia sobre o sonho com o
gigante. Então ela percebeu que Rachel estava falando sobre o que aconteceu no chalé
de Hera.
“Tem algo de errado com a deusa,” Piper disse. “Me disse para libertá-la, como
se estivesse presa. Ela mencionou a terra nos engolindo, e um ardente, e algo sobre o
solstício.”
No canto, Argos fez um som retumbante no peito. Seus olhos todos agitaram-se
de uma vez.
“Hera criou Argos,” Rachel explicou. “Ele na verdade é bastante sensível
quando vem para a segurança dela. Estamos tentando impedi-lo de chorar, porque da
última vez que isso aconteceu... bem, causou uma bela duma inundação.”
Argos fungou. Ele pegou um punhado de lenços do criado-mudo e começou a
esfregar todos os olhos sobre o corpo.
“Então...” Piper tentou não olhar enquanto Argos limpava as lágrimas dos
cotovelos. “O que aconteceu com Hera?”
“Não temos certeza,” Rachel disse. “Annabeth e Jason estiveram aqui por você,
a propósito. Jason não queria te deixar, mas Annabeth teve uma ideia — algo que pode
restaurar as memórias dele.”
“Isso é... isso é legal.”
Jason estivera aqui por ela? Ela queria estar consciente para isso. Se ele
conseguisse sua memória de volta, aquilo seria uma coisa boa? Ela ainda estava
resistindo para a esperança que eles realmente conheciam um ao outro. Ela não queria
que o relacionamento deles fosse só um truque da Névoa.
Recomponha-se, ela pensou. Se ela ia salvar seu pai, não importava se Jason
gostava dela ou não. Ele a odiaria no fim. Todos aqui iriam.
Ele olhou para a adaga cerimonial amarrada ao seu lado. Annabeth disse que era
uma marca de poder e status, mas não era normalmente usada em batalha. Tudo de
amostra e nenhuma matéria. Uma falsa, assim como Piper. E seu nome era Katoptris,
espelho. Ela não ousou desembainhá-la novamente, porque ela não poderia carregar
para ver seu próprio reflexo.
“Não se preocupe.” Rachel apertou sua mão. “Jason parece um cara bom. Ele
teve uma visão também, muito parecida com a sua. O que quer que esteja acontecendo
com Hera — eu acho que vocês dois deverão trabalhar juntos.”
Rachel sorriu como se fosse uma boa notícia, mas os espíritos de Piper
afundaram mais ainda. Ela pensou que essa missão — o que quer que fosse —
envolveria pessoas sem reputação. Agora Rachel estava basicamente lhe dizendo: Boas
notícias! Não só seu pai é que será sequestrado por um gigante canibal, você também
conseguirá trair o cara que você gosta! Isso não é incrível?
“Ei,” Rachel disse. “Não precisa chorar. Você vai compreender.”
Piper secou os olhos, tentando controlar-se. Essa não era ela. Ela devia ser
resistente — uma ladra de carros endurecida, a aflição das escolas particulares de L.A.
Aqui estava ela, chorando como um bebê. “Como você pode saber o que estou
encarando?”
Rachel deu de ombros. “Eu sei que é uma escolha difícil, e suas opções não são
perfeitas. Como disse, eu tenho intuições às vezes. Mas você será reclamada na
fogueira. Tenho quase certeza. Quando você souber quem seu pai olimpiano é, as coisas
podem ficar mais claras.”
Mais claras, Piper pensou. Não necessariamente melhores.
Ela sentou na cama. Sua testa doía como se alguém tivesse dirigido um prego
entre seus olhos. Não há como conseguir sua mãe de volta, seu pai lhe dissera. Mas aparentemente, à noite, sua mãe a reclamaria. Pela primeira vez, Piper não tinha certeza
se queria isso.
“Espero que seja Atena.” Ela ergueu os olhos, com medo que Rachel pudesse
tirar sarro dela, mas o oráculo só sorriu.
“Piper, não lhe censuro. Sinceramente? Acho que Annabeth está esperando isso
também. Vocês têm muito em comum.”
A comparação fez Piper se sentir mais culpada ainda. “Outra intuição? Você não
sabe nada sobre mim.”
“Você se surpreenderia.”
“Você só está falando isso porque você é um oráculo, não é? Você devia soar
toda misteriosa.”
Rachel riu. “Não fique dando meus segredos, Piper. E não se preocupe. As
coisas vão se resolver — somente talvez não do jeito que você planeja.”
“Não está me fazendo sentir melhor.”
Em algum lugar distante, uma buzina de concha soou. Argos rosnou e abriu a
porta.
“Jantar?” Piper supôs.
“Você dormiu durante ele,” Rachel disse. “Hora da fogueira. Vamos descobrir
quem você é.”
Piper
PIPER SONHOU SOBRE SEU ÚLTIMO DIA com o pai.
Eles estavam na praia perto de Big Sur, descansando do surfe. A manhã foi tão
perfeita que Piper sabia que algo tinha que dar errado logo — uma multidão furiosa de
paparazzi, ou talvez um grande tubarão branco atacasse. De jeito nenhum sua sorte
poderia continuar.
Mas até agora, eles tinham excelentes ondas, um céu nublado, e dois quilômetros
de mar completamente para eles. Seu pai encontrou esse lugar fora da trilha, alugou
uma casa de campo com vista para o mar e as propriedades em cada lado, e de algum
jeito conseguiu manter isso em segredo. Se ele ficasse ali muito tempo, Piper sabia que
os fotógrafos o encontrariam. Eles sempre encontravam.
“Belo trabalho aqui, Pipes.” Ele lhe deu o sorriso pelo qual ele era famoso:
dentes perfeitos, queixo com covinhas, uma piscadela nos seus olhos escuros que
sempre brotavam um grito nas mulheres e as faziam pedir-lhe para assinar seus corpos
com tinta permanente. (É sério, Piper pensou, tenha uma vida.) Seu cabelo negro
cortado a escovinha brilhava com água salgada. “Você está ficando melhor no Hang
Ten.”
Piper corou em orgulho, embora ela suspeitasse que o pai só estivesse sendo
simpático. Ela ainda gastava a maioria do tempo caindo. Parecia um talento especial
atropelar a si mesma com uma prancha de surfe. Seu pai era um surfista natural — o
que não fazia nenhum sentido desde que ele ressuscitou uma pobre criança em
Oklahoma, centenas de quilômetros do oceano — mas ele era incrível nas ondulações.
Piper teria desistido de surfar a muito tempo atrás exceto que isso a deixava ficar com
ele. Não havia muitos jeitos para conseguir aquilo.
“Sanduíche?” O pai cavou na cesta de piquenique que seu chef, Arno, fizera.
“Vamos ver: peito de peru, bolo de caranguejo wasabi — ei, um especial da Piper.
Manteiga de amendoim e geleia.”
Ela pegou o sanduíche, embora seu estômago estivesse muito agitado para
comer. Ela sempre pedia PJ&B. Piper era vegetariana, por uma coisa. Ela era desde que
haviam passado dirigindo por aquele matadouro em Chino e o cheiro fez as suas entranhas quererem ir para fora. Mas era mais que isso. PB&J era comida simples,
como uma criança normal teria para almoço. Às vezes ela fingiu que era seu pai que
fazia isso para ela, não um personal chef da França que gostava de enrolar o sanduíche
numa folha de ouro com um diamante brilhante ao invés de um palito de dente.
Alguma coisa não podia ser simples? É por isso que ela recusava as roupas
elaboradas que seu pai sempre oferecia, o estilista de sapatos, as visitas ao salão. Ela
cortava seu próprio cabelo com um par de tesouras de plásticos seguras do Garfield,
deliberadamente o tornando desigual. Ela preferia usar tênis velhos, jeans, uma
camiseta, e sua antiga jaqueta da vez que foram esquiar na neve.
E ela odiava as escolas particulares esnobes que papai pensava que eram boas
para ela. Ela continuava sendo expulsa. Ele continuou a encontrar mais escolas.
Ontem, ela tinha realizado seu maior guincho mais uma vez — dirigindo aquela
BMW “emprestada” para fora da concessionária. Ela tinha que realizar uma proeza
maior toda vez, porque estava ainda mais difícil conseguir a atenção do pai.
Agora ela lamentava. O pai ainda não sabia.
Ela queria contá-lo essa manhã. Ele a havia surpreendido com essa viagem, e ela
não poderia arruinar isso. Era a primeira vez que eles teriam um dia juntos em o que —
três meses?
“Qual o problema?” Ele lhe passou um refrigerante.
“Pai, tem uma coisa —”
“Espere, Pipes. Isso é uma face séria. Pronta para Três Perguntas Quaisquer?”
Eles estiveram jogando aquele jogo por anos — o modo do seu pai de ficar
conectado no menor tempo possível. Eles podiam perguntar um para o outro três
perguntas quaisquer. Nada fora dos limites, e você tinha que responder honestamente. O
resto do tempo, o pai prometia ficar fora da vida dela — o que era fácil, desde que ele
nunca estava por perto.
Piper sabia que a maioria das crianças acharia um Perguntas e Respostas assim
com os pais totalmente mortificante. Mas ela avançou a isso. Era como surfar — não
fácil, mas um jeito de sentir como se realmente tivesse um pai.
“Primeira pergunta,” ela disse. “Mamãe.”
Sem surpresa. Era sempre um dos seus tópicos.
Seu pai deu de ombros com resignação. “O que você quer saber, Piper? Eu já lhe
disse — ela desapareceu. Não sei por que, ou para onde ela foi. Depois que você nasceu,
ela simplesmente partiu. Eu nunca mais ouvi falar dela.”
“Você acha que ela ainda está viva?”
Não era uma pergunta real. Seu pai permitia-se dizer que não sabia. Mas ela
queria ouvir como ele responderia.
Ele olhou para as ondas.
“Seu avô Tom,” ele disse finalmente, “ele costumava me dizer que se você andar
longe o bastante para o pôr-do-sol, você viria para o País Fantasma, onde você poderia
conversar com a morte. Ele disse há muito tempo atrás, você poderia trazer a morte de
volta; mas então a humanidade bagunçaria. Bem, é uma longa história.”
“Como a Terra dos Mortos para os gregos,” Piper lembrou. “Era no oeste,
também. E Orfeu — ele tentou trazer sua esposa de volta.”
Seu pai assentiu. Um ano antes, ele tivera esse papel maior como um rei da
Grécia Antiga. Piper havia lhe ajudado a pesquisar os mitos — todas aquelas histórias
antigas sobre pessoas virando pedra e afundando em lagos de lava. Eles tiveram um
tempo divertido lendo juntos, e isso fez a vida de Piper não parecer tão má. Por um
instante ela se sentiu mais próxima do pai, mas como tudo, isso não continuou.
“Várias semelhanças entre os gregos e os Cherokee,” o pai concordou. “Eu
penso o que seu avô pensaria se nos visse agora, sentando no fim da terra ocidental. Ele
provavelmente pensaria que somos fantasmas.”
“Então você está dizendo que acredita nessas histórias? Você acha que a mamãe
está morta?”
Seus olhos molharam, e Piper viu a tristeza atrás dele. Ela entendeu o porquê de
mulheres serem tão atraentes para ele. Na superfície, ele parecia confiante e forte, mas
seus olhos seguravam muita tristeza. Mulheres queriam descobrir por quê. Elas queriam
confortá-lo, e elas nunca podiam. O pai contava a Piper que era coisa de Cherokee —
todos eles tinham aquela escuridão dentro deles de gerações de dor e sofrimento. Mas
Piper pensou que era mais que isso.
“Eu não acredito nas histórias,” ele disse. “Elas são divertidas de contar, mas se
eu realmente acreditasse em País Fantasma, ou espíritos animais, ou deuses gregos... eu
não acho que poderia dormir à noite. Eu sempre estaria procurando por alguém para
acusar.”
Alguém para acusar pela morte do vovô Tom de câncer de pulmão, Piper
pensou, antes que seu pai ficasse famoso e tivesse dinheiro para ajudar. Para mamãe — a única mulher que ele já amou — abandoná-lo sem mesmo uma carta de adeus,
deixando-o com uma garota recém-nascida pelo qual ele não estava pronto para cuidar.
Para ele ser um sucesso tão grande, e ainda infeliz.
“Eu não sei se ela está viva,” ele disse. “Mas eu acho que ela também pode estar
no País Fantasma, Piper. Não há volta para ela. Se eu acreditasse por outro lado... eu
não acho que poderia tolerá-la, afinal.”
Atrás deles, a porta de um carro abriu. Piper virou, e seu coração afundou. Jane
estava marchando na direção deles no seu terno de trabalho, vacilando sobre a areia nos
seus altos calcanhares, seu PDA na mão. O olhar no seu rosto estava em parte confuso,
em parte triunfante, e Piper sabia que ela mantivera contato com a polícia.
Por favor caia, Piper rezou. Se há algum espírito animal ou deus grego que
possa ajudar, faça-a dar um mergulho. Não estou pedindo dano permanente, só
eliminá-la pelo resto do dia, por favor?
Mas Jane continuou avançando.
“Pai,” Piper disse rapidamente. “Uma coisa aconteceu ontem...”
Mas ele viu Jane também. Ele já estava reconstruindo seu rosto de negócios.
Jane não estaria aqui se não fosse sério. Um diretor de estúdio chamava — um projeto
foi arruinado — ou Piper havia estragado tudo novamente.
“Vamos voltar a isso, Pipes,” ele prometeu. “É melhor eu ver o que a Jane quer.
Você sabe como ela é.”
Sim — Piper sabia. O pai marchou pela areia para encontrá-la. Piper não podia
ouvi-los conversando, mas ela não precisava. Ela era boa em leitura facial. Jane lhe deu
os fatos sobre o carro roubado, ocasionalmente apontando para Piper como se ela fosse
um animal repulsivo que silvava no carpete.
A energia e entusiasmo do pai drenaram. Ele gesticulou pra Jane esperar. Então
ele voltou para Piper. Ela não podia aguentar aquele olhar nos olhos deles — como se
ela tivesse traído sua confiança.
“Você me disse que iria tentar, Piper,” ele disse.
“Pai, eu odeio aquela escola. Eu não posso fazer isso. Eu queria lhe dizer sobre a
BMW, mas —”
“Eles lhe expulsaram,” ele disse. “Um carro, Piper? Você vai fazer dezesseis no
próximo ano. Eu lhe compraria qualquer carro que quisesse. Como você pôde —”
“Você quer dizer que Jane me compraria um carro?” Piper exigiu. Ela não podia
ajudar nisso. A raiva só aumentava e derramava para fora dela. “Pai, só ouça por uma
vez. Não me faça esperar por você para fazer suas estúpidas três perguntas. Eu quero ir
para uma escola normal. Eu quero que você me leve para a noite dos pais, e não Jane.
Ou me eduque em casa! Eu aprendi tanto quando lemos sobre a Grécia juntos.
Poderíamos fazer isso toda a hora! Poderíamos —”
“Não faça isso comigo,” seu pai disse. “Eu faço o melhor que posso, Piper. Já
tivemos essa conversa.”
Não, ela pensou. Você adiou essa conversa. Por anos.
Seu pai suspirou. “Jane falou com a polícia, fechou um acordou. A
concessionária não vai pressionar, mas você tem que concordar em ir para um internato
em Nevada. Eles são especialistas em problemas... em crianças com assuntos difíceis.”
“É o que eu sou.” Sua voz estremeceu. “Um problema.”
“Piper... você disse que tentaria. Você me desapontou. Eu não sei mais o que
fazer.”
“Faça qualquer coisa,” ela disse. “Mas faça você mesmo! Não deixe Jane cuidar
disso para você. Você não pode simplesmente me despachar.”
O pai olhou para a cesta de piquenique. Seu sanduíche estava intocado num
pedaço de folha dourada. Eles planejaram uma tarde inteira no surfe. Agora isso estava
arruinado. Piper não pôde acreditar que ele realmente cedera aos desejos da Jane. Não
dessa vez. Não em algo maior que um internato.
“Vá vê-la,” papai disse. “Ela tem os detalhes.”
“Pai...”
Ele desviou o olhar, olhando para o oceano como se pudesse ver todo o caminho
para o País Fantasma. Piper prometeu a si que não iria chorar. Ela foi em direção a Jane,
que sorria friamente e segurava uma passagem de voo. Como sempre, ela já arranjou
tudo. Piper era só outro problema diário que Jane agora podia tirar da lista.
* * *
O sonho de Piper mudou.
Ela estava no topo de um Monte de noite, as luzes da cidade cintilando abaixo.
Em frente a ela, uma fogueira reluzia. As chamas arroxeadas pareciam fazer mais
sombras que a luz, mas o calor era tão intenso que suas roupas queimavam.
“Esse é o seu segundo alerta,” uma voz ressoou, tão poderosa que sacudiu o
mundo. Piper ouvira aquela voz antes nos seus sonhos. Tentou convencer-se que não era
tão assustador quanto ela lembrava, mas era pior.
Atrás da fogueira, um grande rosto aparecia indistintamente na escuridão.
Parecia flutuar sobre as chamas, mas Piper sabia que devia estar conectado a um corpo
enorme. As feições rudes deveriam ter sido esculpidas de rochas. O rosto dificilmente
parecia vivo exceto pelos seus penetrantes olhos brancos, como diamantes novos, e sua
estrutura horrível de medo, trançada com ossos humanos. Ela sorriu, e Piper tremeu.
“Você fará o que lhe for dito,” o gigante disse. “Você irá à missão. Execute
nossa ordem, e você pode partir viva. Caso contrário —”
Ele gesticulou para um lado do fogo. O pai de Piper estava pendurado
inconsciente, amarrado num poste.
Ela tentou gritar. Ela queria chamar pelo seu pai, e exigir que o gigante o
soltasse, mas sua voz não funcionou.
“Estarei observando,” o gigante disse. “Sirva-me, e ambos vivem. Você tem a
palavra de Encélado. Falhe-me... bem, eu dormi por um milênio, jovem semideusa. Eu
estou com muita fome. Falhe, e vou comer bem.”
O gigante riu. A terra estremeceu. Uma fenda abriu-se nos pés de Piper, e ela
tombou na escuridão.
Ela acordou como se tivesse sido pisoteada por uma multidão dançando o passoirlandês.
Seu peito doía, e ela mal podia respirar. Ela desceu e fechou a mão ao redor do
punho da adaga que Annabeth lhe dera — Katoptris, a arma de Helena de Troia.
Então o Acampamento Meio-Sangue não foi um sonho.
“Como você está se sentindo?” alguém perguntou.
Piper tentou focar-se. Ela estava deitada numa cama com uma cortina branca
num lado, como uma enfermaria. Aquela garota ruiva, Rachel Dare, sentava perto dela.
Na parede tinha um pôster com o desenho de um sátiro que parecia incomodamente
como o Treinador Hedge com um termômetro na boca. A legenda dizia: Não deixe
doenças chegarem ao seu bode!
“Onde —” A voz de Piper morreu quando ela viu o sujeito na porta.
Ele parecia um surfista típico da Califórnia — bronzeado, cabelo loiro, vestindo
um short e uma camiseta. Mas ele tinha centenas de olhos azuis sobre o corpo — ao longo dos braços, nas pernas, e em todo o rosto. Até seus pés tinham olhos, olhando
para ela por entre as tiras das sandálias.
“Esse é Argos,” Rachel disse, “nosso chefe da segurança. Ele só está dando uma
olhada nas coisas... por assim dizer.”
Argos assentiu. O olho no seu queixo piscou.
“Onde — ?” Piper tentou novamente, mas sentia como se estivesse falando
através de um bocado de algodão.
“Você está na Casa Grande,” Rachel disse. “Escritório do acampamento.
Trouxemos você aqui quando caiu.”
“Você me agarrou,” Piper lembrou. “A voz de Hera —”
“Me perdoe por aquilo,” Rachel disse. “Acredite em mim, não foi minha ideia
ser possuída. Quíron lhe curou com um pouco de néctar —”
“Néctar?”
“A bebida dos deuses. Em pequenas quantidades, cura semideuses, se assim não
— er — te reduzir a cinzas.”
“Ah. Divertido.”
Rachel sentou-se mais para frente. “Você lembra sua visão?”
Piper teve um momento de medo, pensando que ela dizia sobre o sonho com o
gigante. Então ela percebeu que Rachel estava falando sobre o que aconteceu no chalé
de Hera.
“Tem algo de errado com a deusa,” Piper disse. “Me disse para libertá-la, como
se estivesse presa. Ela mencionou a terra nos engolindo, e um ardente, e algo sobre o
solstício.”
No canto, Argos fez um som retumbante no peito. Seus olhos todos agitaram-se
de uma vez.
“Hera criou Argos,” Rachel explicou. “Ele na verdade é bastante sensível
quando vem para a segurança dela. Estamos tentando impedi-lo de chorar, porque da
última vez que isso aconteceu... bem, causou uma bela duma inundação.”
Argos fungou. Ele pegou um punhado de lenços do criado-mudo e começou a
esfregar todos os olhos sobre o corpo.
“Então...” Piper tentou não olhar enquanto Argos limpava as lágrimas dos
cotovelos. “O que aconteceu com Hera?”
“Não temos certeza,” Rachel disse. “Annabeth e Jason estiveram aqui por você,
a propósito. Jason não queria te deixar, mas Annabeth teve uma ideia — algo que pode
restaurar as memórias dele.”
“Isso é... isso é legal.”
Jason estivera aqui por ela? Ela queria estar consciente para isso. Se ele
conseguisse sua memória de volta, aquilo seria uma coisa boa? Ela ainda estava
resistindo para a esperança que eles realmente conheciam um ao outro. Ela não queria
que o relacionamento deles fosse só um truque da Névoa.
Recomponha-se, ela pensou. Se ela ia salvar seu pai, não importava se Jason
gostava dela ou não. Ele a odiaria no fim. Todos aqui iriam.
Ele olhou para a adaga cerimonial amarrada ao seu lado. Annabeth disse que era
uma marca de poder e status, mas não era normalmente usada em batalha. Tudo de
amostra e nenhuma matéria. Uma falsa, assim como Piper. E seu nome era Katoptris,
espelho. Ela não ousou desembainhá-la novamente, porque ela não poderia carregar
para ver seu próprio reflexo.
“Não se preocupe.” Rachel apertou sua mão. “Jason parece um cara bom. Ele
teve uma visão também, muito parecida com a sua. O que quer que esteja acontecendo
com Hera — eu acho que vocês dois deverão trabalhar juntos.”
Rachel sorriu como se fosse uma boa notícia, mas os espíritos de Piper
afundaram mais ainda. Ela pensou que essa missão — o que quer que fosse —
envolveria pessoas sem reputação. Agora Rachel estava basicamente lhe dizendo: Boas
notícias! Não só seu pai é que será sequestrado por um gigante canibal, você também
conseguirá trair o cara que você gosta! Isso não é incrível?
“Ei,” Rachel disse. “Não precisa chorar. Você vai compreender.”
Piper secou os olhos, tentando controlar-se. Essa não era ela. Ela devia ser
resistente — uma ladra de carros endurecida, a aflição das escolas particulares de L.A.
Aqui estava ela, chorando como um bebê. “Como você pode saber o que estou
encarando?”
Rachel deu de ombros. “Eu sei que é uma escolha difícil, e suas opções não são
perfeitas. Como disse, eu tenho intuições às vezes. Mas você será reclamada na
fogueira. Tenho quase certeza. Quando você souber quem seu pai olimpiano é, as coisas
podem ficar mais claras.”
Mais claras, Piper pensou. Não necessariamente melhores.
Ela sentou na cama. Sua testa doía como se alguém tivesse dirigido um prego
entre seus olhos. Não há como conseguir sua mãe de volta, seu pai lhe dissera. Mas aparentemente, à noite, sua mãe a reclamaria. Pela primeira vez, Piper não tinha certeza
se queria isso.
“Espero que seja Atena.” Ela ergueu os olhos, com medo que Rachel pudesse
tirar sarro dela, mas o oráculo só sorriu.
“Piper, não lhe censuro. Sinceramente? Acho que Annabeth está esperando isso
também. Vocês têm muito em comum.”
A comparação fez Piper se sentir mais culpada ainda. “Outra intuição? Você não
sabe nada sobre mim.”
“Você se surpreenderia.”
“Você só está falando isso porque você é um oráculo, não é? Você devia soar
toda misteriosa.”
Rachel riu. “Não fique dando meus segredos, Piper. E não se preocupe. As
coisas vão se resolver — somente talvez não do jeito que você planeja.”
“Não está me fazendo sentir melhor.”
Em algum lugar distante, uma buzina de concha soou. Argos rosnou e abriu a
porta.
“Jantar?” Piper supôs.
“Você dormiu durante ele,” Rachel disse. “Hora da fogueira. Vamos descobrir
quem você é.”
Capítulo Oito - O Herói Perdido
VIII
Jason
JASON E A RUIVA, QUE SE APRESENTOU como Rachel, colocaram Piper no sofá
enquanto Annabeth apressou-se pelo corredor para pegar um kit de primeiros socorros.
Piper ainda estava respirando, mas ela não acordaria. Ela parecia estar em algum tipo de
coma.
“Temos que curá-la,” Jason insistiu. “Tem um jeito, certo?”
Vendo-a tão pálida, mal respirando, Jason sentiu uma onda de proteção. Talvez
ele realmente não a conhecesse. Talvez ela não fosse sua namorada. Mas eles
sobreviveram no Grand Canyon juntos. Eles passaram por todo esse caminho. Ele a
deixara de lado por um instante, e isso aconteceu.
Quíron colocou uma mão na sua testa e fez uma careta. “Sua mente está em
frágil estado. Rachel, o que aconteceu?”
“Eu queria saber,” ela disse. “Assim que cheguei no acampamento, tive uma
premonição sobre o chalé de Hera. Eu entrei. Annabeth e Piper entraram enquanto eu
estava lá. Conversamos, e então — eu simplesmente apaguei. Annabeth disse que falei
numa voz diferente.”
“Uma profecia?” Quíron perguntou.
“Não. O espírito de Delfos vem de dentro. Eu sei como sente. Era como a uma
longa distância, uma força tentando falar através de mim.”
Annabeth passou com uma bolsa de couro. Ela ajoelhou-se do lado de Piper.
“Quíron, o que aconteceu lá — eu nunca vi nada parecido. Eu já ouvi a voz de profecia
de Rachel. Era diferente. Ela soou como uma mulher mais velha. Ela pegou os ombros
de Piper e lhe disse —”
“Para libertá-la duma prisão?” Jason chutou.
Annabeth olhou para ele. “Como você sabia disso?”
Quíron fez um gesto de três dedos sobre o coração, como uma proteção contra o
mal.
“Jason, conte para elas. Annabeth, a bolsa de remédios, por favor.”
Quíron pingou gotas de um frasco medicinal na boca de Piper enquanto Jason
explicava o que aconteceu quando a sala congelou — a mulher escura na névoa que
alegou ser o patrono de Jason.
Quando ele acabou, ninguém falou, o que fez ele se sentir mais aflito.
“Então isso acontece sempre?” ele perguntou. “Ligações sobrenaturais de
condenados exigindo que você os tire da cadeia?”
“Seu patrono,” Annabeth disse. “Não o seu pai olimpiano?”
“Não, ela disse patrono. Ela também disse que meu pai havia lhe dado a minha
vida.”
Annabeth franziu a sobrancelha. “Eu nunca ouvi falar de nada assim antes. Você
disse no céu que o espírito de tempestade — ele alegou estar trabalhando para alguma
mestra que estava dando ordens, certo? Pode ser essa mulher que você viu, bagunçando
sua mente?”
“Eu acho que não,” Jason disse. “Se ela fosse minha inimiga, ela estaria pedindo
pela minha ajuda? Ela está aprisionada. Ela está preocupada sobre algum inimigo se
fortalecendo. Algo sobre a ascensão de um rei da terra no solstício —”
Annabeth virou para Quíron. “Cronos não. Por favor, me diga que não é isso.”
O centauro parecia infeliz. Ele segurou o pulso de Piper, checando sua pulsação.
Finalmente ele disse, “Não é Cronos. Aquela ameaça está acabada. Mas...”
“Mas o quê?”
Quíron fechou a bolsa de remédios. “Piper precisa de descanso. Deveríamos
discutir isso depois.”
“Ou agora,” Jason disse. “Er, Sr. Quíron, você me disse que a ameaça maior
estava vindo. O último capítulo. Possivelmente você não pode querer dizer algo pior
que um exército de titãs, não é?”
“Ah,” Rachel disse numa voz baixa. “Ah, gente. A mulher era Hera. É claro. Seu
chalé, sua voz. Ela mostrou-se para Jason no mesmo momento.”
“Hera?” O rosnado de Annabeth foi até mais feroz do que o de Seymour. “Ela
trouxe você? Ela fez isso com Piper?”
“Eu acho que a Rachel está certa,” Jason disse. “A mulher parecia uma deusa. E
ela vestia isso — essa capa de pele de cabra. É um símbolo de Juno, né?”
“É?” Annabeth franziu a testa. “Eu nunca ouvi isso.”
Quíron assentiu com relutância. “De Juno, o aspecto romano de Hera, mas em
seu estado guerreiro. A capa de pele de cabra era um símbolo do soldado romano.”
“Então Hera está aprisionada?” Rachel perguntou. “Quem poderia fazer isso à
rainha dos deuses?”
Annabeth cruzou os braços. “Bem, quem quer que seja talvez devêssemos
agradecê-los. Se eles podem calar Hera —”
“Annabeth,” Quíron alertou, “ela ainda é uma dos olimpianos. De várias
maneiras, ela é a cola que mantém a família dos deuses unida. Se ela realmente foi presa
e está em perigo de destruição, isso poderia abalar os alicerces do mundo. Isso poderia
desafinar a estabilidade do Olimpo, o que não nunca é bom nem nos melhores
momentos. E se Hera pediu ajuda a Jason —”
“Certo,” Annabeth rosnou. “Bem, sabemos que os titãs podem capturar um deus,
né? Atlas capturou Ártemis alguns anos atrás. E nas histórias antigas, os deuses
capturavam um ao outro em armadilhas a toda hora. Mas algo pior que um titã...?”
Jason olhou para a cabeça de leopardo. Seymour estava saboreando os lábios
como se a deusa tivesse um sabor melhor que um biscoito. “Hera disse que esteve
tentando quebrar os grilhões da sua prisão por um mês.”
“Que é o tempo que o Olimpo foi fechado,” Annabeth disse. “Então os deuses
devem saber que algo ruim está acontecendo.”
“Mas por que usar sua energia para me enviar aqui?” Jason perguntou. “Ela
limpou minha memória, estatelou-me na excursão da Wilderness School, e mandou para
você uma visão de sonho para vir me pegar. Por que eu sou tão importante? Por que não
simplesmente mandar umas chamas de emergência para os outros deuses — deixá-los
saber onde ela está para que eles a libertem?”
“Os deuses precisam de heróis para fazer sua vontade aqui embaixo na terra,”
Rachel disse. “Está certo, né? Os destinos deles são sempre entrelaçados com
semideuses.”
“É verdade,” Annabeth disse, “mas Jason se lembrou de uma coisa importante.
Por que ele? Por que pegar a sua memória?”
“E Piper está envolvida de algum jeito,” Rachel disse. “Hera lhe mandou a
mesma mensagem — Me liberte. E, Annabeth, isso deve ter algo em relação ao
desaparecimento de Percy.”
Annabeth fixou os olhos em Quíron. “Por que você está tão quieto, Quíron? O
que é isso que estamos enfrentando?”
O rosto do velho centauro parecia que havia sido envelhecido em dez anos numa
questão de minutos. As linhas em torno dos seus olhos estavam profundamente
gravadas. “Minha querida, nisso, eu não posso lhe ajudar. Desculpe-me, mesmo.”
Annabeth pestanejou. “Você nunca... você nunca escondeu informações de mim.
Até a última grande profecia —”
“Estarei no meu escritório.” Sua voz estava pesada. “Preciso de algum tempo
para pensar antes do jantar. Rachel, você ficará observando a garota? Chame Argos para
trazê-la à enfermaria, se quiser. E Annabeth, você devia falar com Jason. Conte para ele
sobre — sobre os deuses gregos e romanos.”
“Mas...”
O centauro virou sua cadeira de rodas e a rolou para o corredor. Os olhos de
Annabeth ficaram coléricos. Ela murmurou algo em grego, e Jason teve o
pressentimento que não era elogioso para centauros.
“Desculpe-me,” Jason disse. “Acho que minha presença aqui — eu não sei. Eu
baguncei as coisas vindo para o acampamento, de algum jeito. Quíron disse que ele
declarou um juramento e não podia falar sobre isso.”
“Que juramento?” Annabeth perguntou. “Eu nunca vi ele agir assim. E por que
ele iria me dizer para eu lhe falar sobre os deuses...”
Sua voz morreu. Aparentemente ele notou a espada de Jason acomodada na
mesinha de café. Ela tocou a lâmina cuidadosamente, como se pudesse estar quente.
“É ouro?” ela disse. “Você lembra onde a conseguiu?”
“Não,” Jason disse. “Como disse, não me lembro de nada.”
Annabeth assentiu como se tivesse acabado de bolar um plano um pouco
desesperado. “Se Quíron não ajudará, temos que descobrir as coisas por nós mesmos. O
que significa... Chalé Quinze. Rachel, você vai ficar de olho na Piper?”
“Claro,” Rachel prometeu. “Boa sorte, vocês dois.”
“Espere,” Jason disse. “O que tem no Chalé Quinze?”
Annabeth ficou de pé. “Talvez um jeito de conseguir sua memória de volta.”
Eles foram em direção a uma ala mais nova de chalés no canto sudoeste do campo.
Alguns eram luxuosos, com paredes brilhantes ou tochas em chamas, mas o Chalé
Quinze não era tão dramático. Parecia uma casa de campo antiquada com paredes de
lama e um telhado ímpeto. Na porta havia pendurada uma coroa de flores carmesim —
papoulas vermelhas, Jason pensou, embora não tivesse certeza como sabia.
“Você acha que é o chalé do meu pai?” ele perguntou.
“Não,” Annabeth disse. “É o chalé para Hipnos, o deus do sono.”
“Então por quê —”
“Você esqueceu tudo,” ela disse. “Se há um deus que pode nos ajudar a
descobrir perda de memória, esse é Hipnos.”
Dentro, mesmo já estando quase na hora do jantar, três crianças soavam
adormecidas debaixo de pilhas de cobertas. Um fogo vivo estalava na lareira. Sobre a
cornija pendia um ramo de árvore, cada galho pingando líquido branco numa coleção de
vasos de estanho. Jason estava tentado a pegar uma gota no seu dedo só para ver o que
era, mas deteu-se.
Uma música suave de violino tocava de algum lugar. O ar cheirava como
lavanderia limpa. O chalé era tão aconchegante e pacífico que as pálpebras de Jason
começaram a se sentirem pesadas. Uma soneca parecia uma grande idéia. Ele estava
exausto. Havia várias camas vazias, todas com travesseiros de pena e lençóis limpos e
colchas fofas e — Annabeth o cutucou. “Sai dessa.”
Jason pestanejou. Ele percebeu que seus joelhos estavam começando a dobrar.
“O Chalé Quinze faz isso com todos,” Annabeth avisou. “Se você me perguntar,
esse lugar é ainda mais perigoso que o chalé de Ares. Pelo menos com Ares, você pode
aprender onde as minas terrestres estão.”
“Minas terrestres?”
Ela se aproximou a criança roncando mais próxima e balançou seu ombro.
“Clovis! Acorde!”
A criança parecia um bebê. Ele tinha um topete loiro numa cabeça em forma de
cunha, com feições grossas e um grande pescoço. Seu corpo era sólido, mas ele tinha
pequenos braços finos como se nunca houvesse levantado algo mais pesado que um
travesseiro.
“Clovis!” Annabeth balançou mais forte, então finalmente bateu na sua testa
aproximadamente seis vezes.
“O-o-o quê?” Clovis reclamou, sentando e apertando os olhos. Ele bocejou
imensamente, e Annabeth e Jason bocejaram também.
“Pare com isso!” Annabeth disse. “Precisamos de sua ajuda.”
“Eu estava dormindo.”
“Você sempre está dormindo.”
“Boa noite.”
Antes que ele pudesse adormecer, Annabeth puxou seu travesseiro da cama.
“Não é justo,” Clovis reclamou humildemente. “Devolva.”
“Primeiro ajuda,” Annabeth disse. “Depois dorme.”
Clovis suspirou. Sua respiração cheirava como leite quente. “Certo. O quê?”
Annabeth explicou sobre o problema de Jason. Ela estalava os dedos sob o nariz
de Clovis para mantê-lo acordado o tempo todo.
Clovis deve ter ficado realmente animado, porque quando Annabeth acabou ele
não dormiu. Ele na verdade levantou e esticou-se, então sorriu para Jason.
“Então você não se lembra de nada, hein?”
“Só impressões,” Jason disse. “Sensações, como...”
“Sim?” Clovis disse.
“Como eu sei que não devia estar aqui. Nesse acampamento. Estou em perigo.”
“Hum... Feche seus olhos.”
Jason olhou para Annabeth, mas ela assentiu de forma tranquilizadora.
Jason sentiu medo de acabar roncando em um dos beliches para sempre, mas ele
fechou os olhos. Seus pensamentos tornaram-se obscuros, como se ele estivesse
afundando num lago escuro.
A próxima coisa que ele sabia, seus olhos cederam. Ele estava numa cadeira pelo
fogo. Clovis e Annabeth ajoelharam-se do lado dele.
“— Sério, tudo bem,” Clovis estava falando.
“O que aconteceu?” Jason disse. “Quanto —”
“Só alguns minutos,” Annabeth disse. “Mas foi tenso. Você quase dissolveu.”
Jason esperou que ela tivesse dito literalmente, mas sua expressão estava séria.
“Geralmente,” Clovis disse, “memórias são perdidas por um bom motivo. Elas
afundam na superfície como sonhos, e com um bom sono, eu posso trazê-las de volta.
Mas isso...”
“Letes?” Annabeth perguntou.
“Não,” Clovis disse. “Nem Letes.”
“Letes?” Jason perguntou.
Clovis apontou para o ramo de árvore derramando gotas leitosas sobre a lareira.
“O Rio Letes no Mundo Inferior. Dissolve suas memórias, limpa sua mente
permanentemente. É o ramo de uma árvore de álamo do Mundo Inferior, mergulhada no
Letes. É o símbolo do meu pai, Hipnos. Letes não é um lugar que você queira nadar.”
Annabeth assentiu. “Percy foi lá uma vez. Ele me disse que é poderoso o
bastante para limpar a mente de um titã.”
Jason estava subitamente feliz por não ter tocado o ramo. “Mas... não é meu
problema?”
“Não,” Clovis concordou. “Sua mente não foi limpa, e suas memórias não foram
enterradas. Elas foram roubadas.”
O fogo estalou. Gotas da água do Letes gotejavam nos copos de estanho na
cornija. Um dos outros campistas do Hipnos murmurarou no sono — algo sobre um
pato.
“Roubadas,” Jason disse. “Como?”
“Um deus,” Clovis disse. “Só um deus teria esse tipo de poder.”
“Sabemos disso,” disse Jason. “Foi Juno. Mas como ela fez isso, e por quê?”
Clovis coçou o pescoço. “Juno?”
“Ele quer dizer Hera,” Annabeth disse. “Por algum motivo, Jason gosta dos
nomes romanos.”
“Hum,” Clovis disse.
“O quê?” Jason perguntou. “Significa algo?”
“Hum,” Clovis disse novamente, e dessa vez Jason percebeu que ele estava
roncando.
“Clovis!” ele gritou.
“O quê? O quê?” Seus olhos alargaram-se. “Estávamos falando sobre
travesseiros, certo? Não, deuses. Eu lembro. Gregos e romanos. Certo, pode ser
importante.”
“Mas eles são os mesmos deuses,” Annabeth disse. “Apenas com nomes
diferentes.”
“Não exatamente,” Clovis disse.
Jason sentou-se, agora muito mais acordado. “O que você quer dizer, não
exatamente?”
“Bem...” Clovis bocejou. “Alguns deuses são apenas romanos. Como Jano, ou
Pomona. Mas até os maiores deuses gregos — não foi só o nome deles que mudou
quando se moveram para Roma. Suas aparências mudaram. Seus atributos mudaram.
Eles até tiveram personalidades levemente diferentes.”
“Mas...” Annabeth vacilou. “Ok, então talvez as pessoas os viram
diferentemente através dos séculos. Isso não muda quem eles são.”
“Com certeza sim.” Clovis começou a adormecer, e Jason estalou os dedos sob
seu nariz.
“Estou indo, mãe!” ele gritou. “Digo... Sim, estou acordado. Então, hã,
personalidades. Os deuses mudam para refletir às suas culturas locais. Você sabe disso,
Annabeth. Digo, nesses dias, Zeus gosta de ternos feitos por alfaiates, realidade na
televisão, e aquele restaurante de comida chinesa na Rua Vigésima-oitava leste, certo?
Era o mesmo nos tempos romanos, e os deuses eram romanos tanto quanto eles eram
gregos. Era um grande império, conservado por séculos. Então naturalmente os seus
aspectos romanos ainda são uma grande parte de se caráter.”
“Faz sentido,” Jason disse.
Annabeth balançou a cabeça, iludida. “Mas como você sabe isso tudo, Clovis?”
“Ah, eu gasto muito tempo sonhando. Eu vejo deuses neles o tempo todo —
sempre mudando de forma. Sonhos são fluidos, você sabe. Você pode estar em lugares
diferentes de uma só vez, sempre mudando identidades. É como ser um deus, na
verdade. Como recentemente, eu sonhei que estava assistindo uma apresentação do
Michael Jackson, e então eu estava no palco com Michael Jackson, e estávamos
cantando essa música, e eu não conseguia lembrar as palavras para ‘The Girl Is Mine.’
Ah, gente, foi tão embaraçoso, eu —”
“Clovis,” Annabeth interrompeu. “De volta a Roma?”
“Certo, Roma,” Clovis disse. “Assim nós chamamos os deuses pelos seus nomes
gregos porque são as suas formas originais. Mas dizer que seus aspectos romanos são
exatamente o mesmo — isso não é verdade. Em Roma, eles se tornaram mais militares.
Eles não se misturavam muito com mortais. Eles eram severos, mais poderosos — os
deuses de um império.”
“Como o lado negro dos deuses?” Annabeth perguntou.
“Não exatamente,” Clovis disse. “Eles erguiam-se para a disciplina, honra, força
—”
“Coisas boas, então,” Jason disse. Por algum motivo, ele sentia a necessidade de
falar pelos deuses romanos, embora não tivesse certeza do que isso importava para ele.
“Digo, disciplina é importante, certo? É o que fez Roma continuar por tanto tempo.”
Clovis lhe deu um olhar curioso. “É verdade. Mas os deuses romanos não eram
muito amigáveis. Por exemplo, meu pai, Hipnos... ele não fazia muito a não ser dormir
nos tempos gregos. Nos tempos romanos, eles o chamavam de Somnus. Ele gostava de
matar as pessoas que não ficavam alerta aos seus trabalhos. Se eles adormecessem na
hora errada, bum — eles nunca acordariam. Ele matou o piloto de Enéias quando eles
estavam saindo a barco de Troia.”
“Cara legal,” Annabeth disse. “mas eu ainda não entendo o que isso tem a ver
com Jason.”
“Nem eu,” Clovis disse. “Mas se Hera pegou suas memórias, só ela pode
devolvê-las. E se eu tivesse que encontrar a rainha dos deuses, eu esperaria que ela
estivesse mais num ânimo Hera do que num ânimo Juno. Posso voltar a dormir agora?”
Annabeth olhou para o ramo sobre o fogo, pingando água do Letes nos vasos.
Ela parecia tão preocupada, Jason queria saber se ela estava considerando uma bebida
para esquecer seus problemas. Então ela levantou e jogou para Clovis seu travesseiro.
“Obrigada, Clovis. Vemos você no jantar.”
“Posso ter serviço de quarto?” Clovis bocejou e topou-se no seu beliche. “Me
sinto meio... zzzz...” Ele caiu com sua cabeçada no ar e seu rosto enterrou-se no
travesseiro.
“Ele não vai sufocar?” Jason perguntou.
“Ele ficará bem,” Annabeth disse. “Mas estou começando a achar que você está
em sérios problemas.”
Jason
JASON E A RUIVA, QUE SE APRESENTOU como Rachel, colocaram Piper no sofá
enquanto Annabeth apressou-se pelo corredor para pegar um kit de primeiros socorros.
Piper ainda estava respirando, mas ela não acordaria. Ela parecia estar em algum tipo de
coma.
“Temos que curá-la,” Jason insistiu. “Tem um jeito, certo?”
Vendo-a tão pálida, mal respirando, Jason sentiu uma onda de proteção. Talvez
ele realmente não a conhecesse. Talvez ela não fosse sua namorada. Mas eles
sobreviveram no Grand Canyon juntos. Eles passaram por todo esse caminho. Ele a
deixara de lado por um instante, e isso aconteceu.
Quíron colocou uma mão na sua testa e fez uma careta. “Sua mente está em
frágil estado. Rachel, o que aconteceu?”
“Eu queria saber,” ela disse. “Assim que cheguei no acampamento, tive uma
premonição sobre o chalé de Hera. Eu entrei. Annabeth e Piper entraram enquanto eu
estava lá. Conversamos, e então — eu simplesmente apaguei. Annabeth disse que falei
numa voz diferente.”
“Uma profecia?” Quíron perguntou.
“Não. O espírito de Delfos vem de dentro. Eu sei como sente. Era como a uma
longa distância, uma força tentando falar através de mim.”
Annabeth passou com uma bolsa de couro. Ela ajoelhou-se do lado de Piper.
“Quíron, o que aconteceu lá — eu nunca vi nada parecido. Eu já ouvi a voz de profecia
de Rachel. Era diferente. Ela soou como uma mulher mais velha. Ela pegou os ombros
de Piper e lhe disse —”
“Para libertá-la duma prisão?” Jason chutou.
Annabeth olhou para ele. “Como você sabia disso?”
Quíron fez um gesto de três dedos sobre o coração, como uma proteção contra o
mal.
“Jason, conte para elas. Annabeth, a bolsa de remédios, por favor.”
Quíron pingou gotas de um frasco medicinal na boca de Piper enquanto Jason
explicava o que aconteceu quando a sala congelou — a mulher escura na névoa que
alegou ser o patrono de Jason.
Quando ele acabou, ninguém falou, o que fez ele se sentir mais aflito.
“Então isso acontece sempre?” ele perguntou. “Ligações sobrenaturais de
condenados exigindo que você os tire da cadeia?”
“Seu patrono,” Annabeth disse. “Não o seu pai olimpiano?”
“Não, ela disse patrono. Ela também disse que meu pai havia lhe dado a minha
vida.”
Annabeth franziu a sobrancelha. “Eu nunca ouvi falar de nada assim antes. Você
disse no céu que o espírito de tempestade — ele alegou estar trabalhando para alguma
mestra que estava dando ordens, certo? Pode ser essa mulher que você viu, bagunçando
sua mente?”
“Eu acho que não,” Jason disse. “Se ela fosse minha inimiga, ela estaria pedindo
pela minha ajuda? Ela está aprisionada. Ela está preocupada sobre algum inimigo se
fortalecendo. Algo sobre a ascensão de um rei da terra no solstício —”
Annabeth virou para Quíron. “Cronos não. Por favor, me diga que não é isso.”
O centauro parecia infeliz. Ele segurou o pulso de Piper, checando sua pulsação.
Finalmente ele disse, “Não é Cronos. Aquela ameaça está acabada. Mas...”
“Mas o quê?”
Quíron fechou a bolsa de remédios. “Piper precisa de descanso. Deveríamos
discutir isso depois.”
“Ou agora,” Jason disse. “Er, Sr. Quíron, você me disse que a ameaça maior
estava vindo. O último capítulo. Possivelmente você não pode querer dizer algo pior
que um exército de titãs, não é?”
“Ah,” Rachel disse numa voz baixa. “Ah, gente. A mulher era Hera. É claro. Seu
chalé, sua voz. Ela mostrou-se para Jason no mesmo momento.”
“Hera?” O rosnado de Annabeth foi até mais feroz do que o de Seymour. “Ela
trouxe você? Ela fez isso com Piper?”
“Eu acho que a Rachel está certa,” Jason disse. “A mulher parecia uma deusa. E
ela vestia isso — essa capa de pele de cabra. É um símbolo de Juno, né?”
“É?” Annabeth franziu a testa. “Eu nunca ouvi isso.”
Quíron assentiu com relutância. “De Juno, o aspecto romano de Hera, mas em
seu estado guerreiro. A capa de pele de cabra era um símbolo do soldado romano.”
“Então Hera está aprisionada?” Rachel perguntou. “Quem poderia fazer isso à
rainha dos deuses?”
Annabeth cruzou os braços. “Bem, quem quer que seja talvez devêssemos
agradecê-los. Se eles podem calar Hera —”
“Annabeth,” Quíron alertou, “ela ainda é uma dos olimpianos. De várias
maneiras, ela é a cola que mantém a família dos deuses unida. Se ela realmente foi presa
e está em perigo de destruição, isso poderia abalar os alicerces do mundo. Isso poderia
desafinar a estabilidade do Olimpo, o que não nunca é bom nem nos melhores
momentos. E se Hera pediu ajuda a Jason —”
“Certo,” Annabeth rosnou. “Bem, sabemos que os titãs podem capturar um deus,
né? Atlas capturou Ártemis alguns anos atrás. E nas histórias antigas, os deuses
capturavam um ao outro em armadilhas a toda hora. Mas algo pior que um titã...?”
Jason olhou para a cabeça de leopardo. Seymour estava saboreando os lábios
como se a deusa tivesse um sabor melhor que um biscoito. “Hera disse que esteve
tentando quebrar os grilhões da sua prisão por um mês.”
“Que é o tempo que o Olimpo foi fechado,” Annabeth disse. “Então os deuses
devem saber que algo ruim está acontecendo.”
“Mas por que usar sua energia para me enviar aqui?” Jason perguntou. “Ela
limpou minha memória, estatelou-me na excursão da Wilderness School, e mandou para
você uma visão de sonho para vir me pegar. Por que eu sou tão importante? Por que não
simplesmente mandar umas chamas de emergência para os outros deuses — deixá-los
saber onde ela está para que eles a libertem?”
“Os deuses precisam de heróis para fazer sua vontade aqui embaixo na terra,”
Rachel disse. “Está certo, né? Os destinos deles são sempre entrelaçados com
semideuses.”
“É verdade,” Annabeth disse, “mas Jason se lembrou de uma coisa importante.
Por que ele? Por que pegar a sua memória?”
“E Piper está envolvida de algum jeito,” Rachel disse. “Hera lhe mandou a
mesma mensagem — Me liberte. E, Annabeth, isso deve ter algo em relação ao
desaparecimento de Percy.”
Annabeth fixou os olhos em Quíron. “Por que você está tão quieto, Quíron? O
que é isso que estamos enfrentando?”
O rosto do velho centauro parecia que havia sido envelhecido em dez anos numa
questão de minutos. As linhas em torno dos seus olhos estavam profundamente
gravadas. “Minha querida, nisso, eu não posso lhe ajudar. Desculpe-me, mesmo.”
Annabeth pestanejou. “Você nunca... você nunca escondeu informações de mim.
Até a última grande profecia —”
“Estarei no meu escritório.” Sua voz estava pesada. “Preciso de algum tempo
para pensar antes do jantar. Rachel, você ficará observando a garota? Chame Argos para
trazê-la à enfermaria, se quiser. E Annabeth, você devia falar com Jason. Conte para ele
sobre — sobre os deuses gregos e romanos.”
“Mas...”
O centauro virou sua cadeira de rodas e a rolou para o corredor. Os olhos de
Annabeth ficaram coléricos. Ela murmurou algo em grego, e Jason teve o
pressentimento que não era elogioso para centauros.
“Desculpe-me,” Jason disse. “Acho que minha presença aqui — eu não sei. Eu
baguncei as coisas vindo para o acampamento, de algum jeito. Quíron disse que ele
declarou um juramento e não podia falar sobre isso.”
“Que juramento?” Annabeth perguntou. “Eu nunca vi ele agir assim. E por que
ele iria me dizer para eu lhe falar sobre os deuses...”
Sua voz morreu. Aparentemente ele notou a espada de Jason acomodada na
mesinha de café. Ela tocou a lâmina cuidadosamente, como se pudesse estar quente.
“É ouro?” ela disse. “Você lembra onde a conseguiu?”
“Não,” Jason disse. “Como disse, não me lembro de nada.”
Annabeth assentiu como se tivesse acabado de bolar um plano um pouco
desesperado. “Se Quíron não ajudará, temos que descobrir as coisas por nós mesmos. O
que significa... Chalé Quinze. Rachel, você vai ficar de olho na Piper?”
“Claro,” Rachel prometeu. “Boa sorte, vocês dois.”
“Espere,” Jason disse. “O que tem no Chalé Quinze?”
Annabeth ficou de pé. “Talvez um jeito de conseguir sua memória de volta.”
Eles foram em direção a uma ala mais nova de chalés no canto sudoeste do campo.
Alguns eram luxuosos, com paredes brilhantes ou tochas em chamas, mas o Chalé
Quinze não era tão dramático. Parecia uma casa de campo antiquada com paredes de
lama e um telhado ímpeto. Na porta havia pendurada uma coroa de flores carmesim —
papoulas vermelhas, Jason pensou, embora não tivesse certeza como sabia.
“Você acha que é o chalé do meu pai?” ele perguntou.
“Não,” Annabeth disse. “É o chalé para Hipnos, o deus do sono.”
“Então por quê —”
“Você esqueceu tudo,” ela disse. “Se há um deus que pode nos ajudar a
descobrir perda de memória, esse é Hipnos.”
Dentro, mesmo já estando quase na hora do jantar, três crianças soavam
adormecidas debaixo de pilhas de cobertas. Um fogo vivo estalava na lareira. Sobre a
cornija pendia um ramo de árvore, cada galho pingando líquido branco numa coleção de
vasos de estanho. Jason estava tentado a pegar uma gota no seu dedo só para ver o que
era, mas deteu-se.
Uma música suave de violino tocava de algum lugar. O ar cheirava como
lavanderia limpa. O chalé era tão aconchegante e pacífico que as pálpebras de Jason
começaram a se sentirem pesadas. Uma soneca parecia uma grande idéia. Ele estava
exausto. Havia várias camas vazias, todas com travesseiros de pena e lençóis limpos e
colchas fofas e — Annabeth o cutucou. “Sai dessa.”
Jason pestanejou. Ele percebeu que seus joelhos estavam começando a dobrar.
“O Chalé Quinze faz isso com todos,” Annabeth avisou. “Se você me perguntar,
esse lugar é ainda mais perigoso que o chalé de Ares. Pelo menos com Ares, você pode
aprender onde as minas terrestres estão.”
“Minas terrestres?”
Ela se aproximou a criança roncando mais próxima e balançou seu ombro.
“Clovis! Acorde!”
A criança parecia um bebê. Ele tinha um topete loiro numa cabeça em forma de
cunha, com feições grossas e um grande pescoço. Seu corpo era sólido, mas ele tinha
pequenos braços finos como se nunca houvesse levantado algo mais pesado que um
travesseiro.
“Clovis!” Annabeth balançou mais forte, então finalmente bateu na sua testa
aproximadamente seis vezes.
“O-o-o quê?” Clovis reclamou, sentando e apertando os olhos. Ele bocejou
imensamente, e Annabeth e Jason bocejaram também.
“Pare com isso!” Annabeth disse. “Precisamos de sua ajuda.”
“Eu estava dormindo.”
“Você sempre está dormindo.”
“Boa noite.”
Antes que ele pudesse adormecer, Annabeth puxou seu travesseiro da cama.
“Não é justo,” Clovis reclamou humildemente. “Devolva.”
“Primeiro ajuda,” Annabeth disse. “Depois dorme.”
Clovis suspirou. Sua respiração cheirava como leite quente. “Certo. O quê?”
Annabeth explicou sobre o problema de Jason. Ela estalava os dedos sob o nariz
de Clovis para mantê-lo acordado o tempo todo.
Clovis deve ter ficado realmente animado, porque quando Annabeth acabou ele
não dormiu. Ele na verdade levantou e esticou-se, então sorriu para Jason.
“Então você não se lembra de nada, hein?”
“Só impressões,” Jason disse. “Sensações, como...”
“Sim?” Clovis disse.
“Como eu sei que não devia estar aqui. Nesse acampamento. Estou em perigo.”
“Hum... Feche seus olhos.”
Jason olhou para Annabeth, mas ela assentiu de forma tranquilizadora.
Jason sentiu medo de acabar roncando em um dos beliches para sempre, mas ele
fechou os olhos. Seus pensamentos tornaram-se obscuros, como se ele estivesse
afundando num lago escuro.
A próxima coisa que ele sabia, seus olhos cederam. Ele estava numa cadeira pelo
fogo. Clovis e Annabeth ajoelharam-se do lado dele.
“— Sério, tudo bem,” Clovis estava falando.
“O que aconteceu?” Jason disse. “Quanto —”
“Só alguns minutos,” Annabeth disse. “Mas foi tenso. Você quase dissolveu.”
Jason esperou que ela tivesse dito literalmente, mas sua expressão estava séria.
“Geralmente,” Clovis disse, “memórias são perdidas por um bom motivo. Elas
afundam na superfície como sonhos, e com um bom sono, eu posso trazê-las de volta.
Mas isso...”
“Letes?” Annabeth perguntou.
“Não,” Clovis disse. “Nem Letes.”
“Letes?” Jason perguntou.
Clovis apontou para o ramo de árvore derramando gotas leitosas sobre a lareira.
“O Rio Letes no Mundo Inferior. Dissolve suas memórias, limpa sua mente
permanentemente. É o ramo de uma árvore de álamo do Mundo Inferior, mergulhada no
Letes. É o símbolo do meu pai, Hipnos. Letes não é um lugar que você queira nadar.”
Annabeth assentiu. “Percy foi lá uma vez. Ele me disse que é poderoso o
bastante para limpar a mente de um titã.”
Jason estava subitamente feliz por não ter tocado o ramo. “Mas... não é meu
problema?”
“Não,” Clovis concordou. “Sua mente não foi limpa, e suas memórias não foram
enterradas. Elas foram roubadas.”
O fogo estalou. Gotas da água do Letes gotejavam nos copos de estanho na
cornija. Um dos outros campistas do Hipnos murmurarou no sono — algo sobre um
pato.
“Roubadas,” Jason disse. “Como?”
“Um deus,” Clovis disse. “Só um deus teria esse tipo de poder.”
“Sabemos disso,” disse Jason. “Foi Juno. Mas como ela fez isso, e por quê?”
Clovis coçou o pescoço. “Juno?”
“Ele quer dizer Hera,” Annabeth disse. “Por algum motivo, Jason gosta dos
nomes romanos.”
“Hum,” Clovis disse.
“O quê?” Jason perguntou. “Significa algo?”
“Hum,” Clovis disse novamente, e dessa vez Jason percebeu que ele estava
roncando.
“Clovis!” ele gritou.
“O quê? O quê?” Seus olhos alargaram-se. “Estávamos falando sobre
travesseiros, certo? Não, deuses. Eu lembro. Gregos e romanos. Certo, pode ser
importante.”
“Mas eles são os mesmos deuses,” Annabeth disse. “Apenas com nomes
diferentes.”
“Não exatamente,” Clovis disse.
Jason sentou-se, agora muito mais acordado. “O que você quer dizer, não
exatamente?”
“Bem...” Clovis bocejou. “Alguns deuses são apenas romanos. Como Jano, ou
Pomona. Mas até os maiores deuses gregos — não foi só o nome deles que mudou
quando se moveram para Roma. Suas aparências mudaram. Seus atributos mudaram.
Eles até tiveram personalidades levemente diferentes.”
“Mas...” Annabeth vacilou. “Ok, então talvez as pessoas os viram
diferentemente através dos séculos. Isso não muda quem eles são.”
“Com certeza sim.” Clovis começou a adormecer, e Jason estalou os dedos sob
seu nariz.
“Estou indo, mãe!” ele gritou. “Digo... Sim, estou acordado. Então, hã,
personalidades. Os deuses mudam para refletir às suas culturas locais. Você sabe disso,
Annabeth. Digo, nesses dias, Zeus gosta de ternos feitos por alfaiates, realidade na
televisão, e aquele restaurante de comida chinesa na Rua Vigésima-oitava leste, certo?
Era o mesmo nos tempos romanos, e os deuses eram romanos tanto quanto eles eram
gregos. Era um grande império, conservado por séculos. Então naturalmente os seus
aspectos romanos ainda são uma grande parte de se caráter.”
“Faz sentido,” Jason disse.
Annabeth balançou a cabeça, iludida. “Mas como você sabe isso tudo, Clovis?”
“Ah, eu gasto muito tempo sonhando. Eu vejo deuses neles o tempo todo —
sempre mudando de forma. Sonhos são fluidos, você sabe. Você pode estar em lugares
diferentes de uma só vez, sempre mudando identidades. É como ser um deus, na
verdade. Como recentemente, eu sonhei que estava assistindo uma apresentação do
Michael Jackson, e então eu estava no palco com Michael Jackson, e estávamos
cantando essa música, e eu não conseguia lembrar as palavras para ‘The Girl Is Mine.’
Ah, gente, foi tão embaraçoso, eu —”
“Clovis,” Annabeth interrompeu. “De volta a Roma?”
“Certo, Roma,” Clovis disse. “Assim nós chamamos os deuses pelos seus nomes
gregos porque são as suas formas originais. Mas dizer que seus aspectos romanos são
exatamente o mesmo — isso não é verdade. Em Roma, eles se tornaram mais militares.
Eles não se misturavam muito com mortais. Eles eram severos, mais poderosos — os
deuses de um império.”
“Como o lado negro dos deuses?” Annabeth perguntou.
“Não exatamente,” Clovis disse. “Eles erguiam-se para a disciplina, honra, força
—”
“Coisas boas, então,” Jason disse. Por algum motivo, ele sentia a necessidade de
falar pelos deuses romanos, embora não tivesse certeza do que isso importava para ele.
“Digo, disciplina é importante, certo? É o que fez Roma continuar por tanto tempo.”
Clovis lhe deu um olhar curioso. “É verdade. Mas os deuses romanos não eram
muito amigáveis. Por exemplo, meu pai, Hipnos... ele não fazia muito a não ser dormir
nos tempos gregos. Nos tempos romanos, eles o chamavam de Somnus. Ele gostava de
matar as pessoas que não ficavam alerta aos seus trabalhos. Se eles adormecessem na
hora errada, bum — eles nunca acordariam. Ele matou o piloto de Enéias quando eles
estavam saindo a barco de Troia.”
“Cara legal,” Annabeth disse. “mas eu ainda não entendo o que isso tem a ver
com Jason.”
“Nem eu,” Clovis disse. “Mas se Hera pegou suas memórias, só ela pode
devolvê-las. E se eu tivesse que encontrar a rainha dos deuses, eu esperaria que ela
estivesse mais num ânimo Hera do que num ânimo Juno. Posso voltar a dormir agora?”
Annabeth olhou para o ramo sobre o fogo, pingando água do Letes nos vasos.
Ela parecia tão preocupada, Jason queria saber se ela estava considerando uma bebida
para esquecer seus problemas. Então ela levantou e jogou para Clovis seu travesseiro.
“Obrigada, Clovis. Vemos você no jantar.”
“Posso ter serviço de quarto?” Clovis bocejou e topou-se no seu beliche. “Me
sinto meio... zzzz...” Ele caiu com sua cabeçada no ar e seu rosto enterrou-se no
travesseiro.
“Ele não vai sufocar?” Jason perguntou.
“Ele ficará bem,” Annabeth disse. “Mas estou começando a achar que você está
em sérios problemas.”
Capítulo Sete - O Herói Perdido
VII
Jason
ASSIM QUE JASON VIU A CASA, ele soube que era um homem morto.
“Aqui estamos nós!” Drew disse alegremente. “A Casa Grande, quartel-general
do acampamento.”
Ela não parecia ameaçadora, só uma mansão de quatro andares pintada de azul
bebê com acabamento branco. A varanda tinha cadeiras de descanso, uma mesa de
cartas, e uma cadeira de rodas vazia. Sinos de vento formavam ninfas se transformando
em árvores quando batiam. Jason podia imaginar velhinhos vindo aqui para férias de
verão, sentados na varanda e bebendo suco de ameixa enquanto assistiam o pôr-do-sol.
Entretanto, as janelas pareciam olhar para ele como olhos irritados. A grande entrada
parecia pronta para engoli-lo. Na aresta mais alta, um cata-vento de uma águia de
bronze girava no ar e apontava direto na sua direção, como se dissesse para ele dar
meia-volta.
Cada molécula no corpo de Jason lhe disse que ele estava em território inimigo.
“Eu não devia estar aqui,” ele disse.
Drew enroscou seu braço no dele. “Ah, por favor. Você é perfeito aqui, querido.
Acredite em mim, eu já vi vários heróis.”
Drew cheirava como o Natal — uma estranha combinação de pinheiro e nozmoscada.
Jason queria saber se ela sempre cheirava assim, ou se era algum tipo de
perfume especial para os feriados. Seu delineador rosa era realmente distrativo. Toda
hora que ela piscava, ele se sentia obrigado a olhar para ela. Talvez aquele fosse seu
objetivo, exibir seus belos olhos castanhos. Ela era linda. Sem nenhuma dúvida disso.
Mas ela fez Jason se sentir desconfortável.
Ele puxou seu braço do modo mais gentil que pôde. “Olhe, eu prezo —”
“É aquela garota?” Drew fez beiço. “Ah, por favor, me diga que você não está
namorando a Rainha do Lixo.”
“Você quer dizer Piper? Hã...”
Jason não sabia como responder. Ele nem pensava se vira Piper mais cedo, mas
ele se sentia estranhamente culpado por isso. Ele sabia que não deveria estar nesse
lugar. Ele não devia fazer amizade com essas pessoas, e certamente ele não deveria
namorar nenhuma delas. Entretanto... Piper estivera segurando sua mão quando ele
acordou naquele ônibus. Ela acreditava que era sua namorada. Ela estivera brava no céu,
lutando com aqueles ventus, e quando Jason a pegara no meio do ar e eles se seguraram
cara-a-cara, ele não podia fingir que ele não estava um pouco tentado a beijá-la. Mas
aquilo não estava certo. Ele nem sabia sua própria história. Ele não podia trocar
emoções com ela assim.
Drew rolou os olhos. “Deixe-me te ajudar a decidir, querido. Você merece coisa
melhor. Um garoto com o seu rosto e talento óbvio?”
Ela não estava olhando para ele, porém. Ela estava olhando para um local bem
acima da sua cabeça.
“Você está esperando um sinal,” ele supôs. “Como aquele sobre a cabeça do
Leo.”
“O quê? Não! Bem... sim. Digo, do que ouvi você é bastante poderoso, certo?
Você vai ser importante no acampamento, então calculo que seu pai irá lhe reclamar a
qualquer momento. E eu amaria ver isso. Eu quero estar com você a cada passo do
caminho! Então é seu pai ou sua mãe o deus? Por favor, me diga que não é sua mãe. Eu
odiaria se você fosse um filho de Afrodite.”
“Por quê?”
“Porque você seria meu meio-irmão, bobo. Você não pode ficar com alguém do
seu próprio chalé. Eca!”
“Mas todos os deuses não são relacionados?” Jason perguntou. “Então todos
aqui não são seus primos ou alguma coisa?”
“Como você é fofo! Querido, o lado divino da sua família não conta, exceto pelo
seu pai. Então qualquer um de outro chalé — eles são jogo limpo. Então quem é seu
parente olimpiano — mãe ou pai?”
Como sempre, Jason não tinha uma resposta. Ele ergueu os olhos, mas nenhum
sinal brilhante apareceu sobre sua cabeça. No topo da Casa Grande, o cata-vento ainda
estava apontando na sua direção, aquela águia de bronze olhando como se falasse, Dê
meia-volta, criança, enquanto ainda pode.
Então ele ouviu passos na varanda da frente. Não — não passos — cascos.
“Quíron!” Drew chamou. “Esse é Jason. Ele é totalmente incrível!”
Jason recuou tão rápido que ele quase caiu. Contornando o canto da varanda
estava um homem nas costas de um cavalo. Exceto que ele não estava nas costas do
cavalo — ele era parte de um. Da cintura para cima ele era humano, com cacheados
cabelos castanho e uma barba bem-cortada. Ele vestia uma camiseta que dizia Melhor
Centauro do Mundo, e tinha um arco e uma aljava amarrados nas costas. Sua cabeça era
tão alta que ele precisava se abaixar para não bater nas luzes da varanda, porque da
cintura para baixo, ele era um garanhão branco.
Quíron começou a sorrir para Jason. Então a cor drenou do seu rosto.
“Você...” Os olhos do centauro arregalaram-se como os de um animal sendo
apertado. “Você devia estar morto.”
* * *
Quíron ordenou Jason — bem, convidou, mas soou como uma ordem — a entrar
na casa. Ele falou para Drew voltar ao seu chalé, o que fez Drew não parecer feliz.
O centauro trotou para a cadeira de rodas vazia na varanda. Ele se desfez da sua
aljava e arco e recuou-se na cadeira, que abriu como uma caixa de mágica. Quíron
cuidadosamente abaixou-se nela com suas pernas traseiras e começou a se apertar num
espaço que devia ser muito pequeno. Jason imaginou barulhos inversos de um caminhão
— bip, bip, bip — enquanto a metade de baixo do centauro desaparecia e a cadeira
ajustou-se, fazendo aparecer um conjunto de pernas humanas falsas cobertas por um
cobertor, de forma que Quíron parecia ser um mortal normal numa cadeira de rodas.
“Siga-me,” ele ordenou. “Temos limonada.”
A sala de estar parecia que fora reprimida por uma floresta tropical. Videiras
curvavam-se pelas paredes e pelo teto, o que Jason achou um pouco estranho. Ele não
achava que plantas crescessem assim, do lado de dentro, especialmente no inverno, mas
essas eram frondosas e verdes e cheias de cachos de uvas vermelhas.
Sofás de couro encaravam uma lareira de pedra com o fogo estalando. Apertado
num canto, um fliperama de Pacman antigo fazia bip e piscava. Montada nas paredes
havia uma coleção de máscaras — como de teatro grego, sorridentes/tristes, máscaras
Mardi Gras emplumadas, máscaras de carnevale venezianas com grandes narizes
parecidos com bicos, e máscaras esculpidas em madeira da África. Videiras cresciam
entre suas bocas parecendo que elas tinham línguas frondosas. Algumas tinham uvas
vermelhas inchando pelo buraco dos olhos.
Mas a coisa mais esquisita era a cabeça do leopardo estofado sobre a lareira.
Parecia tão real, seus olhos pareciam seguir Jason. Então ele rosnou, e Jason quase
saltou de sua pele.
“Ora, Seymour,” Quíron repreendeu. “Jason é um amigo. Comporte-se.”
“Essa coisa está viva!” Jason disse.
Quíron remexeu no bolso lateral da sua cadeira de rodas e tirou um pacote de
biscoitos. Ele jogou um para o leopardo, que o abocanhou e lambeu os lábios.
“Você precisa desculpar a decoração,” Quíron disse. “Tudo isso era um presente
de despedida do nosso antigo diretor antes de ser chamado ao Monte Olimpo. Ele achou
que iria nos ajudar a lembrá-lo. O Sr. D tem um senso de humor estranho.”
“Sr. D,” Jason disse. “Dioniso?”
“Uhhumm.” Quíron derramou limonada, embora suas mãos estivessem
tremendo um pouco. “Como por Seymour, bem, o Sr. D o liberou de uma venda de
garagem em Long Island. O leopardo é o animal sagrado de Dioniso, entende, e o Sr. D
ficou aterrorizado que alguém empalhasse tal nobre criatura. Ele decidiu concedê-lo a
vida, numa hipótese que a vida como uma cabeça pendurada era melhor do que
nenhuma vida, afinal. Devo dizer que é um destino mais bondoso do que o antigo dono
de Seymour teve.”
Seymour exibiu suas presas e cheirou o ar, como se procurasse mais biscoitos.
“Se ele é só uma cabeça,” Jason disse, “para onde vai à comida quando ele
come?”
“Melhor não perguntar,” Quíron disse. “Por favor, sente.”
Jason pegou um pouco de limonada, apesar de o seu estômago estar agitado.
Quíron reclinou-se na sua cadeira de rodas e tentou um sorriso, mas Jason podia dizer
que era forçado. Os olhos do velho homem eram tão profundos e escuros quanto poços.
“Então, Jason,” ele disse, “você se importaria caso me dissesse — er — de onde
você é?”
“Queria eu saber.” Jason lhe contou toda a história, de acordar no ônibus até cair
no Acampamento Meio-Sangue. Ele não escondeu nenhum detalhe, e Quíron era um
bom ouvinte. Ele não reagiu à história, nada a não ser assentir animadoramente por
mais.
Quando Jason acabou, o velho homem deu um gole na limonada.
“Entendo,” Quíron disse. “E você deve ter perguntas para mim.”
“Só uma,” Jason admitiu. “O que você quis dizer quando falou que eu deveria
estar morto?”
Quíron o estudou com preocupação, como se esperasse que Jason explodisse em
chamas. “Meu garoto, você sabe o que essas marcas no seu braço significam? A cor da
sua camisa? Você lembra de algo?”
Jason olhou para a tatuagem no seu antebraço: SPQR, a águia, vinte linhas retas.
“Não,” ele disse. “Nada.”
“Você sabe onde está?” Quíron perguntou. “Você entende o que esse lugar é, e
quem eu sou?”
“Você é o centauro Quíron,” Jason disse. “Suponho que seja o mesmo das
histórias antigas, que costumava treinar os heróis gregos como Hércules. Esse é um
acampamento para semideuses, filhos dos deuses olimpianos.”
“Então você acredita que esses deuses ainda existem?”
“Sim,” Jason disse imediatamente. “Digo, não acho que devíamos adorá-los ou
sacrificar galinhas por eles ou qualquer coisa, mas eles ainda estão por perto, pois são
uma poderosa parte da civilização. Eles vão de país em país conforme o centro do poder
se desloca — como eles foram da Grécia Antiga para Roma.”
“Não podia ter dito melhor.” Algo na voz de Quíron mudou. “Então você já
sabe que os deuses são reais. Você já foi reclamado, não foi?”
“Talvez,” Jason respondeu. “Não tenho total certeza.”
O leopardo Seymour rosnou.
Quíron esperou, e Jason percebeu o que acabara de acontecer. O centauro havia
mudado para outro idioma e Jason entendera automaticamente respondendo na mesma
língua.
“Quis erat —” Jason vacilou, então fez um esforço consciente para falar inglês.
“O que foi aquilo?”
“Você sabe Latim,” Quíron observou. “A maioria dos semideuses reconhecem
algumas frases, naturalmente. Está no sangue deles, mas não tanto quanto Grego
Antigo. Ninguém pode falar Latim fluentemente sem prática.”
Jason tentou envolver a mente no que aquilo significava, mas vários pedaços da
sua memória estavam perdidos. Ele ainda tinha a sensação que não deveria estar aqui.
Era errado — e perigoso. Mas pelo menos Quíron não metia medo. Na verdade o
centauro parecia preocupado com ele, com medo pela sua segurança.
O fogo refletia nos olhos de Quíron, fazendo-os dançar agastadamente. “Eu
ensinei o seu xará, você sabe, o Jasão original. Ele teve um caminho duro. Eu vi vários heróis ir e vir. Ocasionalmente, eles têm finais felizes. Na maior parte, não. Isso quebra
meu coração, é como perder um filho sempre que um dos meus pupilos morre. Mas
você — você não é como qualquer pupilo que eu já ensinei. Sua presença aqui poderia
ser um desastre.”
“Obrigado,” Jason disse. “Você deve ser um professor inspirador.”
“Desculpe meu garoto. Mas é verdade. Eu esperava que depois do sucesso de
Percy —”
“Percy Jackson, você se refere. O namorado de Annabeth, o que está sumido.”
Quíron assentiu. “Esperava que depois que ele tivesse sucesso na Guerra dos
Titãs e salvasse o Monte Olimpo, pudéssemos ter alguma paz. E eu poderia ser capaz de
desfrutar um triunfo final, um final feliz, e talvez uma retirada discreta. Eu devia ter me
informado melhor. O último capítulo se aproxima, assim como foi antes. O pior ainda
está por vir.”
No canto, o fliperama fez um triste som pa-pa-pa-pa, como se o Pacman tivesse
morrido.
“Ok...” Jason disse. “Então — último capítulo aconteceu antes, pior ainda por
vir. Soa divertido, mas podemos voltar à parte onde eu devia estar morto? Não gosto
dessa parte.”
“Tenho medo que não possa explicar meu garoto. Jurei pelo Rio Styx e por todas
as coisas sagradas que eu nunca...” Quíron franziu a testa. “Mas você está aqui, em
violação do mesmo juramento. Isso também, não deveria ser possível. Eu não entendo.
Quem faria tal coisa? Quem —”
O leopardo Seymour berrou. Sua boca congelou meio aberta. O fliperama parou
de fazer bip. O fogo parou de estalar, suas chamas endurecendo como vidro vermelho.
As máscaras olhavam para Jason silenciosamente com seus olhos de uva grotescos e
línguas frondosas.
“Quíron?” Jason perguntou. “O que está aconte...”
O velho centauro congelara, também. Jason pulou do sofá, mas Quíron
continuou olhando para o mesmo lugar, sua boca aberta no meio de uma afirmação.
Seus olhos não piscavam. Seu peito não se mexia.
Jason, uma voz disse.
Por um horrível momento, ele pensou que o leopardo falou. Então névoa escura
evaporou da boca do Seymour, e um pensamento ainda pior ocorreu a Jason: espíritos
de tempestade.Ele pegou a moeda de ouro do seu bolso. Com um rápido arremesso, ela se
transformou numa espada.
A névoa tomou a forma de uma mulher em robes negros. Seu rosto estava
encapuzado, mas seus olhos brilhavam na escuridão. Sobre seus ombros ela usava uma
capa de pele de cabra. Jason não tinha certeza de como sabia que era pele de cabra, mas
ele a reconheceu e sabia que era importante.
Você atacaria seu patrono? A mulher repreendeu. Sua voz ecoou na cabeça de
Jason. Abaixe sua espada.
“Quem é você?” ele exigiu. “Como você —”
Nosso tempo é limitado, Jason. Minha prisão cresce mais forte a cada hora. Me
tomou um mês inteiro para reunir energia o suficiente até para trabalhar com a menor
magia entre seus grilhões. Eu consegui trazer você aqui, mas agora não me resta muito
tempo, e até menos energia. Essa pode ser a última vez que eu fale com você.
“Você está numa prisão?” Jason decidiu que talvez ele não baixasse sua espada.
“Olhe, eu não te conheço, e você não é meu patrono.”
Você me conhece, ela insistiu. Eu conheço você desde o seu nascimento.
“Eu não lembro. Eu não me lembro de nada.”
Não, você não lembra, ela concordou. Isso também foi necessário. Tempos
atrás, seu pai me deu sua vida como presente para apaziguar minha raiva. Ele lhe
nomeou como Jason, por causa do meu mortal favorito. Você pertence a mim.
“Uou,” Jason disse. “Eu não pertenço a ninguém.”
Agora é a hora de pagar sua dívida, ela disse. Encontre minha prisão. Liberteme,
ou o rei deles irá erguer-se da terra, e eu serei destruída. Você nunca reaverá sua
memória.
“É uma ameaça? Você pegou minhas memórias?”
Você tem até o pôr-do-sol no solstício, Jason. Quatro pequenos dias. Não me
falhe.
A mulher obscura se dissolveu, e a névoa girou para a boca do leopardo.
O tempo descongelou. O berro do Seymour veio numa tosse como se tivesse
engolido uma bola de pelos. O fogo estalou para a vida, o fliperama fez bip, e Quíron
disse, “— ousaria trazer-lhe aqui?”
“Provavelmente a mulher na névoa,” Jason propôs.
Quíron olhou em surpresa. “Você não estava sentado... por que você tem uma
espada na mão?”
“Odeio lhe dizer isso,” Jason disse, “mas eu acho que seu leopardo comeu uma
deusa.”
Ele contou para Quíron sobre a visita congelada-no-tempo, a obscura figura
nevoenta que desapareceu na boca de Seymour.
“Ah, meu caro,” Quíron murmurou. “Isso explica muito.”
“Então por que você não explica muito para mim?” Jason disse. “Por favor.”
Antes que Quíron pudesse dizer alguma coisa, passos ecoaram na varanda do
lado de fora. A porta da frente abriu com uma batida, e Annabeth e outra garota, uma
ruiva, entraram explodindo, arrastando Piper entre elas. A cabeça de Piper folgava como
se estivesse inconsciente.
“O que aconteceu?” Jason apressou-se. “O que há de errado com ela?”
“Chalé de Hera,” Annabeth ofegou, como se tivessem corrido por todo o
caminho. “Visão. Mau.”
A garota ruiva olhou para cima, e Jason viu que ela estava chorando.
“Eu acho...” A garota ruiva tragou. “Eu acho que posso ter matado ela.”
Jason
ASSIM QUE JASON VIU A CASA, ele soube que era um homem morto.
“Aqui estamos nós!” Drew disse alegremente. “A Casa Grande, quartel-general
do acampamento.”
Ela não parecia ameaçadora, só uma mansão de quatro andares pintada de azul
bebê com acabamento branco. A varanda tinha cadeiras de descanso, uma mesa de
cartas, e uma cadeira de rodas vazia. Sinos de vento formavam ninfas se transformando
em árvores quando batiam. Jason podia imaginar velhinhos vindo aqui para férias de
verão, sentados na varanda e bebendo suco de ameixa enquanto assistiam o pôr-do-sol.
Entretanto, as janelas pareciam olhar para ele como olhos irritados. A grande entrada
parecia pronta para engoli-lo. Na aresta mais alta, um cata-vento de uma águia de
bronze girava no ar e apontava direto na sua direção, como se dissesse para ele dar
meia-volta.
Cada molécula no corpo de Jason lhe disse que ele estava em território inimigo.
“Eu não devia estar aqui,” ele disse.
Drew enroscou seu braço no dele. “Ah, por favor. Você é perfeito aqui, querido.
Acredite em mim, eu já vi vários heróis.”
Drew cheirava como o Natal — uma estranha combinação de pinheiro e nozmoscada.
Jason queria saber se ela sempre cheirava assim, ou se era algum tipo de
perfume especial para os feriados. Seu delineador rosa era realmente distrativo. Toda
hora que ela piscava, ele se sentia obrigado a olhar para ela. Talvez aquele fosse seu
objetivo, exibir seus belos olhos castanhos. Ela era linda. Sem nenhuma dúvida disso.
Mas ela fez Jason se sentir desconfortável.
Ele puxou seu braço do modo mais gentil que pôde. “Olhe, eu prezo —”
“É aquela garota?” Drew fez beiço. “Ah, por favor, me diga que você não está
namorando a Rainha do Lixo.”
“Você quer dizer Piper? Hã...”
Jason não sabia como responder. Ele nem pensava se vira Piper mais cedo, mas
ele se sentia estranhamente culpado por isso. Ele sabia que não deveria estar nesse
lugar. Ele não devia fazer amizade com essas pessoas, e certamente ele não deveria
namorar nenhuma delas. Entretanto... Piper estivera segurando sua mão quando ele
acordou naquele ônibus. Ela acreditava que era sua namorada. Ela estivera brava no céu,
lutando com aqueles ventus, e quando Jason a pegara no meio do ar e eles se seguraram
cara-a-cara, ele não podia fingir que ele não estava um pouco tentado a beijá-la. Mas
aquilo não estava certo. Ele nem sabia sua própria história. Ele não podia trocar
emoções com ela assim.
Drew rolou os olhos. “Deixe-me te ajudar a decidir, querido. Você merece coisa
melhor. Um garoto com o seu rosto e talento óbvio?”
Ela não estava olhando para ele, porém. Ela estava olhando para um local bem
acima da sua cabeça.
“Você está esperando um sinal,” ele supôs. “Como aquele sobre a cabeça do
Leo.”
“O quê? Não! Bem... sim. Digo, do que ouvi você é bastante poderoso, certo?
Você vai ser importante no acampamento, então calculo que seu pai irá lhe reclamar a
qualquer momento. E eu amaria ver isso. Eu quero estar com você a cada passo do
caminho! Então é seu pai ou sua mãe o deus? Por favor, me diga que não é sua mãe. Eu
odiaria se você fosse um filho de Afrodite.”
“Por quê?”
“Porque você seria meu meio-irmão, bobo. Você não pode ficar com alguém do
seu próprio chalé. Eca!”
“Mas todos os deuses não são relacionados?” Jason perguntou. “Então todos
aqui não são seus primos ou alguma coisa?”
“Como você é fofo! Querido, o lado divino da sua família não conta, exceto pelo
seu pai. Então qualquer um de outro chalé — eles são jogo limpo. Então quem é seu
parente olimpiano — mãe ou pai?”
Como sempre, Jason não tinha uma resposta. Ele ergueu os olhos, mas nenhum
sinal brilhante apareceu sobre sua cabeça. No topo da Casa Grande, o cata-vento ainda
estava apontando na sua direção, aquela águia de bronze olhando como se falasse, Dê
meia-volta, criança, enquanto ainda pode.
Então ele ouviu passos na varanda da frente. Não — não passos — cascos.
“Quíron!” Drew chamou. “Esse é Jason. Ele é totalmente incrível!”
Jason recuou tão rápido que ele quase caiu. Contornando o canto da varanda
estava um homem nas costas de um cavalo. Exceto que ele não estava nas costas do
cavalo — ele era parte de um. Da cintura para cima ele era humano, com cacheados
cabelos castanho e uma barba bem-cortada. Ele vestia uma camiseta que dizia Melhor
Centauro do Mundo, e tinha um arco e uma aljava amarrados nas costas. Sua cabeça era
tão alta que ele precisava se abaixar para não bater nas luzes da varanda, porque da
cintura para baixo, ele era um garanhão branco.
Quíron começou a sorrir para Jason. Então a cor drenou do seu rosto.
“Você...” Os olhos do centauro arregalaram-se como os de um animal sendo
apertado. “Você devia estar morto.”
* * *
Quíron ordenou Jason — bem, convidou, mas soou como uma ordem — a entrar
na casa. Ele falou para Drew voltar ao seu chalé, o que fez Drew não parecer feliz.
O centauro trotou para a cadeira de rodas vazia na varanda. Ele se desfez da sua
aljava e arco e recuou-se na cadeira, que abriu como uma caixa de mágica. Quíron
cuidadosamente abaixou-se nela com suas pernas traseiras e começou a se apertar num
espaço que devia ser muito pequeno. Jason imaginou barulhos inversos de um caminhão
— bip, bip, bip — enquanto a metade de baixo do centauro desaparecia e a cadeira
ajustou-se, fazendo aparecer um conjunto de pernas humanas falsas cobertas por um
cobertor, de forma que Quíron parecia ser um mortal normal numa cadeira de rodas.
“Siga-me,” ele ordenou. “Temos limonada.”
A sala de estar parecia que fora reprimida por uma floresta tropical. Videiras
curvavam-se pelas paredes e pelo teto, o que Jason achou um pouco estranho. Ele não
achava que plantas crescessem assim, do lado de dentro, especialmente no inverno, mas
essas eram frondosas e verdes e cheias de cachos de uvas vermelhas.
Sofás de couro encaravam uma lareira de pedra com o fogo estalando. Apertado
num canto, um fliperama de Pacman antigo fazia bip e piscava. Montada nas paredes
havia uma coleção de máscaras — como de teatro grego, sorridentes/tristes, máscaras
Mardi Gras emplumadas, máscaras de carnevale venezianas com grandes narizes
parecidos com bicos, e máscaras esculpidas em madeira da África. Videiras cresciam
entre suas bocas parecendo que elas tinham línguas frondosas. Algumas tinham uvas
vermelhas inchando pelo buraco dos olhos.
Mas a coisa mais esquisita era a cabeça do leopardo estofado sobre a lareira.
Parecia tão real, seus olhos pareciam seguir Jason. Então ele rosnou, e Jason quase
saltou de sua pele.
“Ora, Seymour,” Quíron repreendeu. “Jason é um amigo. Comporte-se.”
“Essa coisa está viva!” Jason disse.
Quíron remexeu no bolso lateral da sua cadeira de rodas e tirou um pacote de
biscoitos. Ele jogou um para o leopardo, que o abocanhou e lambeu os lábios.
“Você precisa desculpar a decoração,” Quíron disse. “Tudo isso era um presente
de despedida do nosso antigo diretor antes de ser chamado ao Monte Olimpo. Ele achou
que iria nos ajudar a lembrá-lo. O Sr. D tem um senso de humor estranho.”
“Sr. D,” Jason disse. “Dioniso?”
“Uhhumm.” Quíron derramou limonada, embora suas mãos estivessem
tremendo um pouco. “Como por Seymour, bem, o Sr. D o liberou de uma venda de
garagem em Long Island. O leopardo é o animal sagrado de Dioniso, entende, e o Sr. D
ficou aterrorizado que alguém empalhasse tal nobre criatura. Ele decidiu concedê-lo a
vida, numa hipótese que a vida como uma cabeça pendurada era melhor do que
nenhuma vida, afinal. Devo dizer que é um destino mais bondoso do que o antigo dono
de Seymour teve.”
Seymour exibiu suas presas e cheirou o ar, como se procurasse mais biscoitos.
“Se ele é só uma cabeça,” Jason disse, “para onde vai à comida quando ele
come?”
“Melhor não perguntar,” Quíron disse. “Por favor, sente.”
Jason pegou um pouco de limonada, apesar de o seu estômago estar agitado.
Quíron reclinou-se na sua cadeira de rodas e tentou um sorriso, mas Jason podia dizer
que era forçado. Os olhos do velho homem eram tão profundos e escuros quanto poços.
“Então, Jason,” ele disse, “você se importaria caso me dissesse — er — de onde
você é?”
“Queria eu saber.” Jason lhe contou toda a história, de acordar no ônibus até cair
no Acampamento Meio-Sangue. Ele não escondeu nenhum detalhe, e Quíron era um
bom ouvinte. Ele não reagiu à história, nada a não ser assentir animadoramente por
mais.
Quando Jason acabou, o velho homem deu um gole na limonada.
“Entendo,” Quíron disse. “E você deve ter perguntas para mim.”
“Só uma,” Jason admitiu. “O que você quis dizer quando falou que eu deveria
estar morto?”
Quíron o estudou com preocupação, como se esperasse que Jason explodisse em
chamas. “Meu garoto, você sabe o que essas marcas no seu braço significam? A cor da
sua camisa? Você lembra de algo?”
Jason olhou para a tatuagem no seu antebraço: SPQR, a águia, vinte linhas retas.
“Não,” ele disse. “Nada.”
“Você sabe onde está?” Quíron perguntou. “Você entende o que esse lugar é, e
quem eu sou?”
“Você é o centauro Quíron,” Jason disse. “Suponho que seja o mesmo das
histórias antigas, que costumava treinar os heróis gregos como Hércules. Esse é um
acampamento para semideuses, filhos dos deuses olimpianos.”
“Então você acredita que esses deuses ainda existem?”
“Sim,” Jason disse imediatamente. “Digo, não acho que devíamos adorá-los ou
sacrificar galinhas por eles ou qualquer coisa, mas eles ainda estão por perto, pois são
uma poderosa parte da civilização. Eles vão de país em país conforme o centro do poder
se desloca — como eles foram da Grécia Antiga para Roma.”
“Não podia ter dito melhor.” Algo na voz de Quíron mudou. “Então você já
sabe que os deuses são reais. Você já foi reclamado, não foi?”
“Talvez,” Jason respondeu. “Não tenho total certeza.”
O leopardo Seymour rosnou.
Quíron esperou, e Jason percebeu o que acabara de acontecer. O centauro havia
mudado para outro idioma e Jason entendera automaticamente respondendo na mesma
língua.
“Quis erat —” Jason vacilou, então fez um esforço consciente para falar inglês.
“O que foi aquilo?”
“Você sabe Latim,” Quíron observou. “A maioria dos semideuses reconhecem
algumas frases, naturalmente. Está no sangue deles, mas não tanto quanto Grego
Antigo. Ninguém pode falar Latim fluentemente sem prática.”
Jason tentou envolver a mente no que aquilo significava, mas vários pedaços da
sua memória estavam perdidos. Ele ainda tinha a sensação que não deveria estar aqui.
Era errado — e perigoso. Mas pelo menos Quíron não metia medo. Na verdade o
centauro parecia preocupado com ele, com medo pela sua segurança.
O fogo refletia nos olhos de Quíron, fazendo-os dançar agastadamente. “Eu
ensinei o seu xará, você sabe, o Jasão original. Ele teve um caminho duro. Eu vi vários heróis ir e vir. Ocasionalmente, eles têm finais felizes. Na maior parte, não. Isso quebra
meu coração, é como perder um filho sempre que um dos meus pupilos morre. Mas
você — você não é como qualquer pupilo que eu já ensinei. Sua presença aqui poderia
ser um desastre.”
“Obrigado,” Jason disse. “Você deve ser um professor inspirador.”
“Desculpe meu garoto. Mas é verdade. Eu esperava que depois do sucesso de
Percy —”
“Percy Jackson, você se refere. O namorado de Annabeth, o que está sumido.”
Quíron assentiu. “Esperava que depois que ele tivesse sucesso na Guerra dos
Titãs e salvasse o Monte Olimpo, pudéssemos ter alguma paz. E eu poderia ser capaz de
desfrutar um triunfo final, um final feliz, e talvez uma retirada discreta. Eu devia ter me
informado melhor. O último capítulo se aproxima, assim como foi antes. O pior ainda
está por vir.”
No canto, o fliperama fez um triste som pa-pa-pa-pa, como se o Pacman tivesse
morrido.
“Ok...” Jason disse. “Então — último capítulo aconteceu antes, pior ainda por
vir. Soa divertido, mas podemos voltar à parte onde eu devia estar morto? Não gosto
dessa parte.”
“Tenho medo que não possa explicar meu garoto. Jurei pelo Rio Styx e por todas
as coisas sagradas que eu nunca...” Quíron franziu a testa. “Mas você está aqui, em
violação do mesmo juramento. Isso também, não deveria ser possível. Eu não entendo.
Quem faria tal coisa? Quem —”
O leopardo Seymour berrou. Sua boca congelou meio aberta. O fliperama parou
de fazer bip. O fogo parou de estalar, suas chamas endurecendo como vidro vermelho.
As máscaras olhavam para Jason silenciosamente com seus olhos de uva grotescos e
línguas frondosas.
“Quíron?” Jason perguntou. “O que está aconte...”
O velho centauro congelara, também. Jason pulou do sofá, mas Quíron
continuou olhando para o mesmo lugar, sua boca aberta no meio de uma afirmação.
Seus olhos não piscavam. Seu peito não se mexia.
Jason, uma voz disse.
Por um horrível momento, ele pensou que o leopardo falou. Então névoa escura
evaporou da boca do Seymour, e um pensamento ainda pior ocorreu a Jason: espíritos
de tempestade.Ele pegou a moeda de ouro do seu bolso. Com um rápido arremesso, ela se
transformou numa espada.
A névoa tomou a forma de uma mulher em robes negros. Seu rosto estava
encapuzado, mas seus olhos brilhavam na escuridão. Sobre seus ombros ela usava uma
capa de pele de cabra. Jason não tinha certeza de como sabia que era pele de cabra, mas
ele a reconheceu e sabia que era importante.
Você atacaria seu patrono? A mulher repreendeu. Sua voz ecoou na cabeça de
Jason. Abaixe sua espada.
“Quem é você?” ele exigiu. “Como você —”
Nosso tempo é limitado, Jason. Minha prisão cresce mais forte a cada hora. Me
tomou um mês inteiro para reunir energia o suficiente até para trabalhar com a menor
magia entre seus grilhões. Eu consegui trazer você aqui, mas agora não me resta muito
tempo, e até menos energia. Essa pode ser a última vez que eu fale com você.
“Você está numa prisão?” Jason decidiu que talvez ele não baixasse sua espada.
“Olhe, eu não te conheço, e você não é meu patrono.”
Você me conhece, ela insistiu. Eu conheço você desde o seu nascimento.
“Eu não lembro. Eu não me lembro de nada.”
Não, você não lembra, ela concordou. Isso também foi necessário. Tempos
atrás, seu pai me deu sua vida como presente para apaziguar minha raiva. Ele lhe
nomeou como Jason, por causa do meu mortal favorito. Você pertence a mim.
“Uou,” Jason disse. “Eu não pertenço a ninguém.”
Agora é a hora de pagar sua dívida, ela disse. Encontre minha prisão. Liberteme,
ou o rei deles irá erguer-se da terra, e eu serei destruída. Você nunca reaverá sua
memória.
“É uma ameaça? Você pegou minhas memórias?”
Você tem até o pôr-do-sol no solstício, Jason. Quatro pequenos dias. Não me
falhe.
A mulher obscura se dissolveu, e a névoa girou para a boca do leopardo.
O tempo descongelou. O berro do Seymour veio numa tosse como se tivesse
engolido uma bola de pelos. O fogo estalou para a vida, o fliperama fez bip, e Quíron
disse, “— ousaria trazer-lhe aqui?”
“Provavelmente a mulher na névoa,” Jason propôs.
Quíron olhou em surpresa. “Você não estava sentado... por que você tem uma
espada na mão?”
“Odeio lhe dizer isso,” Jason disse, “mas eu acho que seu leopardo comeu uma
deusa.”
Ele contou para Quíron sobre a visita congelada-no-tempo, a obscura figura
nevoenta que desapareceu na boca de Seymour.
“Ah, meu caro,” Quíron murmurou. “Isso explica muito.”
“Então por que você não explica muito para mim?” Jason disse. “Por favor.”
Antes que Quíron pudesse dizer alguma coisa, passos ecoaram na varanda do
lado de fora. A porta da frente abriu com uma batida, e Annabeth e outra garota, uma
ruiva, entraram explodindo, arrastando Piper entre elas. A cabeça de Piper folgava como
se estivesse inconsciente.
“O que aconteceu?” Jason apressou-se. “O que há de errado com ela?”
“Chalé de Hera,” Annabeth ofegou, como se tivessem corrido por todo o
caminho. “Visão. Mau.”
A garota ruiva olhou para cima, e Jason viu que ela estava chorando.
“Eu acho...” A garota ruiva tragou. “Eu acho que posso ter matado ela.”
Capítulo Seis - O Herói Perdido
VI
Leo
“COMO ELE MORREU?” LEO PERGUNTOU. “Digo, Beckendorf.”
Will Solace marchou em frente. “Explosão. Beckendorf e Percy Jackson
explodiram um cruzeiro cheio de monstros. Beckendorf não teve sucesso.”
Lá estava aquele nome novamente — Percy Jackson, o namorado desaparecido
de Annabeth. O cara deve estar em todas por aqui, Leo pensou.
“Então Beckendorf era muito popular?” Leo perguntou. “Digo — antes de
explodir?”
“Ele era impressionante,” Will concordou. “Foi difícil para todo o acampamento
quando ele morreu. Jake — ele se tornou conselheiro no meio da guerra. Do mesmo
jeito que eu, na verdade. Jake deu seu melhor, mas ele nunca quis ser líder. Ele só vive
construindo coisas. Então depois da guerra, as coisas começaram a dar errado. As bigas
do Chalé Nove explodiram. Seus autômatos ficaram loucos. Suas invenções começaram
a dar problemas. Era como uma maldição, e no fim as pessoas começaram a chamar isso
assim — a Maldição do Chalé Nove. Então Jake teve seu acidente —”
“Que tinha algo a ver com o problema que ele mencionou,” Leo supôs.
“Eles estão trabalhando nisso,” Will disse sem entusiasmo. “E aqui estamos
nós.”
A forja parecia uma locomotiva movida a vapor que batera no Partenon grego e
se fundiram. Colunas brancas de mármore alinhavam as paredes manchadas de fuligem.
Chaminés lançavam fumaça sobre uma falsificação elaborada com um grupo de deuses
e monstros. A estrutura estava no canto de um canal, com várias turbinas girando uma
série de engrenagens de bronze. Leo ouviu maquinaria opressiva dentro, chamas
crepitando e martelos batendo em bigornas.
Eles passaram pela entrada, e uma dúzia de garotos e garotas que estavam
trabalhando em vários projetos congelaram. O barulho morreu sob o ruído da forja e do
click-click-click de engrenagens e alavancas.
“E aí, galera,” Will disse. “Esse é o novo irmão de vocês, Leo — hã, qual é o seu
sobrenome?”
“Valdez.” Leo percorreu os olhos pelos outros campistas. Ele realmente era
relacionado com todos eles? Seus primos vieram de algumas grandes famílias, mas ele
sempre teve apenas sua mãe — até ela morrer.
Crianças subiram e começaram a apertar mãos e apresentarem-se. Seus nomes se
misturaram juntos: Shane, Christopher, Nyssa, Harley (é, como a moto). Leo sabia que
não podia decorar todos eles. Eram muitos. Muita pressão.
Nenhum deles se parecia um com os outros — rostos de todos os diferentes
tipos, tons de pele, cor do cabelo, altura. Você nunca pensaria, Ei, olha, é a turma de
Hefesto!
Mas todos eles tinham mãos poderosas, tomadas com calos e manchadas com
graxa de motor. Até o pequeno Harley, que não devia ter mais que oito anos, parecia
que podia ir a seis rounds contra Chuck Norris sem suar.
E todas as crianças compartilhavam um triste tipo de seriedade. Seus ombros
estavam caídos como se a vida os tivesse abatido duramente. Vários pareciam ter sido
fisicamente perturbados, também. Leo contou dois braços com gesso, um par de
muletas, um tapa-olho, seis bandagens, e aproximadamente sete mil Band-Aids.
“Ok, muito bem!” Leo disse. “Eu ouvi que esse é o chalé da festa!”
Ninguém riu. Todos só olharam para ele.
Will Solace bateu de leve no ombro de Leo. “Eu vou deixar vocês se
entenderem. Alguém mostra o jantar para Leo quando for à hora?”
“Eu posso,” uma das garotas disse. Nyssa, Leo lembrou. Ela usava calças de
camuflagem, um top que exibia seus braços amarelos, e uma bandana vermelha sobre
um punhado de cabelos negros. Exceto pelo seu Band-Aid sorridente no queixo, ela
parecia uma daquelas heroínas de ação, como se a qualquer segundo ela fosse pegar
uma metralhadora e começar a matar aliens do mal.
“Legal,” Leo disse. “Eu sempre quis uma irmã que pudesse me atacar.”
Nyssa não sorriu. “Vamos lá, brincalhão. Eu vou te mostrar os arredores.”
Leo não era nenhum desconhecido das oficinas. Ele crescera ao redor de
macacos de graxa e instrumentos de força. Sua mãe costumava brincar que sua primeira
chupeta foi um trocador de pneu. Mas ele nunca viu um lugar como a forja do
acampamento.
Um rapaz estava trabalhando num machado de batalha. Ele ficava testando a
lâmina numa placa de concreto. Cada vez que ele batia, o machado cortava a placa
como se fosse de queijo quente, mas ele parecia insatisfeito e voltava para afiar a ponta.
“O que ele está planejando matar com aquilo?” Leo perguntou para Nyssa. “Um
couraçado de batalha?”
“Você nunca sabe. Até com bronze Celestial —”
“É o metal?”
Ela assentiu. “Extraído do próprio Monte Olimpo. Extremamente raro. Afinal,
geralmente desintegra monstros em contato, mas grandes monstros poderosos têm peles
notoriamente flexíveis. Drakons, por exemplo —”
“Você quer dizer dragões?”
“Espécies similares. Você aprenderá a diferença na aula de luta com monstros.”
“Aula de luta com ombros. É, já consegui minha faixa preta lá.”
Ela não abriu um sorriso. Leo esperou que ela não fosse tão séria em todo o
tempo. O lado da família do seu pai tinha que ter algum senso de humor, certo?
Eles passaram por alguns rapazes fazendo um brinquedo de corda. Pelo menos
era o que parecia. Era um centauro de quinze centímetros — meio homem, meio cavalo
— armado com um arco em miniatura. Um dos campistas acionou a manivela no rabo
do centauro, e ele zumbiu em vida. Ele galopou pela mesa, gritando, “Morra, mosquito!
Morra, mosquito!” e atirando em tudo no caminho.
Aparentemente isso aconteceu antes, pois todos souberam descer no chão exceto
Leo. Seis flechas do tamanho de agulhas enterraram-se na sua camisa antes de um
campista pegar um martelo e esmagar o centauro em pedaços.
“Maldição estúpida!” O campista agitou o martelo no céu. “Eu só quero um
matador mágico de insetos! É muito para pedir?”
“Ai,” Leo disse.
Nyssa tirou as agulhas da sua camisa. “Ah, você está bem. Vamos continuar
antes que eles o reconstruam.”
Leo esfregou o peito enquanto andavam. “Esse tipo de coisa acontece muito?”
“Nos últimos tempos,” Nyssa disse, “tudo que construímos vira sucata.”
“A maldição?”
Nyssa franziu a testa. “Eu não acredito em maldições. Mas alguma coisa está
errada. E se não descobrirmos o problema do dragão, isso vai ficar cada vez pior.”
“O problema do dragão?” Leo esperou que ela estivesse falando sobre um
dragão em miniatura, talvez um que matasse baratas, mas ele teve a sensação que não
teria tanta sorte.
Nyssa o levou para um grande mapa de parede que um par de meninas estava
estudando. O mapa mostrava o acampamento — um semi-círculo de terra com o
Estreito de Long Island na costa do norte, a floresta ao oeste, os chalés ao leste, e um
anel de colinas no sul.
“Tem que ser nas colinas,” a primeira garota disse.
“Nós olhamos nas colinas,” a segunda argumentou. “A floresta é um lugar
melhor para se esconder.”
“Mas já colocamos armadilhas —”
“Espere,” Leo disse. “Vocês perderam um dragão? Um dragão de tamanho real,
verdadeiro?”
“É um dragão de bronze,” Nyssa disse. “Mas sim, um autômato de tamanho real.
O chalé de Hefesto o construiu anos atrás. Então se perdeu na floresta até alguns verões
passados, quando Beckendorf o encontrou em pedaços e o reconstruiu. Tem estado
ajudando a proteger o acampamento, mas, hã, é um pouco imprevisível.”
“Imprevisível,” Leo disse.
“Fica louco e derruba chalés, incendeia as pessoas, tenta comer os sátiros.”
“É bastante imprevisível.”
Nyssa assentiu. “Beckendorf era o único que podia controlá-lo. Então ele
morreu, e o dragão só foi ficando cada vez pior. No fim, ele ficou furioso e fugiu.
Ocasionalmente ele aparece, destrói alguma coisa, e parte novamente. Todos nós
esperamos encontrá-lo e destruí-lo —”
“Destruí-lo?” Leo estava pálido. “Vocês têm um dragão de bronze em tamanho
real, e querem destruí-lo?”
“Ele respira fogo,” Nyssa explicou. “É mortal e fora de controle.”
“Mas é um dragão! Cara, é impressionante. Você não pode tentar conversar com
ele, controlá-lo?”
“Tentamos. Jake Mason tentou. Você viu como isso acabou bem.”
Leo pensou em Jake, enrolado num gesso, dormindo sozinho no seu beliche.
“Mas —”
“Não temos opção.” Nyssa virou para as outras garotas. “Vamos tentar mais
armadilhas na floresta — aqui, aqui, e aqui. Encha-as com trinta litros de óleo de
motor.”
“O dragão bebe isso?” perguntou Leo.
“É.” Nyssa suspirou pesarosamente. “Ele costumava gostar disso com um pouco
de molho de pimenta, antes de dormir. Se ele pular numa armadilha, podemos entrar
com pulverizadores ácidos — deve dissolver na sua pele. Então conseguimos cortadores
de metal e... e acaba o trabalho.”
Todas pareciam tristes. Leo percebeu que elas não queriam matar o dragão tanto
quanto ele queria.
“Gente,” ele disse. “Tem que haver outro jeito.”
Nyssa pareceu incerta, mas alguns outros campistas pararam com o que estavam
trabalhando e amontoaram-se para ouvir a conversa.
“Como o quê?” um perguntou. “A coisa respira fogo. Não podemos nem chegar
perto.”
Fogo, Leo pensou. Ah, cara, as coisas que ele podia dizer para eles sobre fogo...
Mas ele tinha que ser cuidadoso, mesmo se esses fossem seus irmãos e irmãs.
Especialmente se ele tivesse que viver com eles.
“Bem...” Ele hesitou. “Hefesto é o deus do fogo, certo? Então ninguém de vocês
tem, tipo, resistência ao fogo ou algo parecido?”
Ninguém agiu como se fosse uma pergunta louca, o que era um alívio, mas
Nyssa balançou a cabeça gravemente.
“É uma habilidade dos ciclopes, Leo. Semideuses filhos de Hefesto... somos
apenas bons com nossas mãos. Somos construtores, artesãos, fabricantes de armas —
coisas assim.”
Os ombros de Leo caíram. “Ah.”
Um garoto no fundo disse, “Bem, um longo tempo atrás —”
“Sim, ok,” Nyssa reconheceu. “Um longo tempo atrás algum filho de Hefesto
nasceu com poder sobre o fogo. Mas aquela habilidade era muito, muito rara. E sempre
perigosa. Nenhum semideus assim nasceu em séculos. O último…” Ela olhou para um
dos garotos por ajuda.
“Mil, seiscentos e sessenta e seis,” a garota ofereceu. “Cara chamado Thomas
Faynor. Ele começou o Grande Incêndio de Londres, destruíu quase toda a cidade.”
“Certo,” Nyssa disse. “Quando uma criança de Hefesto assim aparece,
normalmente significa que algo catastrófico está prestes a acontecer. E não precisamos
de mais nenhuma catástrofe.”
Leo tentou manter seu rosto limpo de emoção, o que não era seu ponto forte.
“Acho que estou entendendo. Muito mau, porém. Se você pudesse resistir às chamas,
você poderia chegar perto do dragão.”
“Então ele te mataria com suas garras e dentes,” Nyssa disse. “Ou simplesmente
pisaria em você. Não, temos que destruí-lo. Confie em mim, se alguém pudesse
descobrir outra resposta…”
Ela não acabou, mas Leo captou a mensagem. Esse era o grande teste do chalé.
Se eles pudessem fazer algo que só Beckendorf podia fazer, se eles pudessem subjugar
o dragão sem matá-lo, então talvez a sua maldição seria retirada. Mas eles estavam
vazios de ideias. Qualquer campista que descobrisse como, seria um herói.
Uma buzina de concha soprou na distância. Campistas começaram a levantar
suas ferramentas e projetos. Leo não havia percebido que estava ficando tão tarde, mas
ele olhou pela janela e viu o sol baixando. Seu SDAH fazia isso com ele às vezes. Se ele
estava aborrecido, uma aula de cinquenta minutos parecia ter seis horas. Se ele estava
interessado em alguma coisa, como dar um tour no acampamento semideus, as horas
passavam despercebidas e bam — o dia havia acabado.
“Jantar,” Nyssa disse. “Vamos, Leo.”
“Lá no pavilhão, certo?” ele perguntou.
Ela assentiu.
“Vocês vão na frente,” Leo disse. “Você pode… me dar um segundo?”
Nyssa hesitou. Depois sua expressão derreteu. “Certo. É muito para processar.
Lembro do meu primeiro dia. Suba quando estiver pronto. Só não toque em nada. Quase
todos os projetos aqui podem matar você se não for cuidadoso.”
“Sem tocar,” Leo prometeu.
Seus companheiros saíram da forja. Logo, Leo estava sozinho com os sons dos
foles, turbinas, e pequenas máquinas clicando e zunindo.
Ele olhou para o mapa do acampamento — os locais onde seus irmãos recémencontrados
iriam colocar armadilhas para pegar um dragão. Isso estava errado. Plano
errado.
Muito raro, ele pensou. E sempre perigoso.
Ele estendeu sua mão e estudou seus dedos. Eles eram longos e finos, e não
cheio de calos como os dos outros campistas de Hefesto. Leo nunca fora o garoto maior
ou mais forte. Ele sobreviveu em duros bairros, duras escolas, duras casas de adoção
usando sua sabedoria. Ele era o palhaço da sala, o bobo da corte, porque ele aprendeu
cedo que se você fizesse piadas e fingisse que você não estava assustado, você
geralmente não seria batido. Até os piores gangsters iriam lhe tolerar, manter você por
perto para risadas. E mais, humor era um bom jeito de esconder a dor. E se isso não
funcionasse, sempre haveria o Plano B. Fugir. Mais e mais.
Havia um Plano C, mas ele prometeu para si próprio nunca usá-lo de novo.
Ele sentiu um impulso de tentar isso agora — algo que ele não fizera desde o
acidente, desde a morte de sua mãe.
Ele estendeu seus dedos e os sentiu formigando, como se estivessem acordando
— alfinetes e agulhas.
Então chamas tremularam à vida, ondulações de fogo vermelho dançando pela
sua palma.
Leo
“COMO ELE MORREU?” LEO PERGUNTOU. “Digo, Beckendorf.”
Will Solace marchou em frente. “Explosão. Beckendorf e Percy Jackson
explodiram um cruzeiro cheio de monstros. Beckendorf não teve sucesso.”
Lá estava aquele nome novamente — Percy Jackson, o namorado desaparecido
de Annabeth. O cara deve estar em todas por aqui, Leo pensou.
“Então Beckendorf era muito popular?” Leo perguntou. “Digo — antes de
explodir?”
“Ele era impressionante,” Will concordou. “Foi difícil para todo o acampamento
quando ele morreu. Jake — ele se tornou conselheiro no meio da guerra. Do mesmo
jeito que eu, na verdade. Jake deu seu melhor, mas ele nunca quis ser líder. Ele só vive
construindo coisas. Então depois da guerra, as coisas começaram a dar errado. As bigas
do Chalé Nove explodiram. Seus autômatos ficaram loucos. Suas invenções começaram
a dar problemas. Era como uma maldição, e no fim as pessoas começaram a chamar isso
assim — a Maldição do Chalé Nove. Então Jake teve seu acidente —”
“Que tinha algo a ver com o problema que ele mencionou,” Leo supôs.
“Eles estão trabalhando nisso,” Will disse sem entusiasmo. “E aqui estamos
nós.”
A forja parecia uma locomotiva movida a vapor que batera no Partenon grego e
se fundiram. Colunas brancas de mármore alinhavam as paredes manchadas de fuligem.
Chaminés lançavam fumaça sobre uma falsificação elaborada com um grupo de deuses
e monstros. A estrutura estava no canto de um canal, com várias turbinas girando uma
série de engrenagens de bronze. Leo ouviu maquinaria opressiva dentro, chamas
crepitando e martelos batendo em bigornas.
Eles passaram pela entrada, e uma dúzia de garotos e garotas que estavam
trabalhando em vários projetos congelaram. O barulho morreu sob o ruído da forja e do
click-click-click de engrenagens e alavancas.
“E aí, galera,” Will disse. “Esse é o novo irmão de vocês, Leo — hã, qual é o seu
sobrenome?”
“Valdez.” Leo percorreu os olhos pelos outros campistas. Ele realmente era
relacionado com todos eles? Seus primos vieram de algumas grandes famílias, mas ele
sempre teve apenas sua mãe — até ela morrer.
Crianças subiram e começaram a apertar mãos e apresentarem-se. Seus nomes se
misturaram juntos: Shane, Christopher, Nyssa, Harley (é, como a moto). Leo sabia que
não podia decorar todos eles. Eram muitos. Muita pressão.
Nenhum deles se parecia um com os outros — rostos de todos os diferentes
tipos, tons de pele, cor do cabelo, altura. Você nunca pensaria, Ei, olha, é a turma de
Hefesto!
Mas todos eles tinham mãos poderosas, tomadas com calos e manchadas com
graxa de motor. Até o pequeno Harley, que não devia ter mais que oito anos, parecia
que podia ir a seis rounds contra Chuck Norris sem suar.
E todas as crianças compartilhavam um triste tipo de seriedade. Seus ombros
estavam caídos como se a vida os tivesse abatido duramente. Vários pareciam ter sido
fisicamente perturbados, também. Leo contou dois braços com gesso, um par de
muletas, um tapa-olho, seis bandagens, e aproximadamente sete mil Band-Aids.
“Ok, muito bem!” Leo disse. “Eu ouvi que esse é o chalé da festa!”
Ninguém riu. Todos só olharam para ele.
Will Solace bateu de leve no ombro de Leo. “Eu vou deixar vocês se
entenderem. Alguém mostra o jantar para Leo quando for à hora?”
“Eu posso,” uma das garotas disse. Nyssa, Leo lembrou. Ela usava calças de
camuflagem, um top que exibia seus braços amarelos, e uma bandana vermelha sobre
um punhado de cabelos negros. Exceto pelo seu Band-Aid sorridente no queixo, ela
parecia uma daquelas heroínas de ação, como se a qualquer segundo ela fosse pegar
uma metralhadora e começar a matar aliens do mal.
“Legal,” Leo disse. “Eu sempre quis uma irmã que pudesse me atacar.”
Nyssa não sorriu. “Vamos lá, brincalhão. Eu vou te mostrar os arredores.”
Leo não era nenhum desconhecido das oficinas. Ele crescera ao redor de
macacos de graxa e instrumentos de força. Sua mãe costumava brincar que sua primeira
chupeta foi um trocador de pneu. Mas ele nunca viu um lugar como a forja do
acampamento.
Um rapaz estava trabalhando num machado de batalha. Ele ficava testando a
lâmina numa placa de concreto. Cada vez que ele batia, o machado cortava a placa
como se fosse de queijo quente, mas ele parecia insatisfeito e voltava para afiar a ponta.
“O que ele está planejando matar com aquilo?” Leo perguntou para Nyssa. “Um
couraçado de batalha?”
“Você nunca sabe. Até com bronze Celestial —”
“É o metal?”
Ela assentiu. “Extraído do próprio Monte Olimpo. Extremamente raro. Afinal,
geralmente desintegra monstros em contato, mas grandes monstros poderosos têm peles
notoriamente flexíveis. Drakons, por exemplo —”
“Você quer dizer dragões?”
“Espécies similares. Você aprenderá a diferença na aula de luta com monstros.”
“Aula de luta com ombros. É, já consegui minha faixa preta lá.”
Ela não abriu um sorriso. Leo esperou que ela não fosse tão séria em todo o
tempo. O lado da família do seu pai tinha que ter algum senso de humor, certo?
Eles passaram por alguns rapazes fazendo um brinquedo de corda. Pelo menos
era o que parecia. Era um centauro de quinze centímetros — meio homem, meio cavalo
— armado com um arco em miniatura. Um dos campistas acionou a manivela no rabo
do centauro, e ele zumbiu em vida. Ele galopou pela mesa, gritando, “Morra, mosquito!
Morra, mosquito!” e atirando em tudo no caminho.
Aparentemente isso aconteceu antes, pois todos souberam descer no chão exceto
Leo. Seis flechas do tamanho de agulhas enterraram-se na sua camisa antes de um
campista pegar um martelo e esmagar o centauro em pedaços.
“Maldição estúpida!” O campista agitou o martelo no céu. “Eu só quero um
matador mágico de insetos! É muito para pedir?”
“Ai,” Leo disse.
Nyssa tirou as agulhas da sua camisa. “Ah, você está bem. Vamos continuar
antes que eles o reconstruam.”
Leo esfregou o peito enquanto andavam. “Esse tipo de coisa acontece muito?”
“Nos últimos tempos,” Nyssa disse, “tudo que construímos vira sucata.”
“A maldição?”
Nyssa franziu a testa. “Eu não acredito em maldições. Mas alguma coisa está
errada. E se não descobrirmos o problema do dragão, isso vai ficar cada vez pior.”
“O problema do dragão?” Leo esperou que ela estivesse falando sobre um
dragão em miniatura, talvez um que matasse baratas, mas ele teve a sensação que não
teria tanta sorte.
Nyssa o levou para um grande mapa de parede que um par de meninas estava
estudando. O mapa mostrava o acampamento — um semi-círculo de terra com o
Estreito de Long Island na costa do norte, a floresta ao oeste, os chalés ao leste, e um
anel de colinas no sul.
“Tem que ser nas colinas,” a primeira garota disse.
“Nós olhamos nas colinas,” a segunda argumentou. “A floresta é um lugar
melhor para se esconder.”
“Mas já colocamos armadilhas —”
“Espere,” Leo disse. “Vocês perderam um dragão? Um dragão de tamanho real,
verdadeiro?”
“É um dragão de bronze,” Nyssa disse. “Mas sim, um autômato de tamanho real.
O chalé de Hefesto o construiu anos atrás. Então se perdeu na floresta até alguns verões
passados, quando Beckendorf o encontrou em pedaços e o reconstruiu. Tem estado
ajudando a proteger o acampamento, mas, hã, é um pouco imprevisível.”
“Imprevisível,” Leo disse.
“Fica louco e derruba chalés, incendeia as pessoas, tenta comer os sátiros.”
“É bastante imprevisível.”
Nyssa assentiu. “Beckendorf era o único que podia controlá-lo. Então ele
morreu, e o dragão só foi ficando cada vez pior. No fim, ele ficou furioso e fugiu.
Ocasionalmente ele aparece, destrói alguma coisa, e parte novamente. Todos nós
esperamos encontrá-lo e destruí-lo —”
“Destruí-lo?” Leo estava pálido. “Vocês têm um dragão de bronze em tamanho
real, e querem destruí-lo?”
“Ele respira fogo,” Nyssa explicou. “É mortal e fora de controle.”
“Mas é um dragão! Cara, é impressionante. Você não pode tentar conversar com
ele, controlá-lo?”
“Tentamos. Jake Mason tentou. Você viu como isso acabou bem.”
Leo pensou em Jake, enrolado num gesso, dormindo sozinho no seu beliche.
“Mas —”
“Não temos opção.” Nyssa virou para as outras garotas. “Vamos tentar mais
armadilhas na floresta — aqui, aqui, e aqui. Encha-as com trinta litros de óleo de
motor.”
“O dragão bebe isso?” perguntou Leo.
“É.” Nyssa suspirou pesarosamente. “Ele costumava gostar disso com um pouco
de molho de pimenta, antes de dormir. Se ele pular numa armadilha, podemos entrar
com pulverizadores ácidos — deve dissolver na sua pele. Então conseguimos cortadores
de metal e... e acaba o trabalho.”
Todas pareciam tristes. Leo percebeu que elas não queriam matar o dragão tanto
quanto ele queria.
“Gente,” ele disse. “Tem que haver outro jeito.”
Nyssa pareceu incerta, mas alguns outros campistas pararam com o que estavam
trabalhando e amontoaram-se para ouvir a conversa.
“Como o quê?” um perguntou. “A coisa respira fogo. Não podemos nem chegar
perto.”
Fogo, Leo pensou. Ah, cara, as coisas que ele podia dizer para eles sobre fogo...
Mas ele tinha que ser cuidadoso, mesmo se esses fossem seus irmãos e irmãs.
Especialmente se ele tivesse que viver com eles.
“Bem...” Ele hesitou. “Hefesto é o deus do fogo, certo? Então ninguém de vocês
tem, tipo, resistência ao fogo ou algo parecido?”
Ninguém agiu como se fosse uma pergunta louca, o que era um alívio, mas
Nyssa balançou a cabeça gravemente.
“É uma habilidade dos ciclopes, Leo. Semideuses filhos de Hefesto... somos
apenas bons com nossas mãos. Somos construtores, artesãos, fabricantes de armas —
coisas assim.”
Os ombros de Leo caíram. “Ah.”
Um garoto no fundo disse, “Bem, um longo tempo atrás —”
“Sim, ok,” Nyssa reconheceu. “Um longo tempo atrás algum filho de Hefesto
nasceu com poder sobre o fogo. Mas aquela habilidade era muito, muito rara. E sempre
perigosa. Nenhum semideus assim nasceu em séculos. O último…” Ela olhou para um
dos garotos por ajuda.
“Mil, seiscentos e sessenta e seis,” a garota ofereceu. “Cara chamado Thomas
Faynor. Ele começou o Grande Incêndio de Londres, destruíu quase toda a cidade.”
“Certo,” Nyssa disse. “Quando uma criança de Hefesto assim aparece,
normalmente significa que algo catastrófico está prestes a acontecer. E não precisamos
de mais nenhuma catástrofe.”
Leo tentou manter seu rosto limpo de emoção, o que não era seu ponto forte.
“Acho que estou entendendo. Muito mau, porém. Se você pudesse resistir às chamas,
você poderia chegar perto do dragão.”
“Então ele te mataria com suas garras e dentes,” Nyssa disse. “Ou simplesmente
pisaria em você. Não, temos que destruí-lo. Confie em mim, se alguém pudesse
descobrir outra resposta…”
Ela não acabou, mas Leo captou a mensagem. Esse era o grande teste do chalé.
Se eles pudessem fazer algo que só Beckendorf podia fazer, se eles pudessem subjugar
o dragão sem matá-lo, então talvez a sua maldição seria retirada. Mas eles estavam
vazios de ideias. Qualquer campista que descobrisse como, seria um herói.
Uma buzina de concha soprou na distância. Campistas começaram a levantar
suas ferramentas e projetos. Leo não havia percebido que estava ficando tão tarde, mas
ele olhou pela janela e viu o sol baixando. Seu SDAH fazia isso com ele às vezes. Se ele
estava aborrecido, uma aula de cinquenta minutos parecia ter seis horas. Se ele estava
interessado em alguma coisa, como dar um tour no acampamento semideus, as horas
passavam despercebidas e bam — o dia havia acabado.
“Jantar,” Nyssa disse. “Vamos, Leo.”
“Lá no pavilhão, certo?” ele perguntou.
Ela assentiu.
“Vocês vão na frente,” Leo disse. “Você pode… me dar um segundo?”
Nyssa hesitou. Depois sua expressão derreteu. “Certo. É muito para processar.
Lembro do meu primeiro dia. Suba quando estiver pronto. Só não toque em nada. Quase
todos os projetos aqui podem matar você se não for cuidadoso.”
“Sem tocar,” Leo prometeu.
Seus companheiros saíram da forja. Logo, Leo estava sozinho com os sons dos
foles, turbinas, e pequenas máquinas clicando e zunindo.
Ele olhou para o mapa do acampamento — os locais onde seus irmãos recémencontrados
iriam colocar armadilhas para pegar um dragão. Isso estava errado. Plano
errado.
Muito raro, ele pensou. E sempre perigoso.
Ele estendeu sua mão e estudou seus dedos. Eles eram longos e finos, e não
cheio de calos como os dos outros campistas de Hefesto. Leo nunca fora o garoto maior
ou mais forte. Ele sobreviveu em duros bairros, duras escolas, duras casas de adoção
usando sua sabedoria. Ele era o palhaço da sala, o bobo da corte, porque ele aprendeu
cedo que se você fizesse piadas e fingisse que você não estava assustado, você
geralmente não seria batido. Até os piores gangsters iriam lhe tolerar, manter você por
perto para risadas. E mais, humor era um bom jeito de esconder a dor. E se isso não
funcionasse, sempre haveria o Plano B. Fugir. Mais e mais.
Havia um Plano C, mas ele prometeu para si próprio nunca usá-lo de novo.
Ele sentiu um impulso de tentar isso agora — algo que ele não fizera desde o
acidente, desde a morte de sua mãe.
Ele estendeu seus dedos e os sentiu formigando, como se estivessem acordando
— alfinetes e agulhas.
Então chamas tremularam à vida, ondulações de fogo vermelho dançando pela
sua palma.
domingo, 18 de setembro de 2011
Capítulo Um - Percy Jackson e o Ladrão de Raios
UM
Sem querer, transformo em pó minha professora de iniciação à Álgebra.
Olhe, eu não queria ser um meio-sangue.
Se você está lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho é o seguinte: feche este livro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre seu nascimento, e tente levar uma vida normal.
Ser meio-sangue é perigoso. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável.
Se você é uma criança normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continue lendo. Eu o invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.
Mas, se você se reconhecer nestas páginas – se sentir alguma coisa emocionante lá dentro -, pare de ler imediatamente. Você pode ser um de nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás de você.
Não diga que eu não avisei.
Meu nome é Percy Jackson.
Tenho doze anos de idade. Até alguns meses atrás, era aluno de um internato, na Academia Yancy, uma escola particular para crianças problemáticas no norte do estado de Nova York.
Se eu sou uma criança problemática?
Sim. Pode-se dizer isso.
Eu poderia partir de qualquer ponto da minha vida curta e infeliz para prová-lo, mas as coisas começaram a ir realmente mal no último mês de maio, quando nossa turma do sexto ano fez uma excursão a Manhattan – vinte e oito crianças alucinadas e dois professores em um ônibus escolar amarelo indo para o Metropolitan Museum of Art, a fim de observar velharias gregas e romanas.
Eu sei, parece tortura. A maior parte das excursões da Yancy era mesmo.
Mas o sr. Brunner, nosso professor de latim, estava guiando essa excursão, assim eu tinha esperanças.
O sr. Brunner era um sujeito de meia-idade em uma cadeira de rodas motorizada. Tinha o cabelo ralo, uma barba desalinhada e usava um casaco surrado de tweed que sempre cheirava a café. Talvez você não o achasse legal, mas ele contava histórias e piadas e nos deixava fazer brincadeiras em sala. Também tinha uma impressionante coleção de armaduras e armas romanas, portanto era o único professor cuja aula não me fazia dormir.
Eu esperava que desse tudo certo na excursão. Pelo menos tinha esperança de não me meter em encrenca dessa vez.
Cara, como eu estava errado.
Entenda: coisas ruins me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quinta série, quando fomos para o campo de batalha de Saratoga, e eu tive aquele acidente com um canhão da Revolução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui expulso do mesmo jeito.
E antes disso, na escola da quarta série, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos tubarões do Mundo Marinho, e eu de, alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá para você ter uma idéia.
Nessa viagem, eu estava determinado a ser bonzinho.
Ao longo de todo o caminho para a cidade agüentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruiva e sardenta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaços de sanduíche de manteiga de amendoim com ketchup.
Grover era um alvo fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido de ano muitas vezes, porque era o único na sexta série que tinha espinhas e uma barba rala começando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que o dispensava da Educação Física pelo resto da vida, porque tinha algum tipo de doença muscular nas pernas. Andava de um jeito engraçado, como se cada passo doesse, mas não se deixe enganar por isso. Você precisa vê-lo correr quando era dia de enchilada na cantina.
De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduíche que grudavam no cabelo castanho cacheado dele, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava sendo observado, sob o risco de ser expulso. O diretor me ameaçara de morte com uma suspensão “na escola” (ou seja, sem poder assistir às aulas, mas tendo de comparecer à escola e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de casa) caso alguma coisa ruim, embaraçosa ou até moderadamente divertida acontecesse durante a excursão.
- Eu vou matá-la – murmurei.
Grover tentou me acalmar.
- Está tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim.
Ele se esquivou de outro pedaço do lanche de Nancy.
- Agora chega. – Comecei a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento.
- Você já está sendo observado – ele me lembrou. – Sabe que será culpado se acontecer alguma coisa.
Quando me lembro daquilo, preferia ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspensão na escola não teria sido nada em comparação com a encrenca que eu estava prestes a me meter.
O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu.
Ele foi na frente em sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos, passando por estátuas de mármore e caixas de vidro repletas de cerâmica preta e laranja muito velha.
Eu ficava alucinado só de pensar que aquelas coisas tinham sobrevividos por dois mil, três mil anos.
Ele nos reuniu em volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita para uma menina mais ou menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscrições laterais. Estava tentando ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao meu redor estavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra professora que nos acompanhava, a sra. Dodds, me olhava de cara feia.
A sra. Dudds era aquela professorinha de matemática da Geórgia que sempre usava um casaco de couro preto, apesar de ter cinqüenta anos de idade. Parecia má o bastante para entrar com uma moto Harley bem dentro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando nossa última professora de matemática teve um colapso nervoso.
Desde o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo diabo. Ela me apontava o dedo torto e dizia: “Agora, meu bem”, com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
- Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu me virei e disse:
- Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que eu pretendia.
O grupo inteiro deu risada. O Sr. Brunner interrompeu seu história.
- Sr. Jackson – disse ele -, fez algum comentário?
Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
- Não, senhor.
O sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela.
- Talvez possa nos dizer o que esta figura representa.
Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
- É Cronos comendo os filhos, certo?
- Sim – disse o sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. – E ele fez isso porque...
- Bem... – eu quebrei a cabeça para me lembrar. – Cronos era o deus-rei e...
- Rei? – perguntou o sr. Brunner.
- Titã – eu me corrigi. – E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs.
- Eca! – disse uma das meninas atrás de mim.
- ...e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs – continuei -, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do grupo.
Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
- Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar nas nossas entrevistas de emprego: “Por favor explique por que Cronos comeu seus filhos.”
- E por que, Sr. Jackson – disse o sr. Brunner -, parafraseando a excelente pergunta da Srta. Bobofit, isso importa na vida real?
- Se ferrou – murmurou Grover.
- Cala a boca – chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
- Não sei, senhor.
- Entendo. – O sr. Brunner pareceu desapontado. – Bem, meio ponto, Sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortando-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
Grover e eu estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
- Sr. Jackson.
Eu sabia o que vinha a seguir.
Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
- Senhor?
O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora – olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
- Você precisa aprender a responder à minha pergunta – disse ele.
- Sobre os titãs?
- Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
- Ah.
- O que você aprende comigo – disse ele – é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava “Olé!” e nos desafiava, ponta de espada contra o giz a correr para o quadro-negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de C-. Não – ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para sair e comer meu lanche.
A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêndios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquisitões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
- Detenção? - perguntou Grover.
- Não - disse eu. - Não do Brunner. Eu só gostaria que ele às vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
- Posso comer sua maçã?
Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas – imagino que tivesse se cansado de roubar dos turistas - e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
- Oops. - Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: "Conte até dez, controle seu gênio." Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
- Percy me empurrou! A sra. Dodds se materializou ao nosso lado. Algumas das crianças estavam sussurrando:
- Você viu...
- ...a água...
- ...parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc. e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo ela esperara o semestre inteiro:
- Agora, meu bem...
- Eu sei - resmunguei. - Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
- Venha comigo - disse a sra. Dodds.
- Espere! - guinchou Grover. - Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
- Acho que não, sr. Underwood - disse ela.
- Mas...
- Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente,
- Tudo bem, cara - disse a ele. - Obrigado por tentar.
- Meu bem - latiu a sra. Dodds para mim. - Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu melhor olhar de "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada à entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo - meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta à seção greco-romana.
A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um mulo estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
- Você está nos criando problemas, meu bem - disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
- Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
- Você achou mesmo que ia se safar desta? A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa. Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar. Eu disse:
- Eu... eu vou me esforçar mais, senhora. Um trovão sacudiu o edifício.
- Nós não somos bobos, Percy Jackson - disse a sra. Dodds. - Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos Confesse, e você sentirá menos dor.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na Internet sem ter nem lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
- E então? - exigiu.
- Senhora, eu não...
- O seu tempo se esgotou - sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas - e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
- Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada - a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
- Morra, meu bem!
E voou para cima de mim.
Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
Eu estava sozinho.
Havia uma caneta esferográfica na minha mão-.
O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
Voltei para o lado de fora.
Tinha começado a chover.
Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando me viu, disse:
- Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
- Quem? - respondi.
- Nossa professora. Dãã!
Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
- Quem? - respondeu ele.
Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
- Não tem graça, cara - disse a ele. - Isso é sério. Um trovão estourou no alto.
Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido. Fui até ele. Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
- Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
- Senhor - disse eu -, onde está a sra. Dodds? Ele olhou para mim com a expressão vazia.
- Quem?
- A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação à álgebra.
Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
- Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
Sem querer, transformo em pó minha professora de iniciação à Álgebra.
Olhe, eu não queria ser um meio-sangue.
Se você está lendo isto porque acha que pode ser um, meu conselho é o seguinte: feche este livro agora mesmo. Acredite em qualquer mentira que sua mãe ou seu pai lhe contou sobre seu nascimento, e tente levar uma vida normal.
Ser meio-sangue é perigoso. É assustador. Na maioria das vezes, acaba com a gente de um jeito penoso e detestável.
Se você é uma criança normal, que está lendo isto porque acha que é ficção, ótimo. Continue lendo. Eu o invejo por ser capaz de acreditar que nada disso aconteceu.
Mas, se você se reconhecer nestas páginas – se sentir alguma coisa emocionante lá dentro -, pare de ler imediatamente. Você pode ser um de nós. E, uma vez que fica sabendo disso, é apenas uma questão de tempo antes que eles também sintam isso, e venham atrás de você.
Não diga que eu não avisei.
Meu nome é Percy Jackson.
Tenho doze anos de idade. Até alguns meses atrás, era aluno de um internato, na Academia Yancy, uma escola particular para crianças problemáticas no norte do estado de Nova York.
Se eu sou uma criança problemática?
Sim. Pode-se dizer isso.
Eu poderia partir de qualquer ponto da minha vida curta e infeliz para prová-lo, mas as coisas começaram a ir realmente mal no último mês de maio, quando nossa turma do sexto ano fez uma excursão a Manhattan – vinte e oito crianças alucinadas e dois professores em um ônibus escolar amarelo indo para o Metropolitan Museum of Art, a fim de observar velharias gregas e romanas.
Eu sei, parece tortura. A maior parte das excursões da Yancy era mesmo.
Mas o sr. Brunner, nosso professor de latim, estava guiando essa excursão, assim eu tinha esperanças.
O sr. Brunner era um sujeito de meia-idade em uma cadeira de rodas motorizada. Tinha o cabelo ralo, uma barba desalinhada e usava um casaco surrado de tweed que sempre cheirava a café. Talvez você não o achasse legal, mas ele contava histórias e piadas e nos deixava fazer brincadeiras em sala. Também tinha uma impressionante coleção de armaduras e armas romanas, portanto era o único professor cuja aula não me fazia dormir.
Eu esperava que desse tudo certo na excursão. Pelo menos tinha esperança de não me meter em encrenca dessa vez.
Cara, como eu estava errado.
Entenda: coisas ruins me acontecem em excursões escolares. Como na minha escola da quinta série, quando fomos para o campo de batalha de Saratoga, e eu tive aquele acidente com um canhão da Revolução Americana. Eu não estava apontando para o ônibus da escola, mas é claro que fui expulso do mesmo jeito.
E antes disso, na escola da quarta série, quando fizemos um passeio pelos bastidores do tanque dos tubarões do Mundo Marinho, e eu de, alguma forma, acionei a alavanca errada no passadiço e nossa turma tomou um banho inesperado. E antes disso... Bem, já dá para você ter uma idéia.
Nessa viagem, eu estava determinado a ser bonzinho.
Ao longo de todo o caminho para a cidade agüentei Nancy Bobofit, aquela cleptomaníaca ruiva e sardenta, acertando a nuca do meu melhor amigo, Grover, com pedaços de sanduíche de manteiga de amendoim com ketchup.
Grover era um alvo fácil. Ele era magrelo. Chorava quando ficava frustrado. Devia ter repetido de ano muitas vezes, porque era o único na sexta série que tinha espinhas e uma barba rala começando a nascer no queixo. E, ainda por cima, era aleijado. Tinha um atestado que o dispensava da Educação Física pelo resto da vida, porque tinha algum tipo de doença muscular nas pernas. Andava de um jeito engraçado, como se cada passo doesse, mas não se deixe enganar por isso. Você precisa vê-lo correr quando era dia de enchilada na cantina.
De qualquer modo, Nancy Bobofit estava jogando bolinhas de sanduíche que grudavam no cabelo castanho cacheado dele, e ela sabia que eu não podia revidar, porque já estava sendo observado, sob o risco de ser expulso. O diretor me ameaçara de morte com uma suspensão “na escola” (ou seja, sem poder assistir às aulas, mas tendo de comparecer à escola e ficar trancado numa sala fazendo tarefas de casa) caso alguma coisa ruim, embaraçosa ou até moderadamente divertida acontecesse durante a excursão.
- Eu vou matá-la – murmurei.
Grover tentou me acalmar.
- Está tudo bem. Gosto de manteiga de amendoim.
Ele se esquivou de outro pedaço do lanche de Nancy.
- Agora chega. – Comecei a levantar, mas Grover me puxou de volta para o assento.
- Você já está sendo observado – ele me lembrou. – Sabe que será culpado se acontecer alguma coisa.
Quando me lembro daquilo, preferia ter acertado Nancy Bobofit no ato. A suspensão na escola não teria sido nada em comparação com a encrenca que eu estava prestes a me meter.
O sr. Brunner guiou o passeio pelo museu.
Ele foi na frente em sua cadeira de rodas, conduzindo-nos pelas grandes galerias cheias de ecos, passando por estátuas de mármore e caixas de vidro repletas de cerâmica preta e laranja muito velha.
Eu ficava alucinado só de pensar que aquelas coisas tinham sobrevividos por dois mil, três mil anos.
Ele nos reuniu em volta de uma coluna de pedra com quatro metros de altura e uma grande esfinge no topo, e começou a explicar que aquilo era um marco tumular, uma estela, feita para uma menina mais ou menos da nossa idade. Contou-nos sobre as inscrições laterais. Estava tentando ouvir o que ele tinha a dizer, porque era um pouco interessante, mas todos ao meu redor estavam falando, e cada vez que eu dizia para calarem a boca, a outra professora que nos acompanhava, a sra. Dodds, me olhava de cara feia.
A sra. Dudds era aquela professorinha de matemática da Geórgia que sempre usava um casaco de couro preto, apesar de ter cinqüenta anos de idade. Parecia má o bastante para entrar com uma moto Harley bem dentro do seu armário. Tinha chegado em Yancy no meio do ano, quando nossa última professora de matemática teve um colapso nervoso.
Desde o primeiro dia, a sra. Dodds adorou Nancy Bobofit e concluiu que eu tinha sido gerado pelo diabo. Ela me apontava o dedo torto e dizia: “Agora, meu bem”, com a maior doçura, e eu sabia que ia ficar detido depois da aula por um mês.
Certa vez, depois que ela me fez apagar as respostas em antigos livros de exercícios de matemática até meia-noite, disse a Grover que achava que a sra. Dodds não era gente. Ele olhou para mim, muito sério, e disse:
- Você está certíssimo.
O sr. Brunner continuou falando sobre arte funerária grega.
Finalmente, Nancy Bobofit, abafando o riso, falou algo sobre o sujeito pelado na estela, e eu me virei e disse:
- Quer calar a boca?
Saiu mais alto do que eu pretendia.
O grupo inteiro deu risada. O Sr. Brunner interrompeu seu história.
- Sr. Jackson – disse ele -, fez algum comentário?
Meu rosto estava completamente vermelho. Eu disse:
- Não, senhor.
O sr. Brunner apontou para uma das figuras na estela.
- Talvez possa nos dizer o que esta figura representa.
Olhei para a imagem entalhada e senti uma onda de alívio, porque de fato a reconhecera.
- É Cronos comendo os filhos, certo?
- Sim – disse o sr. Brunner, e obviamente não estava satisfeito. – E ele fez isso porque...
- Bem... – eu quebrei a cabeça para me lembrar. – Cronos era o deus-rei e...
- Rei? – perguntou o sr. Brunner.
- Titã – eu me corrigi. – E... ele não confiava nos filhos, que eram os deuses. Então, hum, Cronos os comeu, certo? Mas sua esposa escondeu o bebê Zeus e deu a Cronos uma pedra para comer no lugar dele. E depois, quando Zeus cresceu, ele enganou o pai, Cronos, e o fez vomitar seus irmãos e irmãs.
- Eca! – disse uma das meninas atrás de mim.
- ...e então houve aquela grande briga entre os deuses e os titãs – continuei -, e os deuses venceram.
Algumas risadinhas do grupo.
Atrás de mim, Nancy Bobofit murmurou para uma amiga:
- Como se fôssemos usar isso na vida real. Como se fossem falar nas nossas entrevistas de emprego: “Por favor explique por que Cronos comeu seus filhos.”
- E por que, Sr. Jackson – disse o sr. Brunner -, parafraseando a excelente pergunta da Srta. Bobofit, isso importa na vida real?
- Se ferrou – murmurou Grover.
- Cala a boca – chiou Nancy, a cara ainda mais vermelha que seu cabelo.
Pelo menos Nancy também foi enquadrada. O sr. Brunner era o único que a pegava dizendo algo errado. Tinha ouvidos de radar.
Pensei na pergunta dele, e encolhi os ombros.
- Não sei, senhor.
- Entendo. – O sr. Brunner pareceu desapontado. – Bem, meio ponto, Sr. Jackson. Zeus, na verdade, deu a Cronos uma mistura de mostarda e vinho, o que o fez vomitar as outras cinco crianças, que, é claro, sendo deuses imortais, estavam vivendo e crescendo sem serem digeridas no estômago do titã. Os deuses derrotaram o pai deles, cortando-no em pedaços com sua própria foice e espalharam os restos no Tártaro, a parte mais escura do Mundo Inferior. E com esse alegre comentário, é hora do almoço. Sra. Dodds, quer nos levar de volta para fora?
A turma foi retirada, as meninas segurando a barriga, os garotos empurrando uns aos outros e agindo como bobões.
Grover e eu estávamos prestes a segui-los quando o sr. Brunner disse:
- Sr. Jackson.
Eu sabia o que vinha a seguir.
Disse a Grover para ir andando. Então me voltei para o professor.
- Senhor?
O sr. Brunner tinha aquele olhar que não deixa a gente ir embora – olhos castanhos intensos que poderiam ter mil anos de idade e já ter visto de tudo.
- Você precisa aprender a responder à minha pergunta – disse ele.
- Sobre os titãs?
- Sobre a vida real. E como seus estudos se aplicam a ela.
- Ah.
- O que você aprende comigo – disse ele – é de uma importância vital. Espero que trate o assunto como tal. De você, aceitarei apenas o melhor, Percy Jackson.
Eu queria ficar zangado, aquele sujeito me pressionava demais.
Quer dizer, claro, era legal em dias de torneio, quando ele vestia uma armadura romana, bradava “Olé!” e nos desafiava, ponta de espada contra o giz a correr para o quadro-negro e citar pelo nome cada pessoa grega ou romana que já viveu, o nome de sua mãe e que deuses cultuavam. Mas o sr. Brunner esperava que eu fosse tão bom quanto todos os outros a despeito do fato de que tenho dislexia e transtorno do déficit de atenção, e de que nunca na vida tirei uma nota acima de C-. Não – ele não esperava que eu fosse tão bom quanto; ele esperava que eu fosse melhor. E eu simplesmente não podia aprender todos aqueles nomes e fatos, e muito menos escrevê-los direito.
Murmurei alguma coisa sobre me esforçar mais, enquanto o sr. Brunner lançava um olhar longo e triste para a estela, como se tivesse estado no funeral daquela menina.
Ele me disse para sair e comer meu lanche.
A turma se reuniu nos degraus da frente do museu, de onde podíamos assistir ao trânsito de pedestres pela Quinta Avenida.
Acima de nós, uma imensa tempestade estava se formando, com as nuvens mais escuras que eu já tinha visto sobre a cidade. Imaginei que talvez fosse o aquecimento global ou qualquer coisa assim, porque o tempo em todo o estado de Nova York estava esquisito desde o Natal. Tivemos nevascas pesadas, inundações, incêndios nas florestas causados por raios. Eu não teria ficado surpreso se fosse um furacão chegando.
Ninguém mais pareceu notar. Alguns dos garotos estavam jogando biscoitos para os pombos. Nancy Bobofit tentava afanar alguma coisa da bolsa de uma senhora e, é claro, a sra. Dodds não via nada.
Grover e eu nos sentamos na beirada do chafariz, longe dos outros. Pensamos que, se fizéssemos isso, talvez ninguém descobrisse que éramos daquela escola — a escola para esquisitões lesados que não davam certo em nenhum outro lugar.
- Detenção? - perguntou Grover.
- Não - disse eu. - Não do Brunner. Eu só gostaria que ele às vezes me desse um tempo. Quer dizer, não sou um gênio.
Grover não disse nada por algum tempo. Então, quando achei que ele ia me brindar com algum comentário filosófico profundo para me fazer sentir melhor, ele disse:
- Posso comer sua maçã?
Eu não estava com muito apetite, então a entreguei a ele.
Observei os táxis que passavam descendo a Quinta Avenida e pensei no apartamento de minha mãe, na área residencial próxima ao lugar onde estávamos sentados. Eu não a via desde o Natal. Tive muita vontade de pular em um táxi e ir para casa. Ela me abraçaria e ficaria contente de me ver, mas também ficaria desapontada. Imediatamente me mandaria de volta para Yancy e me lembraria que preciso me esforçar mais, ainda que aquela fosse minha sexta escola em seis anos e que, provavelmente, eu seria chutado para fora de novo. Não conseguiria suportar o olhar triste que ela me lançaria.
O sr. Brunner estacionou a cadeira de rodas na base da rampa para deficientes. Comia aipo enquanto lia um romance. Um guarda-chuva vermelho estava enfiado nas costas da cadeira, fazendo-a parecer uma mesa de café motorizada.
Eu estava prestes a desembrulhar meu sanduíche quando Nancy Bobofit apareceu diante de mim com as amigas feiosas – imagino que tivesse se cansado de roubar dos turistas - e deixou seu lanche, já comido pela metade, cair no colo de Grover.
- Oops. - Ela arreganhou um sorriso para mim, com os dentes tortos. As sardas eram alaranjadas, como se alguém tivesse pintado o rosto dela com um spray de Cheetos líquido.
Tentei ficar calmo. O orientador da escola me dissera um milhão de vezes: "Conte até dez, controle seu gênio." Mas estava tão furioso que me deu um branco. Uma onda rugia nos meus ouvidos.
Não me lembro de ter tocado nela, mas quando dei por mim Nancy estava sentada com o traseiro no chafariz, berrando:
- Percy me empurrou! A sra. Dodds se materializou ao nosso lado. Algumas das crianças estavam sussurrando:
- Você viu...
- ...a água...
- ...parece que a agarrou...
Eu não sabia do que elas estavam falando. Tudo o que sabia era que estava encrencado outra vez.
Assim que se certificou de que a pobre Nancy estava bem, prometendo dar-lhe uma blusa nova na loja de presentes do museu etc. e tal, a sra. Dodds se voltou para mim. Havia um fogo triunfante em seus olhos, como se eu tivesse feito algo pelo ela esperara o semestre inteiro:
- Agora, meu bem...
- Eu sei - resmunguei. - Um mês apagando livros de exercícios.
Não foi a coisa certa para dizer.
- Venha comigo - disse a sra. Dodds.
- Espere! - guinchou Grover. - Fui eu. Eu a empurrei.
Olhei para ele perplexo. Não podia acreditar que estivesse tentando me proteger. Ele morria de medo da sra. Dodds.
Ela lançou um olhar tão furioso que fez o queixo penugento dele tremer.
- Acho que não, sr. Underwood - disse ela.
- Mas...
- Você... vai... ficar... aqui.
Grover me olhou desesperadamente,
- Tudo bem, cara - disse a ele. - Obrigado por tentar.
- Meu bem - latiu a sra. Dodds para mim. - Agora.
Nancy Bobofit deu um sorriso falso.
Lancei-lhe meu melhor olhar de "vou acabar com a sua raça". Então me virei para enfrentar a sra. Dodds, mas ela não estava lá. Estava postada à entrada do museu, lá no alto dos degraus, gesticulando impaciente para mim.
Como ela chegou lá tão depressa?
Tenho milhares de momentos desse tipo - meu cérebro adormece ou algo assim e, quando me dou conta, vejo que perdi alguma coisa, como se uma peça do quebra-cabeça desaparecesse e me deixasse olhando para o espaço vazio atrás dela. O orientador da escola me disse que isso era parte do transtorno do déficit de atenção, era meu cérebro que interpretava tudo errado.
Eu não tinha tanta certeza.
Fui atrás da sra. Dodds.
No meio da escadaria, olhei para Grover lá atrás. Ele parecia pálido, movendo os olhos entre mim e o sr. Brunner, como se quisesse que o sr. Brunner reparasse no que estava acontecendo, mas o professor estava absorto em seu romance.
Voltei a olhar para cima. A sra. Dodds desaparecera de novo. Estava agora dentro do edifício, no fim do hall de entrada.
Certo, pensei. Ela vai me fazer comprar uma blusa nova para Nancy na loja de presentes.
Mas aparentemente não era esse o plano.
Eu a segui museu adentro. Quando finalmente a alcancei, estávamos de volta à seção greco-romana.
A não ser por nós, a galeria estava vazia.
A sra. Dodds estava postada de braços cruzados na frente de um grande friso de mármore com os deuses gregos. Ela fazia um mulo estranho com a garganta, como um rosnado.
Mesmo sem o ruído, eu teria ficado nervoso. É esquisito estar sozinho com uma professora, especialmente a sra. Dodds. Algo no modo como ela olhava para o friso, como se quisesse pulverizá-lo...
- Você está nos criando problemas, meu bem - disse ela.
Fiz o que era seguro. Disse:
- Sim, senhora.
Ela ajeitou os punhos de seu casaco de couro.
- Você achou mesmo que ia se safar desta? A expressão em seus olhos era mais que furiosa. Era perversa. Ela é uma professora, pensei, nervoso. Não é provável que vá me machucar. Eu disse:
- Eu... eu vou me esforçar mais, senhora. Um trovão sacudiu o edifício.
- Nós não somos bobos, Percy Jackson - disse a sra. Dodds. - Seria apenas uma questão de tempo até que o descobríssemos Confesse, e você sentirá menos dor.
Eu não sabia do que ela estava falando.
Tudo o que pude pensar foi que os professores haviam descoberto o estoque ilegal de doces que eu estava vendendo no meu dormitório. Ou talvez tivessem descoberto que eu pegara meu trabalho sobre Tom Sawyer na Internet sem ter nem lido o livro, e agora iam retirar minha nota. Ou pior, iam me obrigar a ler o livro.
- E então? - exigiu.
- Senhora, eu não...
- O seu tempo se esgotou - sibilou ela.
Então algo muito estranho aconteceu. Os olhos dela começaram a brilhar como carvão de churrasco. Os dedos se esticaram, transformando-se em garras. O casaco se fundiu em grandes asas de couro. Ela não era humana. Era uma bruxa má e enrugada, com asas e garras de morcego e com uma boca repleta de presas amareladas - e estava prestes a me fazer em pedaços.
Então as coisas ficaram ainda mais esquisitas.
O sr. Brunner, que estava na frente do museu um minuto antes, foi com a cadeira de rodas até o vão da porta da galeria, segurando uma caneta.
- Olá, Percy! — gritou ele, e lançou a caneta pelo ar.
A sra. Dodds deu um bote para cima de mim.
Com um gemido agudo, eu me esquivei e senti as garras cortando o ar ao lado do meu ouvido. Agarrei a caneta esferográfica no alto, mas quando ela atingiu minha mão já não era mais uma caneta. Era uma espada - a espada de bronze do sr. Brunner, que ele sempre usava em dias de torneio.
A sra. Dodds virou-se na minha direção com uma expressão assassina nos olhos.
Meus joelhos ficaram bambos. As mãos tremiam tanto que quase deixei a espada cair.
Ela rosnou:
- Morra, meu bem!
E voou para cima de mim.
Um terror absoluto percorreu meu corpo. Fiz a única coisa que me ocorreu naturalmente: desferi um golpe com a espada.
A lâmina de metal atingiu o ombro dela e passou direto por seu corpo, como se ela fosse feita de água: Zaz!
A sra. Dodds era um castelo de areia debaixo de um ventilador. Ela explodiu em areia amarela, reduziu-se a pó, sem deixar nada do cheiro de enxofre, um grito estridente que foi sumindo e um calafrio de maldade no ar, como se aqueles olhos vermelhos incandescentes ainda estivessem me olhando.
Eu estava sozinho.
Havia uma caneta esferográfica na minha mão-.
O sr. Brunner não estava lá. Não havia ninguém lá além de mim.
Minhas mãos ainda estavam tremendo. Meu lanche devia estar contaminado com cogumelos mágicos ou coisa assim.
Será que eu havia imaginado tudo aquilo?
Voltei para o lado de fora.
Tinha começado a chover.
Grover estava sentado junto ao chafariz com um mapa do museu formando uma tenda em cima de sua cabeça. Nancy Bobofit ainda estava lá, encharcada do banho no chafariz, resmungando para as amigas feiosas. Quando me viu, disse:
- Espero que a sra. Kerr tenha chicoteado seu traseiro.
- Quem? - respondi.
- Nossa professora. Dãã!
Eu pisquei. Não tínhamos nenhuma professora chamada sra. Kerr. Perguntei a Nancy de quem ela estava falando.
Ela simplesmente revirou os olhos e me deu as costas.
Perguntei a Grover onde estava a sra. Dodds.
- Quem? - respondeu ele.
Mas Grover primeiro fez uma pausa, e não olhou para mim, portanto, pensei que estivesse me gozando.
- Não tem graça, cara - disse a ele. - Isso é sério. Um trovão estourou no alto.
Vi o sr. Brunner sentado embaixo do guarda-chuva vermelho, lendo seu livro, como se nunca tivesse se mexido. Fui até ele. Ele ergueu os olhos, um pouco distraído.
- Ah, é a minha caneta. Por favor, traga seu próprio instrumento de escrita no futuro, sr. Jackson.
Entreguei a caneta ao sr. Brunner. Não tinha notado que ainda a estava segurando.
- Senhor - disse eu -, onde está a sra. Dodds? Ele olhou para mim com a expressão vazia.
- Quem?
- A outra professora que nos acompanhava. A sra. Dodds. Professora de iniciação à álgebra.
Ele franziu a testa e se inclinou para a frente, parecendo ligeiramente preocupado.
- Percy, não há nenhuma sra. Dodds nesta excursão. Até onde sei, nunca houve uma sra. Dodds na Academia Yancy. Está se sentindo bem?
Assinar:
Comentários (Atom)